Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

De Olhos Bem Abertos

Este artigo inaugura esta categoria em duas vertentes e contra mim estou a jogar, porque ao ser confuso, não clarifica o meu objectivo com a categoria MVSEVM.
Se por um lado este artigo é sobre as tais coisas nerds que vos prometi, por outro é uma espécie de obituário e style file.

Óculos, Inuítes e André Courrèges.

É amplamente conhecido que as próteses oculares têm origem desconhecida e que tentar encontrar uma única origem para os óculos é muito complicado. Foquemo-nos na Ásia: é frequente cometer-se o erro de dizer que os óculos foram inventados na China. Os óculos têm origem na Índia, embora existam as tais referências que dizem que a origem dos mesmos é chinesa e remonta à dinastia Ming (entre os sécs. XIV e XVII). Mas afinal, está tudo errado. Há escritos que comprovam o contrário, que os óculos chegaram à China por outras mãos, apenas no séc. XV. Seja como for, as rotas comerciais ofereceram ao ocidente a hipótese de entrar em contacto com o objecto óculos, que terá sido trazido juntamente com uns sacos de açafrão, dando origem ao desenvolvimento dos primeiros óculos como hoje os conhecemos. Talvez apenas ao nível da forma? No ocidente, o princípio desses óculos como hoje os conhecemos é italiano, e data do final do séc. XIII. Consta-se que dois factores contribuíram em muito para o desenvolvimento da prótese ocular: a obra em sete volumes do cientista árabe Alhazen “O Livro da Óptica”, escrito entre 1011 e 1021 e traduzido por um anónimo para o latim no final do séc. XII ou início do séc. XVIII, e o desenvolvimento do trabalho do vidro polido, que deu origem à lupa. O Clero, lá está, sempre o Clero, a classe alfabetizada por excelência, terá tido acesso não só a uma cópia da obra de Alhazen, muito apreciada até ao final da Idade Média, mas também às técnicas de desenvolvimento da lupa, muito utilizada pelos monges copistas, responsáveis pela “difusão” do que eram as obras escritas. Mas atenção, os egípcios, cerca de dois mil anos antes, já tinham descoberto a lupa, e há quinze anos soube-se que os vikings, na mesma altura que os italianos, também andavam a polir vidro para fazer lupas. Ora bem, o livro de Alhazen tem esta informação toda. A primeira menção ao objecto percursor dos óculos actuais é de um frade chamado Giordano da Pisa, em Pisa, Itália, num sermão que proferiu a 23 de Fevereiro de 1306, em que fala da arte recente (com menos de duas décadas) desta prótese que faz bem à visão. Mas até então a lupa e os óculos eram mantidos em segredo. (Sempre se temeu muito a informação do povo…) Consta que um outro frade, colega de Giordano, de seu nome Alessandro della Spina, tendo entrado em contacto com o objecto e descoberto como é que se fabricavam lupas, decidiu começar a produzir óculos para o consumo geral (ele há gente boa!), e consta que em 1301, em Veneza, já havia legislação para a comercialização deste novo e mui procurado objecto.
E depois desta salsada toda de factos, resta concluir que afinal os óculos de hoje e não as tentativas de óculos e de compreender a visão que já datavam da Antiguidade Clássica, resultam então da junção de todo este conhecimento e culminam num objecto sem o qual eu, por exemplo, não consigo passar porque vejo muito mal. É correcto até prova em contrário que os óculos são uma invenção italiana do séc. XVIII, e a primeira prova pictórica da sua existência remonta a 1352 e não é uma selfie, não senhora, é um retrato do Cardeal Hugues de Provence pintado por Tommaso de Modena. oculosOs Inuítes são os habitantes das regiões árticas do Alasca, Canadá, Sibéria e Groenlândia.
Não havendo muita informação acerca deste povo, à excepção do que tem sido revelado ao mundo através de descobertas arqueológicas que, entre outras coisas, dão conta que são nómadas de origem asiática que começaram a habitar as zonas mais inóspitas da Sibéria e que daí atingiram Groenlândia e por aí fora, porque a Terra é redonda, até que, por volta do séc. XIV, aquando de um período conhecido como Pequena Idade do Gelo, deixaram de empreender a sua vida nas zonas mais altas do Ártico e vieram descendo por aí abaixo. Os primeiros registos escritos (antes disto o pessoal da Noruega já conhecia esta malta) da sua existência (desculpem este eurocentrismo) remontam ao século XV, sendo que os mais frequentes sucedem a partir do séc. XVII, quando os baleeiros bascos franceses e os barcos de pesca de bacalhau, que foram galgando Oceano acima, se encontraram com o povo Inuíte, que vinha a descer gelo abaixo. Os Inuítes subsistiram desde sempre num clima particularmente difícil, tendo o oceano como fonte primordial de matéria prima, já que a neve é bastante estéril, tendo baseado a sua economia interna e posteriormente externa no comércio/troca de peles e objectos feitos em osso.
Eskimos-7André Courrèges nasceu em Pau, nos Pirinéus Franceses, a 9 de Março de 1923.
Estudou engenharia civil, mas rapidamente deixou os desígnios da engenharia para encetar uma carreira no mundo da Moda, pela mão de Cristóbal Balenciaga.
Em 1961 cria a sua própria marca, homónima, a qual viria a ficar conhecida pelas linhas direitas e pelo estilo geométrico que viria a ser copiado e reinterpretado vezes sem conta até aos nossos dias. Atribuem-se a Courrèges algumas das invenções que hoje não conseguimos dispensar: a mini-saia, que em bom rigor era a saia acima do joelho, mas que lhe pertence por tudo e mais alguma coisa, especialmente por ter sido apresentada na sua colecção de haute couture de 1964, a famosíssima Space Age Collection, descrita pelo New York Times como a melhor de sempre, a bota rasa, que Courrèges apresentou ao mundo como go-go boot, em 1964 e comercializou em larga escala em 1965, ou tão simplesmente todo o imaginário espacial sixties que temos bem gravado na memória do retro vintage. Foi o primeiro a usar materiais como o plástico para gabardinas, ou as malhas para conjuntos orgânicos e que se adaptavam à vida de uma Mulher jovem e muito activa, eficaz.
Courrèges morreu no passado dia 7 de Janeiro e ainda ninguém lhe prestou a devida homenagem.
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Em 1964, estes óculos que André Courrèges usa aqui nesta fotografia, causaram furor.
Faziam parte da tal colecção Space Age e foram tidos em conta como uma peça surrealista, impossível de utilizar, vagamente absurda.
O modelo original, num material pesado, de cor creme muito clara, e adornado com charneiras para sustentar a articulação das hastes, ronda hoje em dia um valor comercial na ordem dos €3000,00 e é extremamente raro. Já tive uns na mão, que pertenciam ao eterno Jean-Claude Messana – Papá, para mim – dono da Holala Ibiza, loja vintage onde trabalhei em Barcelona. A juntar ao espólio Courrèges, Jean-Claude tinha dentro de uma cápsula de acrílico um casaco original da Space Age. Deliro muito com a ideia de espólio museológico dos primórdios do pronto-a-vestir, hoje em dia largamente comercializado com o rótulo “vintage”. Mas é preciso saber. E aprender.
Salvador-dali-courreges-andre-opticas-lisboaAcontece que estes óculos de lentes opacas com umas frinchas que parecem um desenho animado japonês a rir, têm origem num modelo de óculos de sol originalmente fabricado em osso pelos Inuítes, para que fosse viável proteger os seus olhos do reflexo ofuscante da neve quando iluminada pelo sol. As frinchas permitem que o olho veja apenas o suficiente, protegendo-o das queimaduras provocadas pelo sol na neve, da cegueira temporária que esta luminosidade provoca e da cegueira permanente que a exposição contínua a este reflexo pode provocar.
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Os óculos são asiáticos, os asiáticos rumaram a norte e aí se estabeleceram, resistindo às condições meteorológicas mais inóspitas. Os Inuítes foram “descobertos” por pescadores de baleias Bascos no séc XVII, e começaram a ser estudados enquanto tribo no início do século passado. Courrèges nasceu a 98km de distância de Biarritz, no País Basco Francês e foi trabalhar com Cristóbal Balenciaga, um Basco de Getaria, País Basco Espanhol. E na sua primeira colecção apresentou esta peça. ORG_IMG_9889_l
A marca Courrèges foi vendida a uma empresa japonesa em 1983 e parcialmente recuperada em 1984.
André e a sua mulher abandonaram o comando da marca em 1995 e em 2011,  Coqueline vendeu finalmente a marca a Jacques Bungert e Frédéric Torloting, dois publicitários franceses, que devolveram Courrèges ao mundo e à semana de Moda de Paris, em Setembro de 2015.
Reeditaram os icónicos eskimo sunglasses num material muito mais fraco e sem os acabamentos incríveis do modelo original, quase que marcando uma espécie de ritmo para o Futuro: industrializado, massificado, pronto para o que o mercado hoje em dia quer: Kardashians na front row e na passerelle e Instagrams milionários.

Quando pensei fazer esta categoria jurei a mim mesma que este seria o primeiro post a ser feito para a sua inauguração e que iria contar com a ajuda do André, da André Ópticas, porque ele tem um espólio de vintage absolutamente incrível e tinha de certeza uns óculos Courrèges que me emprestaria para fotografar e escrever o artigo. Este blogue aconteceu todo renovado no dia de Reis, Courrèges morreu no dia seguinte. E este post pareceu-me de alguma forma inoportuno. Mas já tinha falado com o André e ele já me tinha dito que tinha uns para me emprestar para este propósito. E isto é tão convergente e faz tudo tanto sentido que o André tinha uns óculos do André.
*mindblown*

unnamedEsta fotografia incrível é do meu Marido Maravilhoso Carlos Pinto @carlospintophoto, os óculos são Courrèges 2015 na André Ópticas e a camisa é Bimba Y Lola.

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