Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

MARAVILHOSO CORAÇÃO

Esta é a primeira entrada deste separador que se quer leve e divertido.
Mas… Confesso-vos que tenho demorado no preenchimento desta categoria porque de leve, este separador não tem nada.
Mais que não seja porque estou aqui a escrever e tenho uma lata de leite condensado ao lado, na qual vou mergulhando uma colher com uma cadência assim digamos que vá… lenta. Sem me desviar do tema, não é fácil entrar para o Style File, porque para terem estilo, estas personagens que tenho em mente para povoar este separador fizeram muito mais do que vestir-se de forma genial.

A abrir as portas do Style File, um conterrâneo, de Mourão, que todos conhecem como Marco Paulo, mas que nasceu com a graça de João Simão da Silva a 21 de Janeiro de 1945.
Como bom alentejano, Marco Paulo tem Espanha a correr-lhe nas veias e escolheu para se estrear a cantar nas festas de Alenquer a cantar a “Campanera” do Joselito.  Deu-se por encetada a carreira musical de Marco Paulo, que aos 14 anos começou a levar a coisa um bocado mais a sério até se mudar para o Barreiro, aos 18 anos, onde começou a estudar canto com a soprano e actriz Corina Freire. Foi “descoberto” por Cidália Meireles, do programa “Tu Cá, Tu Lá”, e começou a gravar discos pela Valentim de Carvalho, datando o primeiro de 1966, no ano antes da sua participação no Festival RTP da Canção com o tema “Sou Tão Feliz”.

Marco Paulo foi em tour com Madalena Iglesias e cantava com a Sra. Dª. Simone de Oliveira. Lado a lado. Versões. O chá da época, claro.
Com Simone cantou uma versão do Sinatra com a Filha Nancy, do “Something Stupid”, chamada em português “Tu e Só Tu”.

Porém o Ultramar chamou e João Simão teve de rumar à Guiné-Bissau.
Marco Paulo ficou guardado para as férias em que regressava a Portugal e gravava os discos que seriam lançados nos tempos seguintes.
Durante a década de setenta grava temas com membros do Quarteto 1111 e com quase todas as pessoas que a alta cultura insiste em rememorar como gloriosas, em detrimento de Marco Paulo.

Em 1978 alcança o seu primeiro disco de ouro com o single Canção Proibida/Ninguém Ninguém, e é sobre “Ninguém Ninguém que quero muito debruçar-me.
Este lado B, que não sei se conhecem, é uma música maravilhosa de uma complexidade musical incrível, à qual recorro muitíssimas vezes e que ainda não consigo cantar na perfeição. Faz parte das minhas playlists desde sempre. É uma canção de redenção, de libertação, sobre o Amor.
Ninguém Ninguém não é, evidentemente, uma canção pimba. Reflecte infinitamente de onde é que Marco Paulo vem e a influência da composição germânica contemporânea, por exemplo. Mas não é para isso que aqui estamos, não é? É para o Style File. Então atentem no look e no décor e digam lá que o Niko Karamyan e essa gente do novo exotismo trash não anda mesmo mesmo mesmo a tentar simular isto, hein?

Em 1980, apenas dois anos depois deste grande êxito, o primeiro da sua carreira que já contava com mais de uma década, Marco Paulo lança “Eu Tenho Dois Amores”, um tema de inspiração Disco, onde sobressaem a sua voz e o seu virtuosismo. Marco Paulo alcança, com este single, as 195 mil cópias vendidas e volta a bater um recorde pessoal. A história de um amor a três, dividido entre uma figura masculina central e duas personagens, uma loira e uma morena, ambas carregadas de sensualidade e atributos opostos, mas que se complementam na satisfação do homem, cativa rapidamente os ouvidos dos portugueses. Alimenta fantasias e o antropocentrismo, desviando a atenção dos rumores que toda a vida assolaram Marco Paulo, acerca da sua suposta homossexualidade. Muitos são os temas quentes e recheados de descrições românticas e semi-eróticas que virão a povoar a sua carreira.
Atenção.
Porque isto que está aqui é História. São factos.
O look com que Marco Paulo surge em “Eu Tenho Dois Amores” – o bomber de pele castanha, com camisa e jeans justas – é dois anos anterior a quem viria a popularizar este look definitivamente, David Hasselhoff em “Knight Rider”.

Marco Paulo soma e segue pela sua carreira fora, tornando-se o seu próprio Costa Cordalis, com uma diferença enorme: não é um one hit wonder.
Grava em 1982 uma versão portuguesa de “Anita”, do grego naturalizado alemão Cordalis e soma mais um enorme sucesso.
Quem nunca ouviu que “é linda de blue jeans, e blusão de cetim” não sei onde é que andou.
Com direito a teledisco gravado em pleno Tejo, Marco Paulo apresenta-se em “Anita” com um look náutico descontraído, replicado no mesmo ano por Julio Iglesias, em “Quijote“.

Chega 1988, o ano em que é lançado o single mais incrível de Marco Paulo, que segundo a minha Mãe eu dançava feliz da vida convencida que a música era para mim, “Joana”.
Tudo aquilo que sinto ao ouvir esta música é incrível.
A Joana era menina e tão mulher, como quem já sabe o que quer, e eu adoro pensar vinte e sete anos volvidos, que esta música é mesmo sobre mim, porque de facto esta letra é deliciosa e completa e elogiosa. E adoro os crescendos e o final em fade. Tenho tanta pena que se tenham perdido os finais em fade… “Joana” valeu quatro discos de platina a Marco Paulo e já era ouro após uma semana do seu lançamento.

“Taras e Manias”, de 1991, é um dos seus enormes sucessos da década de noventa.
Mais uma balada romântica, apaixonante, sobre fantasias e delírios.

No ido ano de 2012 fui a Fátima pelo 13 de Maio fazer uma intervenção artística em directo para o The Watermill, em Nova Iorque, a propósito do vigésimo aniversário do atentado ao Papa João Paulo II. No santuário, cheio de fiéis, umas tribunas erguiam-se para as emissões televisivas em directo, género camarotes. E mesmo com o Milagre que é o Santuário de Fátima, Marco Paulo, devoto, presidia à tribuna da RTP e tinha ao seu lado a minha mui Querida Lili Caneças. Percebi que depois das velas e dos rituais religiosos, os peregrinos se dirigiam a Marco Paulo, agradecendo-lhe tanto ou mais que à Virgem, e percebi não só a minha insignificância, como a daquilo que estava ali a fazer com a Filipa César.
Alta cultura teria sido chegar à fala com Marco Paulo e oferecer a Nova Iorque e ao Watermill imagens do nosso Maior.

Marco Paulo editou mais de 70 álbuns e é o cantor português que detém mais discos de ouro e platina.

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1 Comentário sobre “MARAVILHOSO CORAÇÃO”
  • Maravilhoso post!
    O teu blog é uma grande fonte de alegria para um emigrante como eu. Mais ainda com posts como este sobre o Marco Paulo.
    Não queres dizer “androcentrismo” e não “antropocentrismo”?
    😉
    Obrigado

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