Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

DELÍCIA #trashediastoliyourlook

Lembro-me perfeitamente de quando tudo mudou.
De quando os sítios onde queríamos comer deixaram de ter de obedecer às regras “ser baratos” e “com um bom vinho da casa” e passaram a ter de ser bistrôs ou restaurantes de Chef ou então reenactments de street food dois decibéis acima do previsto numa roulotte algures no estrangeiro.
Lembro-me desse momento em que Lisboa se perdeu numa estafeta que nem a chegou a ser, porque em abono da verdade, as cozinheiras nunca passaram os testemunhos aos Chefs. E há tanto Chef que devia ter aceite um canudinho de uma cozinheira rechonchuda numa corrida de saltinhos na sua direcção!…
Lembro-me, depois disso, de quando toda a gente começou a pedir a carta e a rejeitar o jarrinho de vinho de toda a vida, confiando no palato do proprietário do local, sempre um amigo e uma entidade de confiança. E lembro-me de pessoas que mandaram vinhos para trás porque tinham de respirar ou coisas do género. De pessoas que queriam decantar vinhos novos. De pessoas que desprezavam garrafeiras tão diminutas. De pessoas que de repente sabiam imenso de vinhos. Lembro-me de quando toda a gente se tornou escanção de bolso.
E não, não foi crescer. Porque se os trintas são os novos vintes, eu acabei de fazer vinte.

“(…)Ai meu Filhos, Que Sôdades(…)”, como cantaria Beatriz Costa no Fado do Dezassete.

O Carlos, que é a primeira personagem #TRASHÉDIASTOLIYOURLOOK também se lembra de tudo isto, e é com a maior das naturalidades que escolhe a Delícia de Moscavide para o almoço em que a Rita o meteu.

É importante dizer que a Rita sugeriu o Carlos porque este artigo que sai hoje, 29 de Fevereiro, sai num dia especial, que ocorre apenas a cada quatro anos e é curiosamente o dia de aniversário do Carlos. Vai daí a Rita achou que era ainda mais interessante escolher uma pessoa que celebrasse o seu aniversário a cada quatro anos.
Simples.
A Rita, que ele conhece do trabalho na PrimeDrinks, explicou ao Carlos que a Stolichnaya tinha um projecto novo, pediu a sua colaboração, ele assentiu, e na semana passada lá nos encontrámos na Delícia de Moscavide, na mui concorrida Rua Bento de Jesus Caraça, à hora de almoço de um dia de semana.
Este almoço foi difícil de conseguir porque o nosso sujeito tem uma agenda que é um pesadelo, ou não fosse ele um dos funcionários mais antigos da PrimeDrinks.

Dentro da Delícia, que fica num rés do chão de um prédio e comunica as duas salas por detrás da entrada desse mesmo prédio e da sua escada, damos a volta ao u e chegamos à mesa do canto. OK, sabemos que estamos em boas mãos quando nos sentam na mesa do canto e à nossa espera já está um pratinho com o logotipo do local, coberto de persunto.
– Então isto é mais ou menos o quê?
– A Rita não explicou?
– Não…
– Então eu tenho um blogue e… pronto, esta parte vocês já sabem.
– Ah!… Eh pá… Eu com isso da Moda, eu não sei nada disso e até sou capaz de não ter nada a ver com isso, ó Joana.

A Moda é assim, tem esta capacidade de desencorajar.

À partida a Delícia não tem estilo nenhum, não tem sequer um ambiente lumínico convidativo, tem uma montra à entrada com carnes e peixes frecos.
A cena na Delícia é roots, e o Carlos também é roots.
O Carlos começou a trabalhar na PrimeDrinks num Verão em que queria ganhar uns trocos para as férias, na parte do armazém e da distribuição. Gostou tanto que não voltou mais à escola, tendo acabado o 12º ano à noite, ligeiramente a ferros. Da distribuição que é como quem diz do carregamento de caixas desde que o sol nasce até que o sol se põe, passou para o armazém, do armazém começou a ir ao escritório, e pronto, neste momento é responsável, tem imensas coisas, agenda, etc… Mas acima de tudo um conhecimento incrível do terreno, que aplica naquilo que faz.

Enquanto o Carlos me contava isto e eu tirava apontamentos, pensei mil vezes naqueles reality shows género Undercover Boss e assim, sabem? Quando os patrões vão ver como é que realmente funcionam as suas empresas e como é que o trabalho é organizado? Já devem ter visto e certamente já se devem ter desfeito em lágrimas, como eu, claro, que choro a ver tudo o que estiver a dar na televisão, do Hawaii 5-0 ao Say Yes to the Dress.

Enquanto me contava que carregava coisas e andava de um lado para o outro pelo país e eu tirava apontamentos, vi que havia joaquinzinhos fritos com arroz de tomate e pronto, decidi o meu almoço. Chegou entretanto à mesa uma garrafa de Sauvignon Blanc Verdelho 2012, da Casa Ermelinda Freitas, e o mote do conhecimento vinícola reforçou-se, tornando-se óbvio que aquele enviado podia ser “um gajo normal”, mas tinha de facto aquilo que quisémos procurar para esta rúbrica: a tal história para lá de ______.

O Carlos andou por quase todos o armazéns dos sítios que nos importam a carregar as caixas dos néctares nocturnos, e viu, segundo conta, de quase tudo. Entregou de manhã e à tarde e à noite, em feriados e dias santos, em dias mais movimentados e menos movimentados e conhece os entrefolhos do país.

A Delícia é uma escolha muito óbvia: conhece-a e é lá que está a garrafeira ideal, capaz de dar resposta à mais eclética das escolhas, a equipa mais simpática e acima de tudo, o ambiente mais descontraído que lhe permite realizar negócios fora do escritório.
Esta escolha recai sobre factos que estão na ordem dos nossos dias com uma atitude simples, o preservar do que é genuíno, em detrimento da cedência fácil à oferta da hegemonia do bom gosto, massificada e sem carácter nenhum, onde ninguém veste a camisola.
E caramba, se na Delícia não se veste a camisola! É mais, não só se veste a camisola, como se veste o pullover sem mangas e decote em bico azul escuro com o nome da casa bordado em dourado ao peito. Pode ser piroso para os praticantes do bom gosto de pacotilha, mas é um valor daqueles que se estão a perder, e infelizmente só existe uma Catarina Portas.
A Delícia, tal como o comércio tradicional de Moscavide (que desconhecia totalmente), tem vindo a sofrer as consequências da sua relação de proximidade com os centros comerciais circundantes.
Portugal já viu melhores dias, ou não fosse o Carlos vendedor de profissão. Sabe que ele próprio já viu melhores dias, e que não devia comer fritos por causa do colesterol e dessas coisas chatas que uma pessoa começa a ter com a idade.

Falamos então de nutrição.
E nutrição é Lifestyle.
A nutrição aqui tratada relata um problema de compatibilidade de agendas.
Carlos orienta as refeições e a forma como vive a vida profissional e familiar com a harmonia possível, porque há dias em que nem janta, tais foram os almoços…!
– Um gajo às vezes até começa a semana assim bem, muito bem, até… Começa com umas sopinhas e umas saladinhas, até traz umas frutas para o trabalho, mas depois à quarta há um almoço, um gajo pede uma sopa e uma salada e uma garrafa de água e fica logo tudo a pensar?… Então… Tu vendes vinhos e vens aqui almoçar e vens fazer dieta? Como é que queres que a gente te compre vinhos se nem sequer nos acompanhas… E vem logo tudo por aí abaixo!…
A eficácia dos almoços de negócios conta-se em calorias, garrafas vazias e nódoas na toalha de papel.

Carlos é um guia vivo.
Conhece as estradas nacionais e as secundárias e podia ter o Instagram mais fixe da Terra e usar hashtags género #middleofnowhere #bumfuckidaho #lost #justafewpeopleandme #ontheroadagain #neverendingtravels #knowthycountry e por aí fora; faz viagens inteiras sem bateria no telemóvel, com o roteiro traçado mentalmente e os caminhos na memória; se disse que lá está no dia tal às tantas horas, não precisa de ligar a confirmar ou de mandar mensagem, fica confirmado à antiga
Gostava de ter mais tempo para a Família, porque o trabalho o consome muito e não está orientado para poder ter uma Família, porque as pessoas não percebem como é importante ver os Filhos crescer.
Em abono da verdade, mais de metade do tempo falámos de como os Filhos hoje em dia têm de se adaptar às condições de trabalho dos pais e em como as sociedades não estão preparadas nem sensibilizadas, em quase todos os ramos profissionais, para que se possam acompanhar os Filhos, que depois de nascidos são depositados nas creches e infantários em tenra idade e a tenras horas, e recolhidos já depois do pôr-do-sol.

– Conhecem melhor as educadoras do que nos conhecem a nós.
É inevitável concordar.

Posto isto, despedimo-nos.

Eu não fotografei o Carlos porque sou nova nestas coisas e nem sequer sabia se o haveria de fotografar ou não, muito menos como perguntar.
Confiei que era capaz de escrever e digo-vos que esta rubrica não vai ser nada fácil de fazer.

0

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.