Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

A BÍBLIA DO FASHION BLOGGING – TOMA 1

Ando há anos para fazer esta compilação de entradas aqui na TRASHÉDIA, mas nunca tinha, até agora, conseguido fazê-lo.

A vontade de fazer esta compilação de posts aguçou-se quando no ano passado inaugurei por aqui a categoria #OOTD, porque percebi que estava aqui a fazer um upgrade, como se costuma dizer, muito incrível, mas muito pouco interessante ao nível do que é o Fashion Blogging canónico. 

Tenho esta porcaria deste hábito herdado da Academia, que é a sistematização de conceitos e práticas que todas juntas numa lógica de repetição convergem para formar um padrão, e é por isso que me parece muito importante a apropriado fazer esta compilação.
E o que é esta compilação?
É uma espécie de manual do Fashion Blogging como o conhecemos, com os seus clichés, com as suas artimanahas, com as suas idiossincrasias. À medida da nossa realidade nacional, verdade seja dita. Porque se há motivação aqui na TRASHÉDIA é a de continuar, sempre em frente, em língua portuguesa, abraçando a nossa contingência.
Vai daí, teria sempre de pensar localmente para agir de forma global. Ensinamentos do Punk-Hardcore. 

Digo, sempre que me pedem para falar de Moda, que o princípio do Fashion Blogging é da responsabilidade do Bill Cunningham e depois do Scott Schumann e depois de todos os blogues de indivíduos que se predispuseram a partilhar connosco os seus gostos.
Em Portugal as pioneiras terão sido a Ana Garcia Martins da Pipoca Mais Doce, a Mónica Lice do Blogue da Mini Saia e a Maria Guedes, do Stylista. Nenhuma começou de forma espontânea, qual erva daninha, sem antes ter em conta a observação do que se passava um pouco pela blogosfera mundial, e é daí que, também eu, naturalmente parto. Cada uma em seu lugar, porque em bom rigor tratamos sempre de identidades distintas, unidas apenas pela partilha de conteúdos “Moda” do ponto de vista do utilizador.
Porém este assunto da contextualização do Fashion Blogging não tem interesse nenhum para esta compilação. Ou se calhar tem, mas para o final? Não sei. 

TOMA 1 

INICIAÇÃO AO FASHION BLOGGING – Do que é que preciso para começar um blogue de Moda?

Quando se começa um blogue de Moda, a primeira coisa que tem de se levar a sério e para dentro do blogue, é o amor pela Moda. 
Primeiro é preciso amar a Moda como a Mulher Que Ama Livros ama os Livros. 
É preciso possuir pelo menos dez quilos de roupa da Primark, entre sete a oito da Bershka, cinco ou seis da Mango, quatro ou cinco da ZARA, dois da Uterque e algumas peças das estações passadas da Bimba & Lola, porque em época é tudo assim pró carote, e mesmo com uma expedição ao Freeport, consegue ser mais barato comprar do ano passado. É ainda preciso ser-se completamente doida por acessórios, apaixonada por carteiras e sapatos e amar maquilhagem. 
Para se começar, é preciso apenas ter vontade. 

Amar a Moda não é uma tarefa fácil, e quando se começa um blogue de Moda é essencial ter pelo menos uma pessoa amiga disposta a embarcar connosco nesta aventura, para tirar fotos e dizer que o emissor está sempre lindo e que tem um estilo único. 
O blogging começa por ser uma actividade de fim de semana, entre os estudos e as aulas, e as fotos são muito simples: é preciso um outfit ao qual se chama Outfit Of The Day (#ootd), que é fotografado perto de casa, num misto de excitação e loucura e apoteose de OMG – estamos a fazer isto, que brutal! 

As primeiras poses são muito simples ao nível do desempenho da Blogger que a seu tempo se irá tornar Modelo comercial, e são geralmente uma mimetização de nível principiante de tudo aquilo que se vê nas revistas cor de rosa (onde há sempre poses de famosas a mostrar os looks que envergaram em eventos nas páginas a eles dedicados – agradecer muito à ¡HOLA! ) e anúncios das marcas de grande consumo, também com famosas. O primeiro canal de acesso da Blogeer à Moda é predominantemente a “mão” de uma famosa. Muito mais hoje em dia.

Passadas as poses, é essencial dominar uma das coisas mais importantes do Fashion Blogging, uma coisa que é assim uma espécie de portal para outras dimensões, que são as legendas.
Fashion Blogger que é Fashion Blogger sabe fazer legendas e hiperligações para marcas, de preferência com recurso a ferramentas de affiliates, por exemplo. É profundamente essencial estudar esta lição ao mesmo tempo que se estudam as poses, porque sem legenda, nada feito. É como quando se apresenta um trabalho académico com uma bibliografia errada ou mal estruturada. Os professores costumam recusar, porque são todos uns chatos e uma gente que não lembra a ninguém, sempre vestidos de bordeaux com pastas em cabedal – LOL. No entanto, quer no Fashion Blogging quer na Academia, a bibliografia é essencial ao aproveitamento positivo do trabalho, por isso há que não descurar nunca a legenda.
A legenda faz-se assim: descreve-se da forma mais completa possível o outfit e diz-se de onde são as peças, de preferência com hiperligações directas às plataformas de aquisição das mesmas. No caso de tudo o que não é passível de ser comprado, porque é de colecções passadas, sugerem-se ligações para produtos semelhantes. No caso de haver algum paternalismo por parte da Blogger relativamente aos preços daquilo que possui, é hábito por-se um link para a marca original e depois um link condescendente para um produto semelhante de uma outra marca, género uma imitação “legítima”. Como não existe, geralmente, uma relação com as peças, a Blogger trata a legenda de forma muito científica. 

Sem mais demoras, comecemos então pelo BÊ-A-BÁ do Fashion Blogging, que são AS PRIMEIRAS FOTOS.

1º – ESCOLHA DO LOCAL – Começa-se por escolher uma parede, vagamente reservada e indistinta, que seja a grande confidente daquilo que vamos fazer, que é potencialmente ridículo para quem não sabe qual é a nossa missão na Terra, para quem ainda não sabe a nossa influência no mundo privado de toda a nossa audiência. Como o Fashion Blogging é uma coisa profundamente urbana, a escolha dessa parede deve ter em conta aspectos importantíssimos que possam ajudar o espectador a identificar esse tal ambiente urbano. Ajudam muito coisas como tags na parede e salvo raras excepções, graffitis. Também são óptimos companheiros todo o tipo de mobiliário urbano, veículos e animais.  

2º – SELECÇÃO DAS POSES – Para exemplificar as poses, é claro que pedi ao meu Marido que me fotografasse. Ele é, neste contexto analítico da ficção, a pessoa que está a acreditar, comigo, no projecto, pro bono. Na lógica evolutiva da Blogger, há uma altura em que começa de facto a recorrer-se aos serviços de um fotógrafo profissional, mas isso é talvez no sexto ou sétimo capítulo. Havemos de lá chegar. No meu caso, o meu Marido é fotógrafo profissional, pelo que podem imaginar o quanto ele é capaz de me odiar quando lhe peço para fazer estas coisas, que não representam um desafio com os elementos ou com a luz, por exemplo.

POSE 1 – A PERNA CRUZADA À FRENTE – Alguém terá dito a alguém que depois transmitiu a outro alguém que o ideal para quando alguém nos tira uma fotografia, é cruzar uma perna à frente. Alguém disse que era elegante, que ficava bem e que demonstrava compostura, e a perna cruzada à frente é mais do que um clássico, é obrigatória. A perna cruzada à frente está para o Fashion Blogging como as mãos no joelho estão para os namoros da primeira metade do século passado. Se vais começar um Blogue de Moda e não consegues fazer uma foto com a perna cruzada à frente, o melhor é desistir já, porque TODAS AS FAMOSAS TÊM FOTOS COM A PERNA CRUZADA À FRENTE, DESDE O PRIMEIRO DIA EM QUE APARECERAM NUMA REVISTA. É assim mesmo, faz parte da convenção, e é o nível mais básico de todos, o cruzar a perna à frente. Fica sempre bem, quando se cruza a perna à frente – porque a perna cruzada à frente é uma excelente forma de causar um desequilíbrio no corpo, logo na silhueta, logo em TUDO – descansar ligeiramente uma das mãos sobre a linha da cintura. Atenção que a perna que cruza termina num pé que nunca, jamais, assenta completo no chão. Nestas foto de exemplo estou muito mal, porque tenho a perna cruzada à frente, mas como estou de calças, não estou a deixar mostrar nada do que pode ser a ligeireza da minha figura, mas é na boa, porque ainda não chegámos a esse ponto nesta compilação. Os meus exemplos estão péssimos por outros motivos. Também fica muito bem por a mão na cabeça e brincar com os cabelos, uma das melhores muletas de sempre da Fashion Blogger. Eu embora esteja a simular essa pose, vou muito mal, porque tenho o cabelo curto e não estou a fazer nada com a mão. É muito importante saber que as expressões alteram muitíssimo consoante aquilo que se faz com as mãos: no caso da mão na anca ou da mão caída, a cara deve ser a melhor que a Blogger sabe fazer, com a sua melhor expressão, simples, matadora. Tudo no olhar e ligeiramente na boca. No caso da mão se dirigir ao cabelo, aí a expressão altera radicalmente e deve emular contentamento, felicidade interna, mistério, prazer e satisfação. Mexer nos cabelos longos e pesados, cheirosos, bem tratados e arranjados para a ocasião deve fazer a face gritar PRAZER. 

POSE 2 – O JOELHO CAPITÃO – Esta pose é outro dos clássicos básicos, e também é muito simples de fazer: basta juntar os dois pés e levantar um calcanhar, que é o da perna cujo joelho vai ser o capitão e passear o dito cujo uns centímetros adiante las linhas verticais que são as pernas. É uma pose magnífica, que mostra muito movimento, versatilidade e jovialidade. É uma pose que sugere ambientes mais descontraídos e roqueiros, de festival, por exemplo, e é muito utilizada por famosas em ambientes de calças. Ajuda muito, quando se está de calças, a disfarçar a anca, ao mesmo tempo que exibe o corte da calça e evita que as pernas pareçam um tronco sólido e informe. Com o joelho capitão, as expressões faciais de prazer e brincalhonas são as mais comuns, muito porque o tronco fica mais livre e estável para se inclinar para a frente ou para trás e levar com ele os braços a fazer imensas coisas. A cabeça a olhar para trás sugere surpresa ou admiração, a cabeça a olhar para a frente sugere que se é a rainha do pedaço, a cabeça de perfil a olhar de lado mas em frente sugere que o que está ali no futuro é tentador e uma surpresa boa, porque o futuro de uma Blogger é sempre bom. As mãos podem ir à cintura, à cara, ao cabelo. Estão livres e soltas e comunicam tanto como todo o corpo. São luxuriantes e estão carregadas de intenções. Podem ser uma excelente forma de mostrar acessórios e manicuras, por exemplo. Do joelho capitão pode isolar-se apenas o levantamento do calcanhar, que é muito utilizado em variadíssimas outras poses, porque ajuda nessa tal coisa do desequilíbrio e do disfarçar da anca. Geralmente esta pequena variação ocorre quando a Blogger não está de saltos. 

POSE 3 – COM A CARTEIRA – A Fashion Blogger conhece as regras do jogo, por isso sabe que se há coisa importante, é a carteira. Era. Mas isso são outros quinhentos, daí que ainda estejamos aqui nesta fase algo demodé. A Fashion Blogger, na mesma parede, irá mostrar sempre a sua versatilidade e por acaso até costuma pousar a carteira ao seu lado, mas neste caso a Fashion Blogger tirou fotos sem a carteira e faz depois uma com a carteira. Deve utilizá-la da forma mais simples e cómoda que conseguir, da forma mais orgânica possível, tendo sempre em conta que é preciso mostrar a carteira ao espectador. É uma tarefa difícil, esta, mas a Blogger consegue. No meu caso, eu como só tenho e só uso esta carteira, falhei redondamente neste exemplo, porque isto não é uma carteira, é um sacalhão, com todas as limitações que o sacalhão tem. Adiante. A carteira deve estar integrada no estilo de vida atarefado e preenchido da Blogger, daí que seja muito difícil à Blogger separar-se da dita cuja. Aqui o importante é mostrar a carteira, esse símbolo de estatuto que se julgava eterno. É essencial mostrar as alças e os seus usos, e mais à frente, é de óptimo tom fazer um daqueles posts de ênfase no produto, em que se revela o que vai dentro da carteira.bloggers-18 bloggers-19 bloggers-20

NOTAS MUITO IMPORTANTES DA TOMA 1: uma Fashion Blogger nunca entende que, ao contrário de uma equipa criativa de um editorial de Moda, doze fotos da mesma situação geográfica e estética não interessam nada, daí que os posts com imagens de uma Blogger sejam uma sucessão de mais do mesmo ao longo de todo um scroll que se torna aborrecido à segunda fotografia. Penso que essa sucessão de imagens é condicionada por diversos factores, sendo o primeiro a incapacidade de escolher apenas uma fotografia, incapacidade essa que é motivada pelo narcisismo da Blogger; outro dos factores deriva de vivermos na era digital em que a feitura de uma ou mil imagens tem um impacto pouco significativo no custo da produção.

Camivestido Bimba Y Lola velhíssimo, mas que ainda serve, que eu estou grávida | calças não sei de onde, velhíssimas, em lã com padrão pied de poule que fazem sempre batimento no ecrã, que não apertam, mas não se vê | Pea Coat velhíssimo Zadig & Voltaire | peúgas Happy Socks | botas Balenciaga | carteira Goyard

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