Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

A Bíblia do Fashion Blogging | TOMA 4 – DOMINE A ARTE DA SELFIE

Entramos hoje num novo momento aqui na Bíblia, totalmente inesperado e fora do contexto já planeado, mas que percebi que faria muitíssima falta na sequência que tenho vindo a trabalhar para a figura do Fashion Blogger / Digital Influencer: a selfie.
Porque a Fashion Blogger / Digital Influencer, após a Toma Terceira, está oficialmente munida do poder de comunicar e manipular o seu mundo, é essencial que domine a arte da selfie para que possa operar também as suas redes sociais com tremendo sucesso. Até porque as redes sociais são, hoje em dia, os veículos onde mais se factura (as plataformas web já não dão tanto frisson), e onde mais se partilham conteúdos live. Mas não só, porque o vídeo, como recurso digital muito mais interactivo e profundamente caseiro, passível de ser feito numa relação única de comunhão com o computador, também é um veículo de abertura de portas para novas dimensões na comunicação.
É evidente que não poderia deixar de fora a Arte da Selfie: para ser Fashion Blogger e chegar ao patamar seguinte, o de Digital Influencer, é essencial fazer as coisas mesmo muito bem feitas e ter a lição bem estudada.

Neste campo da selfie, uma das primeiras coisas a ter em conta é o carácter pessoal e intransmissível do que se está a fazer.
É na e pela selfie que se exploram todas as vertentes da autenticidade do self e é através da selfie que é possível registar, modular e controlar os diferentes níveis de comunicação e compromisso estabelecidos com o espectador.
Ainda antes de começar, muito se tem escrito e dito que acerca da selfie, quase sempre com uma mensagem escondida de natureza negativa e relacionada com a manifestações de patologias mais complexas, relacionadas com problemas de ordem social, de afirmação, de relacionamento com o próximo e com o meio envolvente.
Em 2015, Kim Kardashian editou, pela Rizzoli, SELFISH, um livro todo dedicado à obsessão com a sua imagem e com o débito insano de selfies na sua conta de Instagram, pré episódio niggaz in Paris. Kim Kardashian é, sem dúvida nenhuma, a grande Influencer mundial ao nível da selfie e dos parâmetros obrigatórios da selfie.

A selfie é sempre um exercício de excesso.
É o auto retrato do novo milénio.
Consta que o termo terá sido utilizado pela primeira vez, em 2002, por um jovem de nacionalidade australiana, ébrio.

Mais uma vez, irei utilizar-me a mim e neste caso ao meu feed como vossa cobaia, porque aqui na TRASHÉDIA somos amygx de todx e não ridicularizamos o próximo de forma gratuita. A Bíblia do Fashion Blogging é um exercício académico sério, que tem mesmo o objectivo de ajudar o próximo a tornar-se número um.

A CÂMARA DO TELEMÓVEL
Longe vai o tempo em que tínhamos de torcer o braço e tirar fotos em frente ao espelho da casa de banho (sim, o génesis da selfie não é bonito, e teve momentos muito feios e difíceis de esquecer, que ainda se guardam na porta dos fundos da internet e das fotografias digitais, lá bem atrás, no primeiro LiveJournal do ano 2000, no primeiro Fotolog de 2003 e depois no MySpace de 2004, que daria origem ao Hi5 e ao FaceBook e ao Instagram).
Ora bem, é 2017 e o telemóvel já tem uma câmara frontal, pelo que mais de metade do trabalho já está feito. Apesar disso, a câmara frontal do telemóvel é parca em píxeis, pelo que as fotos em frente ao espelho continuam a ser bastante comuns e até muito essenciais, até porque mais de metade do que é a informação do resto do corpo fora o rosto (por exemplo, para um #ootd), acaba por ficar excluída do retrato. A selfie funciona então, na câmara frontal, num ângulo de 180º, que é a rotação máxima do braço para baixo e para cima. Previligia-se o uso de ângulos que excluam a selfie tirada por baixo, para evitar a exposição do queixo e do pescoço (não só em certas idades, senão em todas as idades), até porque a figura fica canonicamente mais favorecida quando fotografada mais de cima. Não se exclui da equação o pau de selfie, no entanto, nunca usei, pelo que não posso dar feedback enquanto utilizadora, apenas enquanto espectadora. E o meu feedback, amygx, não é bom: o pau de selfie é uma vergonha vergonhosa.

AS POSES DA SELFIE
A boa notícia é que as poses que se fazem para a selfie, apesar de muito uniformes e transversais, não são assim tão universais, e variam muito de pessoa para pessoa. A clássica duck face, por exemplo, já está a cair em grande desuso, pelo que tudo o que se faz numa selfie é bastante anarca, e muito pouco interessante de sistematizar, a não ser que o façamos individualmente. Contudo, é essencial que o indivíduo se fotografe e observe muito, para conseguir encontrar as repetições e vícios que têm bastante interesse para um estudo mais académico.

No meu caso, o único analisável aqui, tenho sete grandes grupos de selfies: a SELFIE DE CARRO, a SELFIE EM PERSONAGEM, a SELFIE MÉKTOU?, a SELFIE ARTÍSTICA, a SELFIE ESPELHOGRANDE, a SELFIE #ÓTEMPOVOLTAPATRÁS e a SELFIE BARRIOS™.

Começo pela SELFIE DE CARRO, que é capaz de ser a melhor e a mais simples de dissecar. Ora bem, a SELFIE DE CARRO, no meu caso, antecede uma viagem, com o veículo ainda sem ter dado início à marcha. Como sou muito distraída e não tenho grande paciência para conduzir, opto por tirar selfies em segurança, emulando sempre uma grande felicidade por ir começar a conduzir. É geralmente falsa, essa felicidade, porque prefiro ir de transportes. selfiecarroJPG

Passo para uma selfie que me é muito comum, que é a SELFIE EM PERSONAGEM. Como sabem, ou talvez não, a minha profissão verdadeira é outra, também ela dedicada à ficção: sou actriz. Ora bem, quando estou a fazer de actriz, vejo-me em diferentes situações, em que a minha imagem é transformada, de forma profunda, ou não. Ao longo do dia de filmagem, de ensaio, de shoot, vou sempre falando com o meu Marido, dizendo como está a correr, se estou a gostar, etc, e acontece com imensa frequência mandar-lhe uma foto de como estou. Nem sempre a coisa resulta, porque nem sempre temos tempo e/ou espaço para estar ali não sei quanto tempo a fazer uma sessão de selfies, para ficar bem. Há sempre gente a passar, e se há coisa da qual até tenho um bocado do noção é do meu lugar e do ridículo, e embora viva super bem com tudo isso, há momentos e momentos, e um dos momentos em que nunca devemos esquecer o que é que estamos a fazer é aquele em que estamos a trabalhar e a fazer selfies para mandar ao Marido. Se for ao início do dia, o mais provável é que passem o resto do dia a gozar connosco nas costas, porque estávamos a fazer selfies e monetos (como diria a minha Avó) para a selfie. Só ridículo. Às vezes uma pessoa fica logo bem, outras não, e não vale a pena insistir. Quando não se fica logo bem é porque estamos ali com alguma coisa no tratamento da nossa imagem que não é habitual e com a qual não sabemos lidar, vai daí o melhor é assumir uma derrota da selfie e fazer uma cara de merda. personagemJPG

Depois há a SELFIE MÉKTOU?, que é aquela selfie que costumo mandar ao meu Marido, para ele me dizer sinceramente se estou bem ou mal para tal ocasião. No meu caso, mais uma vez, é muito difícil ficar mesmo mal, porque faço sempre a mesma maquilhagem, mudando o batom. Still, a opinião do meu Marido é a única em que confio, e mesmo que faça sempre o mesmo, não consigo não partilhar com ele, para saber.mektouJPG

A SELFIE ARTÍSTICA é a minha selfie assinatura, e não acontece com muita frequência. É uma selfie que precisa de um alinhamento de astros específico, como uma super lua, por exemplo. É uma selfie que conta quase sempre com uma interpretação pessoal de um objecto (temos aqui a Coroa de Flores (fabricada por mim para um espectáculo do Teatro Praga em 2013, sendo a foto de 2014), o gorro de Super Herói de Merda (fabricado por mim em 2012 para o meu segundo espectáculo, sendo a foto de 2013), a No Sun Tan (técnica mista, óculos Tom Ford sobre fronha branca, 2011), e Óculos com jóia tradicional (2010)). A SELFIE ARTÍSTICA implica disponibilidade para a mise-en-scène, urgência e pertinência na ordem cronológica pessoal na/para a criação de um objecto, e acima de tudo, meios. A SELFIE ARTÍSTICA respira para além do que é o acto irreflectido de tirar uma selfie, porque toma tempo. É um exercício de desdobramento do self.artisticasJPG

Surge depois a SELFIE ESPELHOGRANDE, que pode ser tirada onde quer que haja um espelho grande: numa loja, num elevador, ao passar uma fachada de vidro espelhado, por exemplo. É uma selfie cujo intuito primordial é mostrar um #ootd. Quase sempre ao meu Marido. É raro partilhar este tipo de selfie, por causa da tal noção de ridículo da qual já vos falei. É motivada pela quase ausência de espelhos de corpo inteiro em casa. No caso da selfie de elevador, essa é motivada pela ausência de elevadores na minha vida em geral. espelhograndeJPG

Surge em penúltimo lugar a SELFIE #OTEMPOVOLTAPATRÁS como no fado do Tony de Matos, que é uma categoria muitíssimo específica e que tem como objectivo usar as fotos com o hashtag #THROWBACK, que é como quem diz, #OTEMPOVOLTAPATRÁS. São aquelas selfies em que uma pessoa se revê inacreditável e linda e magnífica e perfeita, quase dotada de um dom sobrenatural de ter ficado bem. Extraordinariamente bem. São aquelas selfies em que uma pessoa está mais nova, mais magra, com melhor pele. São aquelas selfies que quando a pessoa encontra, fica a morrer por dentro, tal e qual como na canção do Tony de Matos. MESMO.

otempovoltapatrasJPG o tempo volta

Por último, a evolução da SELFIE ARTÍSTICA, que é A SELFIE BARRIOS™: é, regra geral, uma selfie em que não fico muito bem, sem grande cabelo, makeup ou cara, mas em que o objectivo conceptual da selfie se sobrepõe de tal forma, que é impossível avaliar a selfie como sendo má. É uma selfie que se faz sempre acompanhar de legenda profundamente cómica, que surge num contexto específico, neste caso, foi uma selfie que enviei ao meu Marido em que, acidentalmente tinha como companheira toda uma fileira de facas, perfeitamente ajustada no enquadramento. Ficou. E partilhei no Instagram, com a legenda “Como é que me casei? Este é o género de selfies que envio ao meu Marido.” e até teve imensos likes. Captura de ecrã 2017-03-23, às 10.36.48

Serve esta TOMA QUARTA da Bíblia do Fashion Blogging para vos incitar a criar a vossa prórpia linha dialética, para que a conquista do vosso público seja a mais honesta e autêntica possível.
Hoje abri-vos o meu coração estético.
Espero que tenham apreciado o esforço.

NOTA: para as selfies, as legendas são opcionais, pois surgem sob a forma de tags.

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