Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

A boa Filha à casa torna | #trashediastoliyourlook

Encontrei-me com a Marta muitas vezes quando trabalhava à noite e sempre achei que as suas sardas combinavam muito bem com o batom encarnadíssimo, mate, que usa quando sai.

A Marta é daquelas miúdas (vou dizer miúda porque somos da mesma idade e eu acho verdadeiramente que sou uma miúda) que durante o dia é uma coisa e à noite é outra.
Pelo menos na aparência.
De onde venho, esse é um motivo de enorme interesse, porque no meu Universo podemos sempre ser e parecer o que nos apetecer, a qualquer hora, sem compromissos de maior.

Escolhi-a para lhe steelar o look precisamente por isto.

Marta-24

Combinámos no seu local de trabalho, The Oitavos, no Guincho, por ser muito mais fácil para beber uns copos e conversar tranquilamente: em caso de emergência, a Marta de Dia, funcionária do Hotel de cinco estrelas, estaria sempre ali disponível para apagar fogos.

A Marta trabalha com o Pai com os Irmãos – ao todo são quatro – nos Oitavos, na Quinta da Marinha. Embora seja uma unidade hoteleira imponente com uma oferta de um bom gosto inacreditável e de um luxo discreto, os Oitavos são um negócio familiar.
Trocando por miúdos, foi Assistente de Direcção no Golfe durante 2 anos, Directora residente no Ginásio durante outros dois anos, e Retail Manager há 7. Isto assim tudo dito parece confuso e pomposo, o que no fundo só dá água pela barba, mas pronto, o que é mesmo importante reter é que todas estas são empresas distintas, pertencentes ao Grupo Quinta da Marinha.

É formada em Comunicação Empresarial e atirou-se para Barcelona em 2007, onde trabalhou como junior account da Nike, na Double You.
Enquanto conversávamos, chegámos à conclusão que vivemos lá na mesma altura e que não nos cruzámos por milagre.

Nessa altura as obras do hotel estavam a começar nos terrenos que são da família Champalimaud desde há quatro gerações. Os irmãos enviavam-lhe fotos do buraco onde se lançavam os alicerces do hotel com a legenda “olha o buraco das nossas vidas” e ela sentia-se vagamente estranha por não estar presente a acompanhar o crescimento de mais um projecto da família. Entretanto chegou a crise e em Barcelona as coisas começaram a não estar muito famosas, além de que o trabalho na WU exigia uma permanência sistemática no local de trabalho a desoras, e a Marta achou que o melhor era voltar para cá e trabalhar com a família.

Só quem alguma vez trabalhou com a família é que sabe o que é trabalhar com a família. Se por um lado fortalece laços e nos torna um aglomerado indestrutível, por outro é um horror. É trabalhar a toda a hora, há uma série de assuntos que invadem todos os momentos. Pode dar com qualquer um em doido, mas também oferece tudo o resto, que é uma construção, um greater good.
Para a Marta a Quinta da Marinha é um projecto de continuidade e ela fala abertamente sobre como a sua presença neste mundo é passageira e de como uma das suas missões é continuar a obra do bisavô e transmitir às gerações vindouras esta mesma ideia de continuidade.

Os primeiros três anos no negócio familiar no período pós Barcelona não foram fáceis. Muitas funções acumuladas, muita responsabilidade, muito treino na capacidade de dar resposta a problemas, desafios e tudo o que acontece num Grupo Empresarial como este.
O problema de não ter muitos superiores na hierarquia faz com que se tenha de decidir sozinha demasiadas vezes, o que nem sempre é fácil e que de qualquer forma acarreta consequências. Positivas, ou negativas, ou, na pior das hipóteses, ambas.
Passou por todas as áreas de trabalho de que o Grupo dispõe para saber o que é que custa desempenhar cada função e para saber como é que cada uma se faz, para depois poder assumir um cargo de chefia, valorizando aquilo que pede, sabendo o que acarreta. Esta ideia de polivalência tendo em vista garantir a eficácia dos trabalhadores e a sua progressão orgânica numa carreira e na empresa em que estão inseridos, deveria estar disponível em todas as oportunidades laborais por forma a fomentar um processo de crescimento individual que nem sempre é disponibilizado aos trabalhadores.

A Marta não é, de todo, como as personagens gestoras e administradoras que a ficção nacional oferece. É o contrário. E lembra-se de como entre tantas outras coisas já esfregou tachos com vinagre. Oufffff!…
Os primeiros três anos não foram nada fáceis e coincidiram com o auge da crise económica em que Portugal ainda parece estar mergulhado. Porém a Marta é optimista e acha que está tudo melhor, porém no ano em que “caíu o BES, eu era responsável pelo Ginásio [da Quinta da Marinha] e foi muito difícil”.

Para conseguir fazer as pazes com toda a frustração, lê.
Conversas com Deus fê-la encontrar uma forma de estar em paz com tudo.

E depois, ali sentada num sofá enorme e confortável, na imensidão do lobby azul e malva e de todos os tons oceânicos, todo exposto a um sol que nos vai aquecendo a medo, com a areia da duna a espraiar-se pelos passadiços exteriores nos mesmos tons, olha em volta e diz: “não é assim tão mau trabalhar aqui”.
Pois não.
De todo.
Eu própria já trabalhei ali várias vezes em sessões fotográficas e realizações de vídeos e foi bastante maravilhoso trabalhar ali.
É calmo.
E o mar está ali mesmo à nossa frente.

Uma das resoluções da Marta para 2016 foi “não ir à ZARA”. Para se tornar uma consumidora mais responsável e para controlar um vício absurdo.
Confessa-se ZARAHOLIC. Mas estamos em Abril e ainda não meteu lá os pés nem sequer viu nada online, o que é uma vitória.

Perante os vários quilos de roupa que possui, o Pai intuiu que certamente haveria de perceber alguma coisa de moda, e encarregou-a de tratar das lojas disponíveis nos equipamentos do Grupo Quinta da Marinha. É então a responsável pela compra de produto para as três lojas especializadas, que vê como serviços que “acrescentam valor” à oferta já existente. No golfe tem roupa, calçado e equipamento especializado para a prática desportiva, no ginásio tem roupa e calçado para actividades indoor e na loja do hotel tem uma mistura de tudo.

A resolução para 2016 surge depois da Marta ter tomado consciência de como funciona o mercado da venda a retalho. Até se apaixonar pelo retalho passou muito tempo atónita com conceitos de economia e gestão típicos do sector, como o de markup, que a fez pensar vezes infinitas sobre se a sua forma de consumir seria responsável.
Para seleccionar mercadoria para a loja do hotel, a Marta procura marcas nacionais, produtos de qualidade, algumas marcas com história e coisas que vai trazendo um pouco de todo o mundo. Opta por preços acessíveis e por coisas que não estejam disponíveis ao virar da esquina.

Consome acima de tudo imprensa especializada em matérias de economia e no que diz respeito à Moda, vê pouca coisa. Não vê “blogues nacionais a não ser o teu e depois leio o BOF, porque é mesmo muito bom e aprendo coisas”.
E eu fico assim quentinha nas costas, sabem essa sensação de quando nos põem num sítio incrível? Trashédia e Business of Fashion no mesmo patamar, pelas devidas diferenças. UH. AH.
A Marta também conhece essa sensação de estar num sítio incrível. Ainda há bem pouco tempo soube que o Grupo Quinta da Marinha estava na mesma publicação que empresas como a Hermès ou a Patek Phillippe, como um exemplo de negócio familiar de sucesso. Marta-13

Acompanhadas por uns clássicos Cosmopolitan de morango e Blue Lagoon, ambos feitos com Stolichnaya, mantivémos uma conversa clássica, porém sem batom encarnado para lhe dar um twist.

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