Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

à Maria – uma carta sobre o pós-parto

Após o post do #OOTD EM MODO OVO KINDER, uma leitora e amiga comentou no Instagram para fazer um post sobre o pós-parto, acho que com uma amplitude maior do que simplesmente o que vestir.
O seu segundo filho já nasceu. O meu não.
Tomo a liberdade, Maria (podia ser um nome fictício na boa), de escrever sobre tudo o que não são roupas, de um sítio onde tu sabes, porque estás lá, que é muito íntimo, porque foi tudo isso que me “preocupou” no pós-parto da minha Filha e que agora já sei para esta segunda vez.

Maria,
Em primeiro lugar, assisto desde que engravidei, em 2014, a um fenómeno absurdo, que é a redução do espaço físico e social para um conjunto de grupos minoritários, no qual nos inserimos e pelo qual todas passamos enquanto grávidas e mães.
Não existe espaço social para a gravidez, para a maternidade e para a infância, e para quem escolher ter um filho, esta é uma das coisas muito importantes a reter: o espaço que nos está destinado, nas cidades, enquanto grávidas e mães, são os parques e as caixas de areia. Às vezes os supermercados, que têm carrinhos com aquelas cadeirinhas incorporadas, sabem?
Quantas histórias mais ou menos romanceadas não ouvimos já sobre o mito das filas prioritárias que agora até se tornou uma coisa legislada e igualmente absurda, porque ninguém quer saber e gravidez não é doença (como não recorrer a estas máximas, não é?), sobre histórias de gente que franze o sobrolho quando se entra num restaurante ou qualquer outro espaço comercial com um bebé recém-nascido, a dormir tranquilo no seu ovo, porque as crianças não são para levar para ______________ (preencher a gosto), ou quando estávamos grávidas e saímos à noite e nos fizeram vista grossa (aconteceu-me num aniversário do Lux), ou quando, num local público, o nosso bebé tem fome e fazemos a coisa mais fixe do mundo que é sacar da maminha para lhe dar de mamar e alguém olha com nojo?
É que não sei se te lembras, Maria, de quando o Cláudio Ramos se passou e fez uma mui iluminada intervenção num programa da SIC Caras chamado “Passadeira Vermelha” em que se discutia o tema “amamentação em público”. Passei umas horas à procura do excerto, que acabei por encontrar, mas de qualquer forma transcrevi do YouTube o que próprio diz, porque se já é grave da boca para fora, lido é pior: “(…) nada tenho contra a amamentação se for a Carolina Patrocínio que é linda e maravilhosa e toda a gente vai amar, se for uma mulher gorda, mal feita, com as mamas cheias de estrias, com os mamilos pretos e com auréolas pretas, aí deve resguardar-se (…)”.
Lá está, a Mulher deve resguardar-se, porque a não ser a Carolina Patrocínio, a Gisele Bundchen ou a Miranda Kerr, todo o resto da humanidade que amamenta deve resguardar-se, porque ele, que foi pai, sabe toneladas do assunto. Pessoalmente não acho o físico da Carolina Patrocínio um modelo de beleza, porque não me identifico com aquela imagem, apesar de ter capacidade para a admirar e admirar a sua preserverança, mas pronto, sou eu. Só que de repente, se não fores género Carolina Patrocínio no pós-parto, está mal.maes
Não entendo.
De todas as vezes que ouço ou vejo a esfera pública comentar o pós-parto, é raro ouvir comentários sobre o pós-parto da chamada mulher real, e porquê? ‘Cause there’s no such thing.
E continuo sem entender.
Muito rapidamente, se a opinião de quem tem acesso aos grandes meios de comunicação é esta e é difundida, esperar o quê, né?

Se a gravidez tida como um momento glorioso e incrível da vida de uma Mulher já é muito dificilmente percepcionada por quem opta por não ter filhos, por patrões, pessoas nas filas dos supermercados, assistentes de loja, etc, consigo imaginar o horror em que o pós-parto se transforma se passadas duas semanas as pessoas não estiverem a partilhar fotos do seu six pack. E não, não é um six pack de cervejas. Porque também não sei se te lembras aqui há pouco tempo, de quando a Ana Rita Clara partilhou uma foto dela e do marido, no Instagram, a brindar a felicidade do nascimento do filho com um copo de vinho, e todas as pessoas decidiram comentar que estava mal beber enquanto se amamenta.
O pós-parto o chamado preso por ter cão e preso por não ter.

Eu acho, Maria, que há muitas coisas a tornar o pós-parto num Inferno social.
A primeira questão que se me assola é simples: porque é que o pós-parto, que é cronologicamente um momento de sucesso na lógica da maternidade, tem de ser associado a uma ideia qualquer de perda, de transtorno, ou de dificuldade? Porquê? Se o pós-parto significa que a gravidez foi bem levada ao seu termo e o bebé está fino e fresco e fofo? Nunca entendi sequer o sentimento de perda associado ao pós-parto, porque a dada altura, quando a barriga já é só gigantesca e parece desafiar a gravidade a toda a hora e sabes que lá dentro está um bebé todo formado, só a crescer, e começas a ter uma curiosidade imensa em conhecê-lo e dar-lhe mimos e por cremes e conversar finalmente para os seus olhos fechados para lhe dizeres um sem fim de coisas maravilhosas, na sua maioria parvoíces de quem acabou de se apaixonar loucamente?

Depois outra coisa em que penso sempre é no tempo que passamos com os nossos filhos. Acho que no primeiro mês de vida da minha Filha não me separei dela nem um segundo. Talvez tenha ido às consultas por causa da mastite e a tenha deixado com a minha Mãe. Mas foi só. E mesmo assim nem queria. Preferia a febre e as dores a ter de me separar dela, porque ela era tão o ser humano mais incrível alguma vez nascido, que seria impensável mais do que três segundos e meio sem a ver. E nos meses seguintes a mesma coisa. Escolhi sempre programas e formas de estar e viver em sociedade que permitissem que me acompanhasse. E foi genial. Super ainda bem que assim foi. Daí que não entendo muito bem a cena de querer, ao fim de um ou dois meses, tirar umas “férias” do bebé. Também não me relaciono com a ideia de querer o meu corpo antigo, a minha vida antiga ou os meus hábitos antigos. Nove meses de preparação para o novo para depois sentir uma nostalgia do velho? Não. Nem faz parte de mim. O novo foi onde escolhi estar, e toda a gente sabe que os bebés choram e que a barriga, as coxas e as maminhas demoram o seu tempo a adquirir um novo posicionamento no esqueleto. Nunca senti nostalgia pelo corpo antigo. Aliás, até fiquei sem rabo, que era a única coisa que tinha, e não chorei nem fui fazer agachamentos para treinar o gluteus maximus. Um rabo por uma miúda que me diz que tenho desenhos na cara quando uso maquilhagem? Ai filhx, MIL RABOS! As minhas maminhas também se dissolveram na lógica do meu peito e também não chorei. É mais esse que poupo em soutiens, por exemplo. Se bem que sei que a minha filha adora o colo de senhoras com peitos mais generosos, porque o meu é generoso mas de forma conceptual… Hihiiihihihihiihih.
Fiz ginástica de recuperação pós-parto com uma Senhora inacreditável e fui muito feliz enquanto ela me mandava comprimir e contrair. Três vezes por semana, uma hora de cada vez, um monte de mães e um parque de ovos, cada um com um bebé magnífico a dormir aquele sono dos bebés. Muitas das Mulheres que frequentavam as mesmas aulas queriam o corpo da Gisele no final de cada aula. O corpo da Gisele é aquela dieta que no ano passado por esta altura estava a dar com toda a gente em doida, lembras-te? E eu sei que és do clube das que preferem comer e beber um copo de vinho…
Outra coisa que costuma fazer parte dos ensinamentos das Mulheres que pensamos sempre que são melhores que nós porque whatever, é a chama acesa do pós-parto. Muito revista feminina.
E enquanto pensava no teu pedido e nas nossas mensagens, pensei naquilo que eu quero sempre dizer quando digo que sou do campo. Resumi assim para não me alongar muito mais: nas cidades esterilizam-se os animais domésticos e raramente se irá assistir a um parto e ao seu pós, mas não há melhor que ver um animal parir e amamentar para se perceber tudo.

Maria, agora no departamento das roupas, aprendi no pós-parto que o ideal para a minha vida futura e em especial para a pele da minha Filha era substituir o meu amor por lãs e malhas por algodões. Foi tudo muito bem limpo e guardado e passei a aquecer-me com sweatshirts de algodão ou camisas, mais macias para as horas que os nossos bebés passam ali deitados no nosso peito, mamalhudo ou não. Aboli ligeiramente o uso de salto alto, porque uma vez que não sou lá grande andadeira de saltos, não valia a pena correr o risco de tropeçar e cair eu mais o meu bebé. Não substituí directamente por ténis, mas por creepers, sapatos abotinados e botas. Às vezes um tacão, vá. Continuei a achar que os vestidos eram mais práticos e cómodos, especialmente por causa da costura da cesariana, e que os collants puxados até ao sovaco acabam por ser muito mais simpáticos para com a nossa barriga do que outra coisa qualquer. Até porque em bom rigor, depois de nove meses de barrigão, uma pessoa às vezes sente ali uma ausência estranha. E adoro o canguru da BabyBjörn e um outro que mais tarde comprámos, também, da ErgoBaby, porque não há nada melhor que passear e curtir com o teu bebé perto de ti, no teu calor.

E por fim, Maria, um Filho é infinitamente mais incrível do que qualquer corpo tonificado, qualquer soirée de sandálias de salto alto, qualquer jantar, festa ou acontecimento, qualquer manicure impecável, qualquer buço impecável, quaisquer sobrancelhas sem um único pêlo fora da linha.
É muito triste quando uma pessoa tem de explicar isto, ou tem de explicar que acordar ao sábado à hora que imensa gente se vai deitar, é óptimo. E explicar que um filho é uma expansão e não uma prisão, ou que um filho se torna automaticamente um elemento indispensável do gangue, por exemplo. É tão triste ter de explicar que a licença de maternidade é muito curta, que as despensas para a amamentação são ridículas e que é de uma violência incrível ter de abandonar o nosso bebé aos quatro meses para regressar à vida, sendo que vida vida é aquilo que acabou de nos acontecer.
Estou mesmo convencida que a culpa e os momentos de dúvida ou insegurança são fruto desta não compreensão e deste não-espaço que nos está reservado.

Não é em vão que advogo que a beleza e o estilo são coisas que saem de dentro para fora. Acredito mesmo nisso. Acredito profundamente que a beleza e o estilo não são mais do que as formas de emanar atitude.
Nunca percebi o new mom shaming, nem nunca o vou perceber, porque se há coisa fixe que nos aconteceu foram x nossx Filhx.

Por cada espectáulo que já fiz, tenho uma cicatriz. Em todos os espectáculos cheguei àquele momento em que vivo dentro do teatro, por isso acabei sempre por me distrair dos limites físicos do meu corpo. Chegas a uma altura em que perdes a noção. Já arranquei bocados a uma mão minutos antes de um ensaio de imprensa, já deixei cair uma fileira de cadeiras numa canela às nove da manhã e só reparei que tinha feito um buraco às duas da manhã quando cheguei a casa e tentei despir as calças que estavam coladas à perna. Já dei cabo de um joelho em cena, de um pé e de um ombro. Já acordei completamente sem voz antes de uma estreia e comi cebola crua o dia todo e o espectáculo todo e em cena, mas cantei e falei e disse, e até há fotos desse dia e rimos sempre. Olho para as cicatrizes e para as maleitas e sei perfeitamente em que espectáculo foram feitas.
E sabes que mais depois de me teres feito pensar nisto tudo?
Que pena só ter uma cicatriz de uma cesariana e não ter ficado com nenhuma estria.

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