Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

À NOITE, NEM SEMPRE SÓ À NOITE | #trashediastolithenight

Diz o ditado que a noite é boa conselheira, e é por isso que a minha primeira convidada é a Sonja: não há nada que não me tenha aconselhado na vida, que não tenha sido no mínimo bom.

É provável que já a tenham visto atrás de um balcão com pratos um pouco por toda a cidade de Lisboa, da Bica do Sapato ao Brownie, do Lounge ao Lux, do Damas ao Rouge.
Apanhei-a no recém inaugurado Rive Rouge, o novo bar da família Lux/Frágil, no Mercado da Ribeira para tratar deste novo assunto que é a TRASHEDIASTOLITHENIGHT.

A Sonja corta a fita.sonja-6

O Rouge (deixa-se cair o Rive quando falamos em tom coloquial), tem a particularidade de abrir todos os dias excepto à segunda-feira, das 17h às 4:00h. É uma particularidade extremamente particular, muito pouco habitual e algo nova para os cânones nacionais. É predominantemente encarnado e como a maior recordação que tenho da Sonja são os apontamentos encarnados na sua figura quase sempre envolta em tecidos pretos, achei que o ideal, da sua vasta agenda mensal, seria escolher um dia em que estivesse na cabine vermelha.

A Sonja é da Madeira como o Cristiano e o Alberto João.
É de uma aldeia perdida lá no meio.
Gosto de olhar para ela como uma miúda do campo, porque também temos isso em comum. Só não partilhamos a dicotomia romantismo/drama, particularidades exclusivas dos insulares e não dos alentejanos.
Saíu da Madeira depois de terminar o 12º ano.
O eterno Verão com chuva e trovoada e humidade tão procurado por uma cultura de três séculos de turismo ficou para trás. Mas sempre presente no que é, estão a azáfama tropicalizante do calor abafado pelas nuvens que trazem água, as noites quentes de festa em festa, a infância livre em comunhão com a natureza e com toda uma série de gente desconhecida que se lhe atravessava no caminho. Nada disso chegaria ao fim, embora fosse tempo de decidir o que fazer.
Uma vez que o “normal”, para quem vem de um meio pequeno, insular ou não, é ir estudar para longe de casa, a Sonja veio estudar Design Gráfico para o continente. Veio da Madeira para Tomar e o impacto foi horrível: o Funchal era mais desenvolvido e cosmopolita que Tomar, embora em Tomar houvesse um curso superior para tirar. Percebeu muito rapidamente que teria de se movimentar dali para fora: ia muito ao Porto, menos a Lisboa, e não sossegou enquanto não partiu numa aventura que faria hoje as delícias de qualquer social media addict.
Rimos. Porque é inevitável rir de todas as experiências pré-social media
Conheço muito mais latitudes no mundo que países na Europa. Sempre que tinha oportunidade de viajar ou de viver noutro país, lá ia eu. Se ficava na Europa? Claro que não! Ia a sítios muito mais difíceis de visitar do que os possíveis à distância de duas horas de voo. De duas horas de voo precisava eu para fugir do calhau. Mas isto são coisas de ser da terra pequena, que é o go big or go home. 

Antes de assentar arraiais em Lisboa, viveu na Grécia e em Berlim. Isto no final dos anos noventa, princípio dos anos zero. Antes do tal cliché, se bem que o cliché é, pela Sonja, muito amado.
Foi, no entanto, a China que mais a arrebatou e à sua percepção do mundo e de como viria, anos mais tarde, a sentir-se sempre com um pé fora do sítio. Foi para a China porque trabalhava numa multinacional dinamarquesa que estava a recrutar alguém para destacar como project manager, em Pequim. Uma oferta hoje em dia irrecusável, a experiência do estrangeiro, a carreira, ganhar mais… mas que na altura, ninguém queria ir. Mas ela quis. E na China tornou-se ainda mais uma ilha humana, sempre um bocadinho deslocada, sempre um bocadinho distante daquilo que é o óbvio. Trabalhava muitissímo e admite hoje que foi tudo muito duro porque era preguiçosa e porque se sentia sozinha, no meio de tanta e tanta gente. A ilha dentro dela falava mais alto e chorava dia e noite. Como de resto acontece nas ilhas, se olharmos para a chuva como choro. Chorei mil, mas eu choro com tudo. Estou no supermercado e fico emocionada com uma embalagem de framboesas… Mas depois parou o choro, porque ninguém me tinha obrigado a ir para ali. Conquistei muitos amigos. Num aniversário que passei em Pequim, ofereceram-me uma bicicleta. Demorei semanas a perder o medo de andar e tornei-me inseparável da minha bina. Festas, jantares, trabalho, compras. Andei pela cidade toda a cruzar os hutongs e a cidade proibida. Era irresistível. O ar era bem melhor na altura que lá vivi. O outono era dourado e vermelho e cheio de céu azul.
Depois Grécia, depois Berlim, depois Lisboa. 

Aos 35 anos ficou seleccionada entre os 20 finalistas do concurso para DJ’s que o Lux promoveu.
Embora a música tenha estado sempre presente na sua vida e em tudo aquilo que faz, só nessa altura é que aconteceu. E para quem conhece a Sonja, mas também para quem não a conhece mas só ouviu algum dos seus sets ou se cruzou com alguma das suas áreas de interesse (os desenhos, as editoras, o Instagram), a Sonja é das únicas pessoas cuja placidez (à qual ela insiste em chamar preguiça) permite tornar-se DJ ao fim de quinze anos de uma carreira invejável como designer.

Os olhos da Sonja de certeza que achinesaram enquanto esteve em Pequim. É voluptuosa. As suas curvas traduzem a riqueza da sua experiência sinuosa e farta. E é óbvio que falamos disso desde que nos conhecemos, mas neste dia do Rouge também, para incluir aqui, porque é essencial fazê-lo numa altura em que todas estas questões da destruição dos cânones rígidos da beleza ocupam um lugar muito central na nossa vida. Começamos por celebrar que a Sonja não é a típica figura que se encontra na noite, e que isso faz dela uma das Mulheres mais incríveis na cena nacional. É genial pelo seu talento e pelo valor do que faz. Isso é um statement. Faz dela uma outsider, aproxima-a das pessoas com quem quer mesmo estar, que são a sua família do Continente.

Mantém milhares de projectos paralelos à música e ao design, que nunca abandonou. Quando ali umas linhas acima referi o Instagram, é porque é lá que podemos ver os seus desenhos eróticos, representativos de uma descoberta tardia da tal hotness não canónica de que vos falei no parágrafo anterior, mas também é por lá que acontece uma espécie de curadoria visual que pode muitas vezes ajudar a compreender os seus sets, a Labareda e o Fungo. A Labareda é uma editora cujo objectivo primordial é editar coisas inusitadas, o Fungo é um colectivo que a reúne com dois dos seus maiores amigos e apoiantes, O Nuno Patricio, Just Jaeckin  e o Marco Guerra – Citizen :Kane. Começou com ambos mas agora somos mais. É irreprimível a imagem e trabalho da Fungo, graças ao Nuno. Uma residência no Damas e outra no Lounge. Trabalhos de Video com o Lucas. Design Gráfico. Produção. É também uma editora com um path muito peculiar, coeso e com musica incrível. Fazem cassetes lindas. É um orgulho  ter amigos de tão longa data e tão dedicados. Mas eu ando muito afastada. Andei a investir mais em mim e a experimentar.

Estar com a Sonja no Rouge e vê-la beber Yellow Submarines enquanto me explica que ama a revolução digital porque a noite se lhe tornou menos pesada, é uma experiência muito arrebatadora.

A Sonja pertence à noite, embora insista em dizer que só trabalha à noite. A Sonja não poderia nunca trabalhar noutro fuso horário. Os seus sets são delicados e fortes como ela. Adora a noite, porque a ideia da noite prateada já vem com ela desde a Madeira, onde tudo se transforma num momento especial e cintilante, no meio do Atlântico. Aqui também há o prateado, do rio. À noite as pessoas ficam mais alegres e soltas, até as sisudas melhoram um pouco. Sabes que eu tinha uma modista que me fazia vestidos só para sair à noite? Isso existe na Madeira, aqui não. E eu pergunto inevitavelmente se ela por acaso tem algum ritual que cumpre à risca, antes de sair de casa para uma noite longa, como são as suas, atrás dos pratos. Se tenho? Não. Quer dizer, gosto de tomar um banho longo, arranjar-me com tempo. Gosto de me sentir flawless. O meu ritual é fazer tudo muito devagar e não sair a correr. Odeio sair a correr, parece que estou a ser expulsa de um sitio quando tenho que ir a correr. Mas para a noite, mesmo sem necessidade de correr, vou sempre de rasos; se vou tocar são ténis. Ficas horas em pé. Tens que estar com a tua ergonomia alinhada. A vida já é hard por si só. para quê sofrer e proposito. sonja-1

É esta descontracção, esta leveza que aprecio na Sonja e que me levou a ela quando pensámos que a TRASHÉDIA iria começar a steelar à noite.
Para quem sai desde os catorze anos, os afters ficaram bem lá atrás. Já não vou. Não gosto. Gosto de sair antes de toda a gente e de ir para casa, deixar tudo no sofá. Tudo mesmo, tipo eu, gelado de chocolate, batatas fritas, frango assado, os meus pensamentos… Tudo. Porque a noite só é boa quando é simples. Quando te começa a complicar, é porque tens de parar.

À nossa volta, corpos sentados que pouco se mexem, que aparentemente em nada se deixam contaminar pelo que vai desfilando da pen drive para as colunas.
Ainda é cedo. Senão não teríamos tempo para falar.
O que sempre achei mais genial na noite, é que quem a faz, é porque a ama. O que acho mesmo mais genial na noite é que, depois de deixar a Sonja sozinha na cabine com as pens e os discos e os copos vazios e o cinzeiro vagamente povoado, olho à volta e vejo que esses corpos que pouco ou nada se mexem, nem dão por ela ali. Não percebem a importância dela ali. Não sabem o que ela andou para ali chegar. São corpos que daí a pouco vão levantar-se e caminhar até ao bar para um refill, quem sabe um Yellow Submarine como o da Sonja, ou só uma vodka tónica, e abanar, quando os graves forem mais graves e as frequências lhes fizerem vibrar as caixas torácicas.
São corpos que não sabem que a Sonja tem saudades dos Verões azuis com pão acabado de cozer no forno de lenha gigante da casa da avó.
Enquanto tudo isso suceder, o volume da música irá subir, os copos irão partir-se no chão e os corpos balançarão cada vez mais felizes rumo ao dia seguinte. sonja-16

A noite é um lugar incrível por causa de pessoas como a Sonja.

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