Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

A POP THANG

Esta é uma pergunta que me fiz no outro dia enquanto escrevia um artigo sobre Victoria Beckham. Durante as minhas pesquisas dei por mim a ver o vídeo de “Wannabe”, de 1996, de resto o primeiro single das Spice Girls, e lembrei-me da letra da canção super powerful e da cena do “Girl Power” que elas repetiam a cada cinco minutos de fama.
Em 1996, quando saíu “Wannabe”, eu tinha 10 anos e adorava as Spice Girls. Não brincava às Spice Girls, pelo que não era nenhuma em especial, mas pronto, lembro-me disso do Girl Power e de como elas repetiam essas duas palavras tantas vezes.
Pouco tempo depois deixei de amar tão loucamente as Spice Girls (o segundo álbum não foi aquilo tudo) para descobrir a Janis Joplin através de um disco do meu Pai.
Perdi-me então de amores pela Janis e no Natal dos meus treze anos pedi encarecidamente que me dessem uma biografia dela, porque eu queria saber tudo. O Pai Natal foi incrível e essa biografia veio até mim em espanhol. Calculo que tenha sido difícil encontrar qualquer coisa, daí o espanhol.
Deve ter sido por volta dessa altura que descobri o feminismo enquanto conceito balizado e materializado numa palavra. E da Janis Joplin quis naturalmente saber quem teria sido Bessie Smith e depois explorei os anos sessenta e setenta até à exaustão sob a forma de cantoras norte-americanas. Da folk à pop passando pelos blues e pelo jazz, acho que não me escapou muita coisa, mesmo tendo apenas prestado atenção aos encantos da Motown, um par de anos depois. Nessa altura parece que, ao ser Artista, a Mulher se afirmava automaticamente como politizada e consequentemente feminista, abrindo caminho para o que viria a suceder. De forma muito muito resumida, Marianne Faithful ou Joan Baez ou Dory Pervin ou Carly Simon, estrelas do mainstream, abriram caminho para que nos anos oitenta o mesmo mainstream desse lugar a uma proliferação de estrelas pop de mastigar, livres de posições políticas. De alguma forma Madonna surgiu como a primeira estrela criada no ideário da libertação feminina e isso abriu caminho para que o feminismo na pop caísse em esquecimento. Madonna sempre foi controversa, não feminista.
O feminismo prosseguiu no universo underground com figuras como Kira Roessler ou mais tarde Kathleen Hanna. O feminismo caíu no esquecimento do mainstream durante cerca de duas décadas, e essas duas décadas foram suficientes para o colocar na posição em que se tem encontrado nos últimos anos: na frente de batalha, à procura de uma identidade coesa e, acima de tudo, de união.
Aquilo que desejo demonstrar, de alguma forma, é que no encadeamento do que é aquilo em que penso quando penso em feminismo, talvez tenham sido as Spice Girls a trazer esse ideário de volta há quase vinte anos, em 1996, porque pode não parecer, mas 96 foi há 20 anos.
Ao vociferarem “Girl Power” por todo o lado, as Spice Girls queriam difundir a ideia de que, quer individualmente ou em conjunto, as suas identidades eram fortes, que elas eram miúdas cheias de conteúdo, capazes de advogar força e poder numa indústria então ainda mais dominada pelo sexo masculino.
A ideia de Girl Power tinha como objectivo simples enaltecer a Mulher.
É claro que ninguém levou nem leva as Spice Girls a sério e que este texto corre muitos riscos ao centrar-se nas Spice Girls para falar de feminismo, mas a conclusão do meu raciocínio é simples: talvez o novo entusiasmo feminista da minha geração tenha mesmo começado nas Spice Girls, porque o Girl Power já é um fenómeno de 1996. Se em 1996 eu tinha dez anos, é – como diria o outro – só fazer as contas. Crescer e amadurecer ideias e conceitos.
Como em tudo na vida, o que é preciso é começar.
E por algum lado tem de se começar.
E partindo do princípio que o meu raciocínio está correcto, as Spice Girls podem não ter sido assim tão nefastas para a Pop e podem representar para o feminismo de hoje um começo subconsciente.

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1 Comentário sobre “A POP THANG”
  • “É claro que ninguém levou nem leva as Spice Girls a sério e que este texto corre muitos riscos ao centrar-se nas Spice Girls para falar de feminismo…”

    Por outro lado, eu acho que as Spice Girls levaram o feminismo a camadas mais jovens e a toda uma nova geração que já não estava nos anos sessenta nem setenta e já não ligava a conceitos como esse. Se vamos falar de poder e levar a sério, Spice Girls devem ter chegado a um público maior que Janis Joplin. Falamos de toda uma outra geração, um outro tipo de música (a pop dominava os anos 90) e o Girl Power delas chegou a todos os cantos do mundo e vendeu milhões. Eu também tinha 10 ou 11 anos quando Wannabe saiu, também as idolatrei e esse conceito de Girl Power acompanhou-me desde essa idade 🙂 E culminou numa mulher de 30 que, actualmente, defende o Girl Power em inúmeros projectos. http://www.viveatuabeleza.pt

    Claro que, hoje em dia, Janis Joplin, Jessie Ware, Joni Mitchell, Stevie Nicks, Patti Smith, Nina Simone, Amy Winehouse… fazem parte da minha banda sonora (e spice girls não), mas não tiro mérito ao que Spice Girls fizeram pelos anos 90 e pelo pop.

    GIRL POWER 😛

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