Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

AEROPORTO COOL

Desde aquele filme com o George Clooney que é tipo, obrigatório ser super cool em viagem. É essencial levar apenas o essencial e ter todo o tipo de acessórios ultra mega desenhados para maximizar a experiência de viajar livremente, e ser prático e ser eficaz e ser uma super estrela que desliza pelos aeroportos super na boa, mesmo que não use as passadeiras rolantes.

A cena é que de repente começou a haver controlos em todo o lado e ameaças terroristas latentes e polícia e polícia à paisana e tantas coisas que uma pessoa mesmo que seja super cool e super rodada nas lides das viagens, não consegue evitar. E depois os aeroportos são locais onde já não é nada cool mostrar que se é cool, porque é indiferente ser cool no aeroporto: nobody cares. Diria que a maior ameaça terrorista à coolness de aeroporto foi a combinação fato de treino de veludo Juicy Couture e botas UGG, mas esse é outro ponto de vista sobre a História.

Mesmo com os melhores hacks de aeroporto, já ninguém desliza porque é sempre empatado por normas de segurança, por procedimentos ou por transversalidades normativas que tanto exasperam os passageiros GCN*.

Regressei ontem bem cedo de Paris com uma barrigada de riso.
Ri mesmo muito de manhã.

Vim super cedo e de repente estava a fazer o check in e um casal de hipsters do trekking – mochilas quitadíssimas às costas, equipamentos Patagónia e rolinhos de impermeáveis ultra light armazenados nas redes laterais das mochilas – olhava para mim a pensar que pena que esta não tem estilo nenhum e está ali naquela fila com o povão. Avançavam rapidamente em direcção a um balcão de check-in quase vazio. Até que foram abordados por uma senhora que lhes indicou a fila correcta para estarem, porque em bom rigor estavam na fila prioritária. Com tanto material promotor de mobilidade, o que naqueles corpos tinha pior mobilidade era a zona do cérebro.  Devem ser daquelas pessoas que não acordam antes da hora de expediente e que navegam na sua inoperância de olhos abertos e corpos prontos, mas sem acção e muito menos reacção. Já na minha fila do povão, continuaram a olhar-me com pena.
Todas as pessoas que pensam que passam à frente dos outros em filas fazem-me lembrar aqueles que, quando trabalhava no Lux, me perguntavam qual era a entrada VIP.

Estava muito divertida, como de resto, sempre, a olhar para as pessoas que, em voos low cost, inisitem em levar bagagens de mão de proporções impossíveis e pesos ainda mais problemáticos. Neste caso era um senhor de ar hiper profissional com um trolley em pele muito pomposo e um saco reutilizável do Carrefour carregado de papéis e com um tablet, tudo atirado lá para dentro. Trazia uma malinha também em pele, do conjunto do trolley, à tiracolo. A senhora do balcão do check in pediu-lhe que mostrasse a bagagem de mão. Era um tormento, não ia poder ser de mão, e disse-lho. Ele disse que não, que era do tamanho standart. E ela pediu-lhe que a pusesse no paralelipípedo normativo que ditaria o destino da mala: se mão, se porão. O senhor amachucou a mala dentro do paralelipípedo e mostrou-lhe. Ela disse que não era assim, que teria de ser na horizontal. E ele tentou na horizontal. Não coube. Insitiu que era do medidor e não da mala. A senhora não transigia. Noutro tempo, noutra companhia, com outro aspecto teria certamente transigido. Merda. Voltou a esborrachar o trolley em pele até que conseguiu enterrá-lo no paralelipiedeo normativo. Podia seguir. O rosto da senhora, indifetente. Agora era preciso tirar dali a mala, mas isso já não interessava nada. Encontrei o senhor metros à frente a passar com o indicador nos veios abertos pelo medidor de malas de mão. O trolley estava todo escarificado.

O seguinte momento em que se desafia a capacidade de se ser cool num aeroporto é a passagem pelo detector de metais. Nunca ninguém é suficientemente eficiente para passar rápido e de forma eficaz. Há sempre um segurança que acrescenta algum procedimento à passagem pelo detector e o facto de não haver clientes habituais torna tudo uma seca. Em nenhum outro local do aeroporto sinto tanto ar quente na nuca como na fila para despejar o conteúdo de todos os meus reservatórios nos tabuleiros que depois deslizam em fila indiana pelos cilindrinhos até ao tapete de borracha. Toda a gente bufa à passagem pelo detector de metais. Não, não tenho líquidos nem sprays nem canivetes nem nada, mas estou a apitar, merda. Vai-se a ver e há um saca rolhas, um canivete ou qualquer coisa potencialmente perigosa em algum compartimento. Ou então são os fechos. Ou o cinto. Ou uma prótese, sei lá. Há sempre qualquer coisa que apita. A maior humilhação é ter de descalçar os sapatos. Um cool de aeroporto não pode descalçar os sapatos. Tem de passar incólume por tudo. Tem de deslizar. Mas… roupa com botões? Say whaaaaatttt???

Quanto mais uma pessoa se esvazia de conteúdo à passagem pelo detector de metais, mais tempo vai ficar a empatar no lado de lá, e isso também não é nada cool. Porque atrasa a vida do resto do pessoal e isso também não é nada cool. Muitos olhos irão reprovar a falta de rapidez com que se abandona a zona de detecção de metais.

No espaço internacional não se anda com o bilhete na mão e não se compra na free shop (isso é para pobres). As pessoas que viajam muito já viram tudo e não precisam de ver mais nada para comprar, mesmo que haja coisas que valem a pena. NUNCA SE COMPRA NA FREE SHOP.

Se por um lado não se compra na free shop, por outro é obrigatório comer no aeroporto. Uma pessoa cool não tem nunca tempo de comer em casa ou qualquer coisa do género e não se importa de dar doze euros por um pão pré-congelado, cozido, transformado em sanduíche com uma folha de alface e molhos cremosos com sabor a Es, embalado em papel celofane e refrigerado e por um sumo de qualquer coisa que se assemleha a natural só porque é amargo e tem um logotipo de novo design.
Numa dessas filas no único café existente em Orly Ouest, muitos produtos fair trade, muita fruta ali ao natural, muito iogurte com leite bio, muito pão com sementes e até um pão de leite bio. Formules déjeuner express. O casal de hipsters do trekking está na fila com ar enfastiado. Têm chás bio embalados na mão. Cada chá, que é água fervida com uma saqueta de folhas secas, custa €5.
Comer neste café é desafiar os limites da dignidade humana e não há espaço para nenhum tipo de coolness. A salubridade normativa oferece escolhas unicamente bio. E preços de aeroporto bio. Um pão é comprado separadamente do queijo, do fiambre ou da manteiga. Tudo tem um preço. Uma fatia de queijo obrigatoriamente bio são €0,90. Uma manteiga são €0,70. Um pão são €1,50. Tudo é agarrado à mão para dentro de uns cartões reciclados que funcionam como pratos. O tabuleiro onde tudo é transportado é feito de fibras de bambu. Os talheres também são feitos de fibras de bambu. Os copos idem. Tudo é bio, tudo é degradável, tudo é degradante. Antes a garrafa de plástico reciclado do chá bio de cinco euros.
Os comensais têm dificuldade em relacionar-se com a oligarquia bio normativa. E ficam muito confusos quando, depois de uma terapia bio de choque, são obrigados a vazar todo o lixo, de forma indiferenciada, no mesmo orifício. Tanta coisa tanta coisa e depois vai tudo junto? plásticos e quê?

A única escolha é uma vending machine.

Começa o embarque para o avião.
O derradeiro momento em que se vê quem é, ou não, cool passa novamente pela agilidade e rapidez com que se actua na entrada para o avião: quem é que põe a mala lá em cima sem chagar, por exemplo. Ou quem é que tem lugar de saída de emergência. A saída de emergência é assim uma espécie de primeira classe dos pobres. À falta de primeira classe em low cost, escolhe-se uma saída de emergência ou uma das primeiras filas. Regra geral paga-se mais e o voo deixa de ser low cost. Mas levo as pernas esticadas, porque de repente todas as pessoas são altas e não conseguem ir sentadas normalmente o tempo de um voo de Paris a Lisboa. Porque é imenso tempo. Exacto. É o mesmo tempo que um filme independente. Sem pipocas. Sem espaço. É igual. 2DA92C8F00000578-0-image-a-1_1445944055322

Uma vez uma amiga muito gira, chinesa com ar de japonesa, stylist pelas capitais do mundo, disse-me que a melhor forma de viajar era ir toda montada com ar de rockstar, porque assim as pessoas ficavam sempre na dúvida e achavam que alguém tinha feito alguma coisa mal e davam upgrades, para elas próprias terem upgrades na carreira e dentro da companhia. Por tratarem bem os clientes. Foi há uns seis ou sete anos. Agora ninguém quer saber e ninguém vai dar nada. Suponho que ela já não viaje com um casaco todo artilhado de rebites de metal como viajava. Não falamos há muito tempo.

Como em tudo, em 2016, a coolness de aeroporto é normativa e low. E individual. Não se ajuda, não se nada. Cada indivíduo é uma galáxia incontactável. É importante ser só e low brow. Tudo o que é só e low brow é melhor. Porque não dá nas vistas. Porque não levanta suspeitas. A cena agora é minimal individual.
E isso é muito divertido.

 

*GCN: Gente Como Nós. É um acrónimo que estimo imenso e que vejo muito em hashtag no Instagram.
3

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.