Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

As Meninas Universais | #trashediastoliyourlook

Elas dizem que sempre que vão a qualquer lado, género showrooms em Paris ou Londres, as pessoas ficam surpreendidas quando as vêem entrar, que isso se nota, e que acabam por fazer assim uns comentários, quando já estão mais à vontade, género: OMG!!! YOU’RE SOOOOO CUTE!
A Fashion é para pessoas altas e magras, com um regime alimentar específico cheio de condicionantes, um desporto eficaz e rigoroso que tonifique os músculos sem os fazer crescer muito e um mito chamado sorriso. Só que a turma portuguesa anda pelo mundo a provar o contrário.

Sentada no balcão do bar de cocktails do renovado Pap’Açorda, que se mudou de armas e bagagens do Bairro Alto para o Mercado da Ribeira, assim mais ou menos escondida atrás de uma jarra com flores absolutamente inevitável de portentosa, não as vejo entrar pela porta. O que é difícil, porque a porta é de vidro e o sol está ali a encher o restaurante de luz e nem sequer tenho a cabeça enfiada no telemóvel.
Aparecem-me as duas à frente, sem emitir um som, quais gémeas Grady, mas da comédia. Foi pena não as ver entrar, mas também é lindo que tenham sido uma aparição.

À sua chegada, um inédito: dois cocktails Stolichnaya à espera de escolher quem os beberia.
Para mim um jogo divertido para assistir.
Se por um lado o mítico Papadrink, impossível de beber em qualquer outro lado e mais velho que qualquer uma de nós, está pousado numa flute elegante e delicada, com uma espuma alta e fofa e um sabor doce, vai parar directamente aos lábios da Joana, a Maria João aninhou nas suas mãos a canequinha de cobre com o Stoli Mule, por tudo o que compõe o conjunto.

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A Maria João e a Joana são tão cute porque têm, cada uma, metro e meio. E passados três segundos de estar na presença delas, já me sinto o gigante Adamastor.

O metro e meio é uma unidade de medida universal: uma fita métrica, por exemplo, objecto utilitário essencial à vida de ambas, tem exactamente um metro e meio. Tanto uma como outra pensam no seu metro e meio como uma ferramenta prática e extremamente útil e, ao contrário de todas as pessoas de metro e meio que conheço, não andam de salto alto nem a tentar crescer com truques de ilusão óptica. Salientaram que não há nada mais maravilhoso que ter um metro e meio e que desejavam que todas as pessoas de dimensões compactas percebessem que tudo aquilo do metro e meio é um conjunto de vantagens inacreditável.
Os altonormativos que se lixem.
Sem desmerecimento por mim, mas preferem trabalhar com pessoas da altura delas!

Conheceram-se no curso de Design de Moda na Faculdade de Arquitectura de Lisboa.
Reza a lenda que a Maria João ensinou imensas coisas à Joana, entre elas que comer poderia ir para além do pão com queijo, que era a base da alimentação dela, e que a Joana também ensinou imensas coisas à Maria João, assim ao nível da descontracção e do chill.
É lindo observá-las porque se uma é enérgica e toda tensa e assintosa (atenção que eu acho que a assintosidade é uma característica positiva), a outra é pachorrenta e calma e muito disponível. Completam-se de tal forma que enquanto uma fala a outra contempla-a com admiração e vice-versa. Durante mil vezes nesta nossa conversa dei por elas embevecidas uma com a outra, e apenas uma ou duas vezes consegui apanhá-las nesse momento de amor.

Acho que é o amor que as faz fazer coisas juntas há tantos anos. Sofreram com um período de separação, quando a Joana foi até Londres fazer um curso de Ilustração de Moda na Central St. Martins, enquanto a Maria João ficava em Lisboa, na Universidade Nova, a fazer o Mestrado. Se a Maria João se concentra mais em determinadas coisas, a Joana é dispersa e que diz substituir um novo conhecimento por outro, porque para ela é muito difícil articular tudo. É a metade distraída e poética, por assim dizer.

À excepção do período da Joana em Londres, não emigraram, mesmo com a loucura da licenciatura se transformar num curso de três anos com Bolonha a entrar de rompante. Como a mim também me aconteceu o mesmo, posso garantir que parece que fica a faltar qualquer coisa e que houve matérias que se aprenderam depressa demais e que é preciso continuar a aprender, pelo menos um bocadinho. Daí que… Mestrados e Londres. Mas a Joana regressou depressa, porque não há nada pior que o frio e as saudades de casa.

Quando se olha para elas pensa-se assim na onda de clichés da Moda da terceira vaga do feminismo, da geração dos blogues, da não normatividade, dos novos cânones para o sexo feminino. Olha-se para elas e pensa-se logo em Lena Dunham, Tavi Gevinson, Leandra Medine, Sophia Amoruso. Pensa-se logo numa cena super norte-americana, numa ideia de teenagers fora de prazo que rentabilizam a sua infantilidade através de negócios e coisas assim super rentáveis de forma pouco convencional. Dão essa ideia. Sei que não têm aquelas coisas género roupa de ir a reuniões ou um fato. Sei que nem sequer estão preocupadas com isso e que representam uma forma de estar na vida muito poderosa. Sendo que poderosa nem sequer é a melhor forma de adjectivar a sua forma de estar na vida, porque tudo o que a elas está associado é como o bambu. A carga oriental do bambu incluída. É aquilo a que se chamaria “ter tomates”, só que elas – tal como eu – descartam a ideia de ter tomates como um sinónimo de força. Resumem-se assim, como diria Sheng Wang, “Why do people say “grow some balls”? Balls are weak and sensitive. If you wanna be tough, grow a vagina. Those things can take a pounding.” 

Falámos da Leandra Medine e do que era o Man Repeller e daquilo em que se tornou com alguma pena e nostalgia. Gostávamos mais do modelo antigo em que se explorava uma ideia qualquer de autenticidade, que continua lá, mas que se tornou uma marca global, gigantesca, e que já não é tanto o conceito de Man Repeller como o conhecemos. É o fim do Brangelina, é o fim do Man Repeller, é o fim do e-commerce porque a Chiara Ferragni vai também lançar-se nesse domínio.


As Meninas têm uma loja online e é por isso que são o sujeito colectivamente individual desta rentrée #TRASHEDIASTOLIYOURLOOK.
Elas lançam-se contra os Gigantes.
A Les Filles, que é como se chama a loja, é o espaço comercial dedicado a uma ideia de comércio de retalho que para mim é uma quase curadoria, mais interessante que vi em muitos anos. É altamente conceptual e maximal.
O que querem com a Les Filles, a loja online que é o seu negócio paralelo (a Maria João trabalha ocasionalmente em publicidade e a Joana continua a fazer maquilhagem e cabelos, actividades que realizam para ganhar o dinheirinho), é fazê-la crescer. Simples. Aliás, simplicíssimo. Começaram sozinhas e do zero, sem investidores, sem apoios, apenas com o sonho de querer ter uma loja que vendesse aquilo que gostam de vestir. Marcas independentes, de diferentes partes do mundo, sendo que uma das enormes mais-valias é a relação de proximidade que mantém com a sensação portuguesa Marques’Almeida, com a veterana Alexandra Moura e com a australiana Soot. sendo elas as retailers online com excluisvo na europa.
A primeira temporada passou-se bem. As vendas provocaram sorrisos enquanto embalavam os produtos em papel de seda cor de rosa choque, acompanhado de um lápis Les Filles e de um miminho. Esgotaram alguns items, outros ficaram, como acontece sempre em todas as lojas. Provável que não abram um outlet, no entanto.
Quando começámos a falar da loja, comecei a fazer perguntas sem fim, porque se há coisa que amo são lojas e pessoas que têm lojas e que fazem as lojas com amor. Se gostariam de ter peças mais baratas? Não, nem por isso. Não é uma questão, o preço das peças. Porque quem as procura procura peças especiais, procura coisas que não encontra por aí. Não são peças de consumo rápido, são peças de investimento. Por isso a opção das peças mais baratas pode ter graça, mas não é obrigatória ou pertinente. Tendo acessórios (malas, lenços e bijuteria), será que gostariam de alargar a variedade de produtos? E se sim, a quê? Cosméticos. A resposta é unânime e clara. Cosméticos. Existe uma preocupação muito clara com a forma como se escolhe na Les Filles: sustentabilidade, design, qualidade, durabilidade e exclusividade. Estão presentes, na hora da escolha e da selecção, valores claríssimos como o impacto ambiental da compra e da revenda, por exemplo. Por isso, e porque a tendência da Maria João e da Joana é a de se afastarem cada vez mais de uma ideia de consumo massificado e que sacrifica vidas humanas, animais e vegetais pelo mundo fora, apostar na selecção de cosméticos é o próximo passo. Com o surgimento, no mercado, de marcas sobretudo orientais, que não testam em animais e que são de origem cem por cento vegetal, a introdução de cosméticos na selecção da Les Filles está ao virar da esquina. Mas ainda demora. Porque é um mercado novo, que não dominam e que, embora seja mais barato para o cliente, também não é possível de experimentar e devolver como uma peça de roupa, por exemplo.

Conceptualmente respeitam tudo aquilo que é a loja, são os produtos que as Meninas consomem. A loja é o que elas compram. Basta olhar para elas e ver o que vestem. Sabem quando as pessoas querem tudo aquilo que tu tens vestido? Com elas é fácil, basta ir a hilesfill.es e está quase tudo lá.
Querem sobretudo alargar a loja ao circuito de lojas de referência internacionais, mas em modo online. Gostam de pensar que o crescimento, mesmo demorado – estaõ muito conscientes do estado da economia e das preferências dos clientes – se fará da forma que desejam, se tiverem paciência para esperar que os passos se sigam. Não querem saltar etapas, muito menos ser poupadas de possíveis erros ou disparates. Além de fazerem parte, são essenciais. Sabem o que têm entre mãos e aquilo que querem ter. Essa parte pode assustar à partida quem não as conhece. Pode até fazer com que pensem que são pretensiosas, que têm o nariz empinado. Por acaso têm o nariz no lugar.

Têm tudo no lugar.

E ficam lindamente neste lugar que é o Pap’Açorda novo, que contém em si a História do Pap’Açorda do Bairro Alto, os mesmos sorrisos e detalhes magníficos. Um clássico que atravessou gerações que acolheu duas clássicas de uma geração já filha.
Só senti falta das cadeiras cor de rosa, que me faziam sentir que estava sentada em flamingos generosos.

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