Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Beta Budget

A Beta é, por si só, giríssima, fresquíssima, ocupadíssima, porém despachadíssima, amicíssima, sempre em festa, a rainha dos casamentos no Verão, dos magustos no Outono, dos sunsets quando está na praia, dos rooftops quando está na cidade, do Erasmus no Brasil (que não é Erasmus, mas não interessa).

A Beta tem bom ar sem grande esforço, porque lhe está nos genes e isso é meio caminho andado para que tudo na vida da Beta pareça sempre fácil aos outros que se roem de inveja da sua vida desafogada; mesmo quando a Beta está naquela fase após ter descoerto o guarda-roupa da Avó e acha que encontrou a meca do vintage e que agora tem um gosto e estilo únicos só porque lá no meio estava perdida uma carteira com aquele erre enrolado de quando ter Pierre Cardin fazia toda a diferença, que a Beta adoptou como carteira de ir a todo o lado.
A Beta é, regra geral, a gata do cabelo crespo meio aloirado do sal da praia e das roupas flutuantes, a gira sempre carregada de penduricalhos e acessórios e peças não-essenciais. A Beta é um animal social: com ou sem filhos (porque a Beta às vezes tem filhos muito cedo, mas sem o peso da gravidez adolescente) vai a todas, não perde nem uma, e aparentemente não trabalha, porque ser Beta já devia constituir-se e contar como profissão, tal é a trabalheira que dá estar de manhã no ginásio do condomínio, daí a um bocado na praia, depois no brunch com as amigas, depois nas compras, depois no sunset num rooftop, depois num jantar e depois numa discoteca.
A vida da Beta é assim, tal como ela: giríssima, fresquíssima e ocupadíssima, porém despachadíssima.

E quando todos pensávamos que para este género de lifestyle era preciso um orçamento incrível, eis que se descobre que Beta que é Beta, é forreta que dói.
Mão de vaca.
Beta que é Beta não abre os cordões à bolsa e é capaz de ser vista a regatear nos saldos da ZARA.
Beta que é Beta vai ao Santini comer gelados e nunca foi vista a pagar.
Beta que é Beta é capaz de passar dias a fio sem gastar um tostão, e não, não é à pala dos cupões do Grupon; se a Beta consegue que o pai – o forreta mor – lhe ateste o depósito todas as semanas e que a Via Verde seja descontada no seu cartão, a Beta consegue tudo.
Se não conseguir, chora-se.
Ad infinitum.
Mas também não são só defeitos, e é de reconhecer que a Beta consegue gerir a mesada como ninguém, porque desde pequena que, na linhagem das Betas Budget, foi ensinada a regatear e a pagar o menos possível pelo maior número de coisas, objectos, serviços, trabalhos, o que for. Beta que é Beta, sabe como deslizar pela vida quase de graça.

A versão da Beta Budget é então uma espécie de passagem de testemunho: é o que a Beta sénior ensina quando inicia a Beta júnior nas maravilhas da vida pela estrada da poupança, que conhece tão bem como a marginal e cuja curva do Mónaco já faz de olhos fechados.
A Beta Budget costuma surgir e sistematizar-se definitivamente na Beta (porque a Beta Budget per se é uma inner faceta de qualquer Beta) por volta dos 18-20 anos, e caracteriza-se por ser aquela Beta cheia de actividades e projectos e negócios e carros e bom ar, mas que nunca por nunca gastou um chavo em nada: caíu-lhe tudo do céu por não ter unhas. O carro foi herdado ou foi o pai que deu, ou mais tarde o marido, o negócio, trabalho ou o curso ou o estágio – não interessa – é uma coisa simples que corre lindamente, nunca pagou propinas, porque isso das propinas é coisa de pobre; para a Beta o dinheiro é só uma daquelas coisas mundanas em que não se fala, porque falar de dinheiro é do mais deselegante que há; a praia é de borla e se o sol quando nasce é para todos, é de aproveitar, porque o sol também é uma pechincha, e a Beta Budget não perde uma boa pechincha! Protector solar, a Beta não usa, por isso está óptimo, e a julgar pelo comprimento e textura dos cabelos, também não vai ao cabeleireiro nem gasta dinheiro em cremes de cabelo.
Nunca, jamais, é vista a comer.
Só a beber. De preferência em festas de bar aberto. Um vinho ou um gin. Beta que é Beta nunca foi vista com um prato na mão.

Fuma imenso, mas não compra cigarros. É horrível comprar cigarros. Para comprar cigarros é preciso interagir com pessoas e mexer em moedas, o refugo do dinheiro. Não! Nem pensar! Beta que é Beta não toca em dinheiro, muito menos em moedas, por isso não pode, naturalmente, comprar cigarros. E crava sempre lume. E a Beta é sempre má com máquinas. E com moedas. Por isso é esquecer: a Beta fuma, mas não compra cigarros. Crava. Logo não é fiel a nenhuma marca. Mas tem preferência na marca que lhe dão.
Requinte.
Beta que é Beta não sabe trabalhar com um computador e só tem Facebook e Instagram porque dá para fazer no iPhone. Mas se a Beta não sabe trabalhar com computador e com tecnologia em geral, como é que a Beta tem iPhone? A Beta tem iPhone porque o iPhone foi oferecido pelos pontos do Tio Não-Sei-Quê e a mensalidade mais barata do WTF ou da MOCHE (a MOCHE rende mais porque está imensamente ligada ao Surf) está, naturalmente, a cargo da empresa desse mesmo Tio.

Em toda e qualquer Beta há todo um rendilhado familiar extensíssimo com casas e apartamentos por todo o país, que a Beta frequenta em alturas do ano muito específicas: no Alentejo e Ribatejo apenas em altura de touros e feiras de gado típicas do Outono e Primavera e ocasionalmente no Verão para casamentos; nestas casas de interior, potencialmente rurais, há sempre uns caseiros por quem a Beta tem sempre muita estima. Na orla costeira, de São Martinho do Porto a Cacela Velha enquanto houver sol, e aos fins de semana do resto do ano qualquer coisa entre a Praia Grande e a Comporta serve, mesmo em off season. É de notar que a Beta Budget também aproveita a rede familiar quando sai à noite e só arranja boleia até à casa da Tia que é vizinha de com quem saíu naquele dia. Em casa de Beta há sempre espaço para mais um!
Beta que é Beta, não pára em ramo verde. E não gasta dinheiro nenhum.
Mas se há tantas situações em que a Beta surge e nunca se chega a falar ou a ver a cor do dinheiro, como é que se assume socialmente que a Beta é rica?
Ninguém sabe.
É um mistério.
Só se confirma que a Beta é Beta num mercado de rua em Colares ou assim numa feira daquelas giríssimas, com coisas vindas do Peru e do Bali e assim, porque aí a Bétnica™ que existe em toda a Beta Budget vem ao de cima e a Beta Budget quer comprar.
Quer coisas.
E ali naquela situação da feira, que é, de resto, uma das únicas situações em que a Beta se vê confrontada com a necessidade de dinheiro para possuir uma coisa que ninguém lhe dá, a Beta tem de agir que é como quem diz, abrir os cordões à bolsa.
Mas há regras: menos de vinte euros e a Beta Budget até é capaz de comprar sem reclamar muito. Mais de vinte euros e a Beta sente-se roubada. Acha um disparate. A Beta sente sempre que o que os outros lhe estão a fornecer nunca, jamais em tempo algum vale mais que vinte euros, quer seja um lenço ou uma pulseira de contas com aqueles mini espanadores coloridos, porque o termo de comparação de preços para uma Beta é sempre a ZARA ou um empregado qualquer lá de uma casa qualquer que ganha ou ganhou isso num trabalho que a Beta identificou como ultra mega estrondosamente bem pago.

A Beta Budget aproveita tudo o que estiver em saldos, promoções ou descontos. Pela-se por uma boa pechincha e é capaz de se aborrecer com a amiga por uma coisa de um euro.
A Beta Budget consegue ir sair sem pagar e sair de onde quer que seja de gatas, sem ter sequer levado o cartão.

A Beta Budget é inconscientemente contra a emancipação económica feminina: não se importa que o pai dê mesada até aos quarenta anos ou que os quarenta rapazes que fazem parte da sua matilha lhe paguem cada um uma bebida, seja qual for a ocasião.
Está ainda por descobrir onde é que a Beta gasta o dinheiro, afinal, e por confirmar se tudo aquilo que ela diz que foi baratíssimo, afinal não foi.
O certo é que a Beta Budget é a rainha da guest list, a rainha da festa, a dona do bar, a guia espiritual das relações públicas e a maior querida do mundo, sempre sem mencionar dinheiro.
Quem fala de dinheiro não tem classe nenhuma e é mundano.
E Beta que é Beta rejeita desde o berço que já foi da trisavó, comportamentos mundanos.

1
1 Comentário sobre “Beta Budget”

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.