Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

BUSINESS DISTRICT (vai ter partes)

O Business District desta cidade é um encanto:

Piropo de hoje, saído da boca de um Senhor Executivo, muito bem apessoado, rodeado de mais Executivos de idades variadas: “Se eu fosse electricista, era a postes destes qu’eu subia.”

Senhor Executivo,
Obrigada.

Os “mais Executivos de idades variadas” riram e galhofaram imenso.
TOP NOTCH.

Porém, Caros Executivos, esta é toda, todinha (super Taveira, isto, hein?!) para vocês, que tanto gostam de ler a GQ e a MAXMEN e falar de gajas e ser (falsos) modernos e (falsos) independentes (possuir um veículo motorizado não é sinónimo de nada):

Não há miúda nenhuma que eu conheça que não seja uma gaja aos olhos de um Executivo.
Porque basta ter aquele órgão sexual que não é caído para a frente para se ser gaja aos vossos olhos.
(Vou tentar simplificar a linguagem neste post para que também vocês o possam ler, caso a TRASHÉDIA se torne mainstream e vos entre pelo PC que têm à vossa disposição no vosso cubículo, destinado a preencher correctamente muitas folhas de Excel. Sim, nesse cubículo onde há certos sites que não estão disponíveis por ordens do Chefe. Má onda.)

Ora bem, lá por trabalharem num cubículo e terem de usar um fato, não quer dizer que os meus queridíssimos Executivos sejam alguma coisa que valha a pena.
Longe vai o tempo em que uma gaja adorava Executivos de fato.

Esmiuçarei (claro que vocês conhecem a palavra esmiuçar, porque já a devem ter ouvido no Gato Fedorento, ‘né?) primeiro o nome da vossa classe.
EXECUTIVO: AQUELE QUE EXECUTA, FAZ O QUE LHE MANDAM, OBEDECE.
EXECUTIVO, where I came from, means PAU MANDADO.

É óbvio que, por volta da uma da tarde, o Executivo já exerceu a obediência pelo menos durante umas quatro horas, e precisa de se soltar.
É óbvio que me vai atacar a mim ou qualquer gaja que não pertença ao piso de cubículos que frequenta porque, claro está, isso são gajas que ele já conhece, e não interessa nada.
Muito melhor é se essa gaja não for presença habitual no sítio que frequenta a essas horas.
(Ok, por isso é que é de manhã bem cedo, ao almoço ou ao fim do dia (especialmente às sextas e sábados) que me sinto mais atacada enquanto gaja.)
Nenhuma gaja está a salvo, porque o Executivo ataca em todas as frentes, com especial incidência nas que não são iguais a: 1. uma beta; 2. uma MILF, 3. a sua Mãezinha.
Gordas, feias, tortas, de cabelo curto, com óculos, mamas grandes, cu grande, de alguma tribo urbana, de alguma etnia menos comum, mendiga, vagabunda, eh pá… está fo-di-da.
Se aparecer à frente de um Executivo em pausa para almoço um indivíduo de nacionalidade Homosexual, está… Pá… Está muito pior que fo-di-do.

O Executivo-tipo do Business District lisboeta é, portanto, um nojo.
Haverá, certamente, excepções.
Como em tudo.

Usa fatos do Cortefiel, Zara ou de lojas que certamente se chamam Rei dos Fatos ou Feira dos Fatos ou Fatolândia ou Homem com Classe ou vai à Modalfa ou então vai ao Freeport ou por último opta por usar fatos que eram do seu Pai.
O Executivo, como foi talhado para fazer o que lhe mandam, não age de forma independente.
O Executivo vai às compras com a sua Mãe, que o aconselha sabiamente a adquirir o tamanho seguinte ao seguinte.
Que é para durar.
O Executivo faz pouco do seu Pai e dos fatos que o seu Pai usa/usava, mas não entende que, ao ir às compras com a sua Mãe, está a deixar-se manipular pela única pessoa da sua vida que não é uma gaja, mas que, no entanto, o vai transformar de forma maquiavélica num novo protótipo de Homem-Seca.
Adiante.
Um fato é uma coisa muito cara e mais vale durar.
Se o Macho Normal já se veste de forma desastrosa, o Macho-Executivo fá-lo de uma maneira muito pior.
Deixar um Executivo à solta no Colombo depois de uma entrevista de trabalho pode causar danos irreparáveis aos olhos do meu género de gaja.
Acontece quase sempre.
Tenho as retinas queimadas (como se tivesse estado a olhar de frente e sem protecção para um eclipse solar).
Nunca vi um Executivo português bem vestido.
Pelo que até acredito que o paternalismo e o atestado de estupidez implícitos na atitude da Mãe do Executivo aquando da hora das compras sirva de alguma coisa semelhante à contenção da catástrofe, por exemplo.

Bom, o resultado final das primeiras compras de um Macho a caminho do seu cubículo é: um fato quase sempre cinzento, cujo blazer tem SEMPRE botões a mais, uns ombros até à cadeira do cubículo seguinte e uma calça com demasiadas pregas, por conseguinte demasiado larga e geralmente muito comprida.
Como o Macho passa directamente da pré-adolescência para a vida adulta, tem de adquirir, no mesmíssimo dia todo o material.
É o regresso às aulas, sem mascote, mas com uma Dª Leopoldina que pareça uma Popota.

Da lista constam: o fato (check!), camisas, peúgas, cuecas e gravata.
TERROR.
E os sapatos…
(Comecei agora a suar das mãos… E acho que vou vomitar…)

No que às camisas diz respeito, só tenho duas questões: 1. para quê tanto colarinho?! 2. sabiam que se podem mandar arranjar/cortar as mangas?

As peúgas…
A lógica vigente na compra das peúgas – aposto convosco – é:
“(…)– Oh, Mãe, não se vão ver!
– Sim, Filhote, mas têm de ser escuras!
(…)”
Men… Peúgas de desporto?!

Na compra das cuecas, a Mãe escolhe, mas o Executivo refuta.
É o Grito do Ipiranga!
Explica à Mãe que não gosta de se sentir preso com os slips…
Cria-se um clima de grande tensão.
Porém, o momento da grande emancipação dá-se quando ele assume (ao fim de vinte e tantos anos) que o gosta mesmo é de andar com a salada baldona.
Choque.
Suores frios em público.
Voltam, embora faça o tratamento hormonal, as sensações físicas da menopausa ao corpo da pobre Mãe.
Uma vida inteira de dedicação para isto.
Abaladíssima, a Mãe não pode dar parte fraca.
É o momento destinado à emancipação do seu Macho Bebé.
Sabia que ia ser difícil.
Mas não contava com esta.
Acede a pagar aquela roupa interior do Demónio e deixa-o escolhê-la sozinho.
Não acompanha aquele momento duríssimo.
Ahhhhh! Mas ele está feliz no meio de tanto boxer largo!
Agarra sofregamente todos os que consegue e ainda tem tempo – sob o olhar desinteressado, porém atento, da Mãe – de agarrar um par engraçado, com uma mensagem também muito engraçada. Em inglês.
Sente-se feliz e crescido.
Pode continuar.

A Mãe está muito fragilizada, pelo que passam à escolha do próximo item:
A gravata.
A Mãe volta a estar em posição superior, uma vez que está muito familiarizada com essa peça.
Primeiro: o Executivo não sabe fazer NENHUM nó de gravata.
Segundo: nem sequer faz ideia de que há mais do que um nó.
Terceiro: conta pelo polegar direito as vezes que usou gravata.
A Mãe avança no terreno e escolhe uma gravata.
OUCH.
Depois explica-lhe que pode usar as do Pai.
ERRO.
Como a última vez que a Mãe viu um Macho que lhe despertou interesse, foi nos anos oitenta, está um pouco desactualizada.
No entanto, as referências aplicáveis ao seu rebento são essas.
Mmmmmmhhhh…
Talvez nos anos noventa tenha visto um que lhe tenha dado algum frisson!…
Aaaaaahhhhh!
E Lembra-se!!!
E lembra-se daquele nó de gravata, bem largo, bem cheio…
E transmite-o ao seu Filhote.
“(…) – Vais ficar lindo! (…)”

O Sapato.

PAUSA PAUSA PAUSA PAUSA PAUSA.

PAUSA.

(Inspiração.
Expiração.)

Jovem Executivo,

Ir ao Calçado Guimarães é muito mau, mas às vezes há coisas que até se safam…
Agora, ir ao Calçado Guimarães com a Mamã e aceitar os conselhos dela…
Eishhh…
Sapatos de biqueira quadradona, solas grossas…
(Por esses preços, mais vale um Miguel Vieira…)
Mas… Agora a sério, para quê tanta borracha?
Têm medo de ficar pegados à tomada da fotocopiadora?
Ou será da máquina de café que faz mau contacto?
E as biqueiras quadradas servem para quê?
Manter aberta a porta do comboio mais do que uma nesga e assim poder forçar a entrada quando o mesmo já está de partida?!
A sério…

Posto isto, terminado este processo, o Executivo está pronto a entrar no mercado de trabalho.
Vai para casa ao fim de um estenuante dia no Centro Comercial, cheio de sacos e abandona-se no sofá.
A Mãe prepara-lhe o jantarinho e o guerreiro tem o seu merecido descanso.

Chega o Grande Dia!
O Primeiro Dia.
E entra pela porta principal do grande edifício, como todos os outros Executivos, apetrechado.
Leva os boxers engraçados.
E está consciente disso.
Já se esqueceu foi que há coisa de uma hora e meia, a Mãe o acordou, já com o pequeno almoço preparado, para lhe desejar um excelente primeiro dia e para lhe fazer o nó da gravata e lhe dizer que estava lindo.
Passa pela máquina de café, onde bebe o seu primeiro café daquela nova vida e decide padecer de uma overdose de cafeína, estimulante ao qual não está ainda habituado.
É por aí que irá travar conhecimento com os outros Executivos, obedecer, pausar a meio da manhã e ansiar pela sua primeira hora de almoço, a qual já será partilhável caso tenha se tenha saído bem na sala de convívio.
Já viu as gajas, já sabe que TODAS são gajas e TODAS são umas putas e porcas e não sei quê, porque as únicas senhoras do mundo são as suas Mães, etc…
Também já adicionou alguns perfis no Facebook Mobile do seu Android, porque no PC da empresa o Facebook está bloqueado.

A hora de almoço, é a prova de fogo:
Vai comer à tasca com os outros Executivos, consciente, porém, de que é ainda um Maçarico.
E tem de se afirmar.
É uma questão de vida ou morte.
De sobrevivência, vá.
Tem de mandar uns piropos, olhar para umas gajas
Pá, fazer dessas coisas que os Executivos fazem em grupo.
O grupo, na melhor das hipóteses, aceita-o.
Conta-lhe umas piadas, ensina umas manhas e enuncia histórias, situações do último jantar da empresa.
O Executivo sonha com o próximo e espera pela camaradagem que há-de vir.

Papei com uma merda de uma manada de Executivos hoje pela frente.
Giríssimos, todos.
Nenhuma excepção na beleza e comportamento dos exemplares.
Depois do piropo do poste, caguei.
Mas acabei o almoço e vim para casa trabalhar – porque não executo, logo, não tenho horários – e deixei que o piropo e a situação me incomodassem um bocado.
Sei perfeitamente que, quando visto uma saia, é um escândalo.
Nem uso sequer saias muito minis.
Em comparação com as gajas que pertenciam ao grupo de Executivos de onde floresceu o elogio, tinha uma saia bastante discreta e comprida.
Zero desespero no tamanho da saia.
Ao contrário das gajas de cubículo.
Não envergo decotes.
Envergo T-Shirts largas de bandas que nenhum Executivo alguma vez ouviu.
(Fogem às normas do regulamento interno da Empresa, concerteza.)
Logo, este silogismo básico conclui que levava uma T-Shirt de Death, bem larga, a qual não deixará revelar em nenhuma ocasião (a não ser que me inscrevam num concurso Miss T-Shirt Molhada para me envergonharem) que formas terá o meu corpo.
Tinha umas sandálias de salto alto.
(Kitten heel e meios saltos são para pessoas com varizes e problemas vários de circulação e nas pernas em geral. Eu é raro usar saltos altos, mas quando uso, uso. Se estou a afirmar, afirmo. Mas que merda!)
Não vou negar que podia ter enfiado a cabeça de qualquer Executivo na axila.
177cm + 13cm = 190cm
Estava com 190cm.
Estava grande.
Um poste, sim, Senhor Executivo.
Um Poste do Caralho, Senhor Executivo.

Tenho muitas saudades de quando morava no estrangeiro e havia Executivos giros a convidar-me para beber café.
Com fatos Lanvin (em Paris, várias vezes…).
Frequentadores de alfaiates.
Calçadores de sapatos ingleses de solas finas e sem tacões que parecem cascos.
Usadores de óculos de sol totémicos e afirmativos.
Portadores de bons cortes de cabelo.
Portadores de boas peles e bons dentes.
Portadores de unhas limpas e bem cortadas.
Detentores de muita classe.

Aiiiii…! Tenho muitas saudades.

Porque…
Se antigamente havia gajas a olhar para Executivos, gajas fascinadas com um Pau Mandado, Caros Executivos, hoje em dia não as há.
O que é que vocês têm?
Uma casa no subúrbio, um carro comercial branco, uma noite de futebol por semana, uma pança de cerveja, as unhas sujas, óculos de sol de dez euros, falta de gosto e falta de classe?
Ah, têm talvez um ordenado de merda e uma fraca visão sobre qualquer assunto que seja “de gajas”?
Porque… De gajas não percebem vocês.
Mas não, talvez tenham três cds, um livro do Gato Fedorento e talvez tenham ido a um concerto no Parque da Bela Vista.
Talvez gostem da Casual Friday, do jantar da empresa e de uma viagem com os colegas para irem às putas.
Gostam de porno e coisada dessa, mas em segredo.
E o melhor é mesmo que saem da casa da Mãe para a casa da Esposa, sem bater nas tabelas.

Eh pá… LIKE a TUDO.
As gajas, embora sejam o mais rasteiro do mundo aos vossos olhos de Paus Mandados, são milhões de vezes melhores.
Como gaja, prefiro o que sair da boca de qualquer Trolha.
É mais honesto.

Atenção Esposas: no dia em que o vosso Pau Mandado começar a usar gel no cabelo…

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3 Discussions on
“BUSINESS DISTRICT (vai ter partes)”
  • este texto é metade justo e metade injusto.

    a análise do vestuário típico do Executivo suburbano acerta em tudo o que já tenho observado neste meio. porém, o corporativismo machista é igual em qualquer profissão, e não existe relação entre ser pau-mandado e o machismo, caso contrário não haveria lugar para a GAJA.
    o microsoft excel sentiu-se muito ofendido com o teu texto.

  • Muito, muito bom. Na mouche. Claro, algumas falhas, principalmente porque está de fora. Ok, mas o real está lá todo.

    E vi-me e revi-me no texto, o que fez com que me risse de mim próprio. Uso fato – porque tem de ser – e passei pela fase das compras com a minha mãe. Raio, foi bem chato, porque já tinha algumas ideias pré-concebidas, mas o dinheiro era dela. E ela, depois de anos da puberdade sem voto na matéria de vestuário, viu ali uma nova oportunidade.

    Mas, uma coisa, os colegas também podem ser demasiado crueis se nós tentamos “inovar” com alguma coisa.

    Em minha defesa posso fizer que uso fatos da Nunes Correa que levo ao um sítio para usar como gosto? E uso fatos da El Ganso? Não? Pronto, tentei.

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