Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

CADAVRE EXQUIS

Diria que o ano começou sem um dos homens que mais questionou os cânones estéticos vigentes do rock’n’roll, o lendário Lemmy Kilmister, de Mötorhead.
Diria que 2016 começou assim porque, a avaliar pela razia de ídolos, Lemmy é bem capaz de ter ido para a porta da festa mais incrível de sempre, onde está quase toda a gente.
Partiu a 28 de Dezembro e terá começado a compor a guest list. Porém antes de ir, é importante recordar que Lemmy foi um enorme badass womanizer com hot pants de ganga. É um transgressor consagrado não só pelos hot pants, mas neste contexto, é por causa deles, pelo que não me adiantarei mais.

O primeiro a ir ter com o Lemmy foi o dono de um corpo outrora controverso, finalmente aclamado, idolatrado e consensual, pelo menos na hora da sua morte, David Bowie.
O corpo magro de olhos de cores diferentes, esse corpo que terá aberto as portas da androginia ao mundo e que nos terá oferecido uma nova perspectiva física em larga escala, replicada para outros contextos em figuras como Twiggy, por exemplo, esse corpo “camaleónico” que insistiram ensinar-nos, abandonava a face da Terra nos primeiros dias de Janeiro. Inesquecíveis as imagens dos primeiros anos em Ziggy Stardust, inesquecíveis também as imagens da fase Alemã de Bowie, pré queda do Muro e da simpatia pelo movimento Nazi, da amizade com Lou Reed. Também será impossível esquecer tudo o que foi pensado e feito a partir de todas as imagens que Bowie criou e de como se tornou popular. Podemos rever Bowie ad infinitum em Saint Laurent, por exemplo, ou em Galliano, Cavalli, Margiela, Jean Paul Gaultier ou Kansai Yamamoto. É impossível negar a Bowie o seu legado.

Depois em Abril foi a vez de ficarmos sem Prince, sem o homem mais baixo e mais sensualizante do planeta. Sem o sexy motherfucker. Sem o homem que cantava “When Doves Cry”. Se Lemmy nos ofereceu o hot pant masculino e Bowie a hipótese de ser tudo, Prince deu-nos o metro e cinquenta e oito sem complexos.

Em Junho foi-se o maior repórter de street style de todo o sempre, Bill Cunningham.
Com a perda de Cunningham, perde-se, entre tantas outras coisas, a singularidade de uma profissão que inventou e que é fundamental para entender a linguagem não-verbal que é o acto de se vestir. Consta que terá um arquivo que atravessa mais de cinco décadas de testemunhos têxteis capazes de contar a História de um outro ponto de vista, e é provável que ainda tenhamos de esperar muito tempo até podermos aprender com o que observou. Com tudo o que é a representatividade do corpo ao longo das décadas que teimam em definir a nossa postura no hoje.

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Em Agosto, Alicia Keys foi notícia por todo o mundo por ter aparecido nos MTV VMAs sem maquilhagem por, aparentemente ter chegado à conclusão que estava farta de tentar alcançar um objectivo de beleza que obedece a regras claras no contexto em que está inserida. A sua aparição sem maquilhagem – contestada por muitos que dizem que ela, afinal, tem é um look daqueles make up but no make up (!…) –  é revolucionária e absolutamente transgressora para o actual cenário MTV e para a pop. É uma afirmação com um impacto incrível na era do contour e dos lip kits da Kylie e dos tutoriais de maquilhagem. E não é género “(…) ela linda sem makeup (…)” como no vídeo do Agir em que está tudo carregado de makeup, é the real deal.

Outubro foi o mês em que saíu a última obra da minha descoberta literária de 2016 (obrigada André), Isabela Figueiredo.
“A Gorda” da Isabela (tenho quase a certeza que o seu sentido de humor a levou a colocar o artigo antes do nome para parecer que lhe estamos sempre a chamar gorda e não a referir a sua obra) é uma obra essencial em 2016 e ainda mais neste contexto do corpo em/de que vos falo hoje.
Quando acabei de ler este livro a primeira vez, porque o li de dois fôlegos em dois dias, percebi que estava perante uma coisa que se expandia como o corpo de Maria Luísa, em tantas frentes quanto as possíveis.
Li este livro mais duas vezes e sei que é essencial.

Comecei por falar de quatro corpos masculinos, sendo que um deles foi um corpo documental, o de Bill Cunningham. Comecei por falar de corpos percursores dentro de um género.
Depois falei de um corpo, o de Alicia Keys, tantas vezes avlo de críticas pela sua gordura ou magreza, reflexo das tentativas de “pertencer” a um conjunto de corpos performativos conhecidos do grande público, cuja projecção em muito pouco terá sido útil aos fãs incapazes de pertencer. Diz Alicia Keys que se fartou das inúmeras tentativas falhadas de ser uma coisa que nunca será, e que nos VMAs decidiu afimar o seu corpo e a sua pele.
Já não vamos against all odds.
Já celebramos isto.
É 2016, pelo menos em algumas partes do corpo.

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Na semana passada, dia 30, foi o desfile anual da Victoria’s Secret, em Paris.
A meu ver, completamente descontextualizado do ano de 2016, e anacrónico face àquilo que vivemos, face aos corpos que perdemos e aos corpos que ganhámos. Face a todas as perdas e ao simbolismo físico que 2016 tem tido para mim e para a minha percepção dos corpos e do significado dos corpos no mundo.
Já sabemos do que consta o desfile da Victoria’s Secret e já sabemos que estar lá naquela passerelle significa que se é inacreditável para um grupo de pessoas que se regem por esse cânone, que se é um símbolo sexual sendo um anjo, coisa que não faz muito sentido, porque um anjo (figura tradicional do folklore judaico-cristão), como servo de Deus, não tem sexo, mas adiante.
Em Victoria’s Secret celebram-se corpos que em nada celebram a diversidade, a pluralidade ou a inclusão. Celebram-se os corpos que frustram mais de metade do planeta e que submetem a figura feminina à escravidão voluntária do nosso tempo: as dietas e o fitness.
Tudo o que se celebra, no desfile da Victoria’s Secret, está completamente desfasado do que celebro hoje aqui.
Além de que já ninguém quer comprar soutiens push up ou cai na esparrela de acreditar na qualidade das peças Victoria’s Secret, que nem sequer são assim tão exclusivas, verdade?

Ainda assim, mesmo com esta celebração de um formato not cool, há que destacar a actuação de Lady Gaga durante o desfile, porque segundo os vídeos amadores e oficiais, foi inacreditável. Especialmente porque a Lady Gaga é das artistas Pop mais importantes da sua geração (para mim mais importante que a própria Beyoncé, mil perdões), não só pelo que faz e canta e compõe, mas pela sua ligação à comunidade LGBTQ e pela resistência a todos os momentos de body shaming a que já se viu exposta. É incrível e bastante curioso que esta Mulher, em tudo controversa e anti modelo anjo (não há artista da música pop mais sexualizada e sexualizante que Gaga), seja a convidada musical femina para o desfile VS de 2016, em Paris. Anti anjo e anti glamour parisiense. Gaga são as mamas descaídas que nunca escondeu num impressionante vestido de renda de Yolan Cris, o cabelo loiro platinado cheio de postiços e penteado num estilo rígido e retro (ao contrário dos longos cabelos compridos de ondas volumosas e extensões das boas para fingir que é o que não é) e a maquilhagem afirmativa de eye liner bem carregado e batom encarnado num bold lip claramente desenhado e mais tudo aquilo que compõe a imagem forte de Lady Gaga contrasta em tudo com os looks flawless das anjinhas aborrecidas e desfasadas de um tempo em que o corpo imperfeito é um instrumento de guerrilha.

E depois, neste encadeamento de acontecimentos o meu Marido, que é fotógrafo de profissão, diz-me assim:
– Já viste o insta da Vinity Fair? Já viste a Sarah Jessica Parker?
Não tinha visto e fui ver.
E vi.
E corri para o computador à procura de uma justificação para aquela foto que a Vanity Fair tinha posto no insta, não porque não acreditasse no que os meus olhos viam, mas porque o que os meus olhos viam era uma coisa muito superior a tudo: era a Sarah Jessica Parker sem photoshop aparente, com um ar pouco jovial, diria até pesado.
Linda de morrer.
Os olhos claros ao fundo da sombra escura quase escondidos atrás dos cabelos longos lembraram-me os olhos da Monica Calle ao fundo da sombra escura que também costuma usar e deixei-me a contemplar a idade da Sarah Jessica Parker.
Foi incrível.
E foi incrível perceber que a Katie Holmes tabém se deixou fotografar assim, sem uma porcaria de um tratamento de pele que faz com que todas as mulheres, mesmo as de cem anos, tenham a pele mais lisa e mais incrível que a pele da minha filha de dois anos.

Tudo o que é este artigo tornou-se palpável quando acabei a terceira leitura d’”A Gorda” e fechou-se quando no Sábado folheei uma Vogue francesa de 2009, e me lembrei que não há assim tanto tempo que o Photoshop era uma ferramenta recorrente para a obtenção de uma aparência irreal, porém consentida.

2016 foi um ano de perda de corpos e de pouca reflexão simbólica sobre essa perda, sobre o contributo que esses corpos nos ofereceram.
Com tudo o que 2016 fez desaparecer e aparecer, sem qualquer compensação entre uma coisa e outra, sem sombra de simpatia por ninguém, o que resta de 2016 é um corpo plural. É um corpo livre. E em 2017, quero que se celebre esse corpo e que nos preparemos para celebrar todos os outros corpos que fogem à normatividade. Mas o caminho ainda é longo.

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