Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Capaz de Dizer Sì!

Antes de sair da casa que a viu nascer, vestida com o fato de ceifeira que já vestira uma vez aos dezasseis, a minha Mãe estava gloriosa dentro do mesmo fato de ceifeira aos quarenta e três. Entre a minha Mãe do panfleto e a minha Mãe que estava à minha frente, a única diferença era o franzido dos olhos, porque já era lusco-fusco, e a fotografia de referência tinha sido tirada ao sol.
Tínhamos combinado que depois do jantar, a minha Mãe viria buscar-me.
O jantar temático para onde a minha Mãe ia vestida de ceifeira era a primeira reunião oficial do seu grupo de amigos de sempre, após uma catrafonada de anos sobre qualquer coisa.
Nesse ano decidiram reviver as Festas de 1972.
A acção decorre em Campo Maior, durante as Festas do Povo (aquelas das ruas cobertas de flores de papel) de 1998. Para quem não conhece, as Festas são uma semana em que os tectos das ruas cobertos com flores de papel fazem da bela vila raiana uma enorme casa aconchegante que cheira sempre a café acabado de torrar. Cada casa outrora privada torna-se uma divisão sempre aberta a quem quiser entrar. Há música dia e noite. Crianças, adultos e adultos-adultos convivem sem hora marcada. Da noite da enramação ao último dia, há festa com efe grande.
Em 1998 eu tinha 12 anos.
– Mãe, vens MESMO buscar-me quando acabar o jantar, não vens?
– Sim, Filha, venho MESMO.
E assim fiquei em casa com os meus Avós enquanto esperava pela minha Mãe, que saíu de casa gloriosa com o seu grande chapéu de palha em direcção ao Futuro. Mesmo a correr pela casa, de janela em janela, perdi-a de vista por um instante entre as cordas de flores de papel. Encontrei-a pelo chapéu e fiquei a vê-la desaparecer no lusco-fusco e no emaranhado de cordas de flores de papel com a cabeça esticada género cágado fora da carapaça, na janela do quarto dos meus Avós, a última de onde se poderia avistar o horizonte.
A minha Mãe era a única divorciada do seu grupo secular.
Também era a única a quem o fato de ceifeira servia na perfeição sem ter sido necessário fazer qualquer tipo de arranjo à pressa, a tempo do jantar. Sentaram-na na mesa com um grupo de sempre e – mesmo a calhar – um amigo de um amigo, também ele divorciado, tinha sido sentado ao lado da minha Mãe.
Consta que conversaram o jantar todo.
Terminado o jantar e reúnida a tropa que iria arruar, a minha Mãe separou-se do grupo para me ir buscar, tal como prometido.
Voluntarioso, o senhor que tinham sentado ao lado da minha Mãe acompanhou-a, para não ir sozinha.
– Capaz de me perder, quer ver?! – tenho a certeza que a minha Mãe lhe terá dito qualquer coisa deste género, antes de aceitar finalmente a companhia.
Quando a campainha da porta tocou lá pela meia noite, já tinha dormido ali uma sesta e estava pronta para gozar mais um bocadinho da semana de excepção, qual ano bissexto, em que ficar acordada a noite inteira era normativo.
Desci as escadas de dois em dois e pus-me na rua pronta para tocar pandeireta e cantar as saias com o sotaque de Campo Maior mais depressa que um foguete.
Atrás do grande chapéu de palha e do traje colorido da minha Mãe, um senhor de fato curto de montar.
O grupo aguardava mantendo o ritmo da moda com as pandeiretas enfeitadas com fitas coloridas e borlas.
E eu não conhecia aquele senhor.
– Filha, é um amigo do João Manuel que fez a gentileza de acompanhar a Mãe.
– Olá Joana – disse o senhor.
– Olá – disse eu.
– Até logo Mãe! Pai, queres vir? – perguntou a minha Mãe ao meu Avô, muito dado a festas.
– Não, Filha, vão vocês – respondeu o meu Avô.
E nós fomos.
O senhor só falava comigo.
E fazia perguntas.
Até que fez esta: – Dás-me o número de telefone da tua Mãe?
– Porque é que não lho pedes?
– Já pedi, mas ela não mo dá.
Houve um silêncio que neste caso não poderia ser silêncio nenhum por causa da algazarra em que estávamos a deslocar-nos.
Duas quadras cantadas depois, o senhor volta à carga: Dás-me o número da tua Mãe, ou não?
E eu, qual Michelle Dubois do “Allo Allo” respondi: SIM, está bem, mas só digo uma vez.
Três dias depois, já restabelecida a ordem “normal” do nosso cosmos, a minha Mãe pergunta-se quem é que deu o seu número de telefone àquele senhor do jantar, que estava a sair de casa para a ir buscar para jantar, só precisava da morada.
É sem dúvida um dos meus melhores SIM de sempre. Ofereci mais uma forma de sorrir à minha Mãe e ganhei o único homem a quem sempre fez sentido chamar Pai.

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