Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Ch-Ch-Ch-Ch-Changes

Primeiro foi a Burberry, depois TOM FORD e agora VÊTEMENTS.
A notícia relata que as casas Burberry, TOM FORD e VÊTEMENTS, respectivamente, não irão apresentar colecções agora já nas próximas semanas nas Fashion Weeks que começam a pulular pelo mundo e que em Setembro irão apresentar em desfile uma colecção passível de ser adquirida imediatamente.

Isto se calhar até me fica mal, mas já falei sobre isto que agora surge como uma notícia bombástica há quatro anos, aquando da primeira vez que dei uma conferência sobre Moda, no Goethe Institut em Lisboa, chamada ShopOneHour.

A destruição dos ciclos da Moda como os conhecemos até hoje está em curso, diria eu, há cerca de duas décadas, talvez três, mas tem-se intensificado bastante desde há uma década para cá.
O consumo de Moda, à semelhança do que tem acontecido com o consumo em geral, tem-se intensificado muitíssimo até ao ponto em que estamos neste momento, até esta viragem abrupta que leva dois nomes grandes a abdicar dos seus lugares de prestigio nas passarelas mundiais, em prole do ajuste de uma forma de comunicar com o cliente mais adequada às suas necessidades.

Atribuo ao momento que vivemos três causas.

A ERA DIGITAL
A era do Digital, da Fotografia Digital, das publicações com páginas online e dos blogues, do social media e destas coisas todas partilháveis e likáveis com cliques giros em emoticons, das coisas pináveis e passíveis de sucumbir às nossas pastas com um simples clique de direita vieram alterar profundamente a forma como consumimos objectos.
Objectualizando a Moda, destruímos os seus ciclos.
O cliclo da Moda funcionava de forma simples: no despertar da Primavera apresentavam-se aos compradores as colecções de Outono e Inverno, para que estes escolhessem as peças que queriam comprar para revender. As casas tinham então tempo para confeccionar as peças nas quantidades que os clientes desejavam e fazer as entregas no tempo necessário para que as lojas se começassem a povoar de roupa quente para as estações frias, a tempo. E neste intervalo da chegada da roupa quente para as estações frias, com as lojas sem muito stock vencido e carregadas de mercadoria nova, prontas para as vendas, tinham lugar as semanas de Moda, com a apresentação das colecções para a Primavera e o Verão, e os tempos entre a compra, a confecção e a entrega eram respeitados. Isto para dispensar o vice-versa. Algumas marcas mais antigas, por causa da manutenção dos hábitos estivais da alta burguesia e de alguma nobreza, criavam para as suas boutiques das estâncias balneares, colecções exclusivas em materiais menos nobres ou até mais divertidos ou semelhantes aos do artesanato locais ou trajes típicos, para que as Senhoras pudessem comprar estando de férias, daí existirem pequenas colecções intermédias às quais se chama Resort. Originalmente de Verão, mas também as há de Inverno. A Chanel é um óptimo exemplo de marca com estas colecções todas.
O mesmo sucedia com as produções de Moda, as quais eram realizadas com os tempos não só da Moda, mas também da Fotografia, das Modelos e de toda a logística envolvida na realização da produção, a qual poderia demorar meses até chegar às páginas de uma revista, com uma colecção absolutamente exclusiva, a qual só estaria disponível para compra daí a mais meses, e para os nossos olhos caso comprássemos um exemplar da revista.
Nem é preciso pensar muito para percebermos que o digital aliado à internet veio detonar todos estes ciclos, ao oferecer-nos a possibilidade de entrar em contacto com a Moda em tempo real (desfile em streaming, por exemplo).
E se o Digital tem vantagens, também terá desvantagens… Não?
Um dos efeitos colaterais do Digital na minha pessoa tem sido a saturação das peças-chave de cada marca em cada colecção, fotografadas ad infinitum e partilhadas nas redes sociais até ao enjoo. Ou então o desejo por um produto que nunca mais chega às lojas porque afinal não foi para produção.

O TEMPO DO FAST 
A Fast Fashion, mil perdões à Fast Fashion se a magoar, deu bastante cabo da forma como consumimos Moda.
Para demonstrar este ponto vou apenas concentrar-me no maior grupo de Moda do Mundo, que tem tanto de excitante como de assustador, a Inditex, escolhendo como sujeito uma das marcas do grupo, a ZARA.
A ZARA lança colecções novas a cada quinze dias, colecções essas pejadas de básicos e peças de pronto a vestir tout-court, que em bom rigor são reproduções de modelos com óptima saída, mas também lança peças novas e vagamente excitantes a preços absolutamente imbatíveis, embora haja quem se queixe de que a ZARA está a ficar carota.
As marcas de Fast Fashion como a ZARA e outras semelhantes, conseguem desenhar, cortar, produzir e pôr em loja em apenas quinze dias, oferecendo ao consumidor a hipótese de entrar em contacto com uma linguagem não-verbal constantemente renovada, capaz de manipular o gosto global e surpreender o público, sempre ávido de renovação. Se o tempo é rápido online, também o é offline, e estar offline hoje implica entrar em contacto com dispositivos que permitam suprir as necessidades de consumo têxtil com a mesma rapidez e eficácia com que suprimos todas as nossas outras necessidades. Ora, se aquilo que procuramos é suprir uma necessidade sujeitos ao conceito fast (fast food, fast fashion, speed dating…), queremos algo que preencha rápido, de forma eficaz e a baixo custo.
Com a vantagem, nas marcas de Fast Fashion, de se poder adquirir um produto sem experimentar e trocar ou devolver o mesmo mediante a apresentação do talão de compra e do código de barras impresso na etiqueta interior.
Vestir-se em modo causa-efeito nunca foi tão eficaz e nunca chutou tão rápido para canto as marcas que respeitam os ciclos como desde há dez anos para cá.
Porque… Quantas vezes não vos aconteceu já quererem comprar qualquer coisa e estarem fartos do que está nas lojas, porque parece que as estações nunca mais chegam ao fim e que o período dos saldos se prolonga décadas?

E-SHOPPING
Eu só não compro online porque sou contra a ideia de cartão Visa. Vai daí, estou vagamente livre dessa escravidão. Mas sei que o E-Shopping é uma grande loucura e uma das formas mais incríveis de transformar o mercado e dar voltas aos ciclos da Moda.
Uma boa loja online não só tem o produto bem fotografado, como também o tem disponível para venda ou pré-venda assim que é disponibilizado para contemplação pela primeira vez.
A grande maioria das marcas não comercializa os seus produtos de alto gabarito online, e isso é uma barreira intransponível para a conquista do mass-market. Uma barreira que se as marcas, por um lado, parecem não querer transpor, por outro desejam, só que parecem estar com complexos.
O que é que uma latifundiária alentejana tem a menos que uma parisiense para não ter ali à mão de semear uma carteira Chanel ou Hermès? Porque é que esse acesso lhe é vetado por uma política de marca, que no final de contas não deve ser assim tão interessante, caso contrário as grandes marcas não estariam neste momento a deitar estas contas à vida… O poder de compra de uma latifundiária alentejana é igual ou superior ao da parisiense, só que o seu acesso aos produtos não é o mesmo por questões de natureza geográfica. No entanto, recorrendo à internet, a latifundiária pode saber da existência dos objectos e desejar adquiri-los. Só que nunca vai poder, a não ser que se desloque fisicamente a uma loja.
Isso não sucede com as marcas de Fast Fashion, totalmente disponíveis para compra online e entrega em três dias, com direito devolução sem encargos para o cliente, muito menos com as marcas que conhecemos como high-street, que são aquelas tipo Michael Kors e Carolina Herrera e por aí adiante, que fazem exactamente o mesmo com grande parte dos produtos, deixando alguns exclusivos para venda em loja física. Nas marcas de Fast Fashion, há exclusivos online, que no fundo é a anástrofe de tudo aquilo que foi dito antes e um posicionamento muito distinto.
O E-Shopping facilita indiscutivelmente a relação do indivíduo com o produto. Ora se o indivíduo tem mais acesso a gamas de produtos cujas políticas não se regem pelos cânones antigos da Moda, então este também é um factor que contribui para a degradação dos ciclos da Moda.

Todos juntos, estes três factores são letais para a ideia de que a Moda é uma coisa que se desenvolve paulatinamente em ateliers cheios de requinte e bordadeiras e gente que faz tudo à mão no centro de Paris.
Não.
A Moda mediatizou-se no que o recurso aos dispositivos digitais e online diz respeito, mas parece que se esqueceu da parte da produção, género toma lá cinco escudos, mas não gastes tudo em vinho.

Nos últimos quatro anos tenho olhado para a Moda como olho para o Teatro.
Penso nos paradigmas e no patriarcado de ambos, os quais via sempre distantes, mas que agora não posso deixar de observar tão próximos. Se o paradigma da teatralidade afasta espectadores porque o Teatro é todo falado com aquela entoação e soturno e aborrecido e sem qualquer tipo de graça ou relação com o público (a quarta parede e o ponto de fuga são tipo… mau), por causa dos textos e das temáticas e daquelas luzes amarelas que mal deixam ver o que é que se passa e aquelas roupas que são sempre figurinos algo longínquos da serventia do espectáculo (podia ficar aqui para sempre…!), o paradigma da Moda sucumbe exactamente aos mesmos encantos enquanto espectáculo inatingível, cuja forma é reticulada e sistemática, cuja difusão procura uma elite (à semelhança do Teatro) e despreza a transversalidade. Então sim, estamos perante um espectáculo muito velho, com alguns bodes ainda vivos, por isso incapaz de se renovar para sobreviver.
Porque para o Futuro da Moda não chega a integração de novas e pouco convencionais sensações Kardashian ou Hadid, por product placements para social media, hashtags ou colaborações, é preciso que a Moda do éme grande deixe de correr atrás do imediatismo (quer ao nível da confecção, como da imagem e do design) e procure harmonizar-se com as novas tendências do minimalismo ético, do consumo consciente, da multidisciplinaridade e acima de tudo, da consciência da transversalidade dos objectos que perfuram os desejos de todo o tecido social ocidental que procura o estatuto comunicado não-verbalmente. Para o Futuro da Moda não basta bestializar desfiles ou monopolizar acontecimentos, é preciso que a Moda tangível chegue ao consumidor o mais rapidamente possível, antes mesmo da Fast Fashion. E a este ritmo, com o rigor técnico que a Moda do éme grande não pode dispensar, o encurtamento dos tempos de produção é ainda muito difícil de atingir.
É precisa uma mudança de ritmo, não necessariamente para mais rápido.
Ao abandonar a Dior, Raf Simmons disse precisamente isto.

O Futuro da Moda, muito discutido nestes últimos dias, penso que será clássico.
Das marcas gigantes iremos procurar consumir clássicos e esperar pelos acontecimentos anuais das red carpets, enquanto se assistirá ao sublinhar do consumo, em detrimento do anacronismo antigo, de mais designers independentes e infelizmente de mais fast fashion. Porque o abrandamento económico ou o colapso dos mercados são acções que se passam num outro plano, nada disso vai cessar o desejo de consumir e continuar a comunicar e reflectir não-verbalmente as nossas escolhas éticas em sociedade.

Idealmente desejo que se consuma de forma mais consciente, com menos exploração, menos materiais sintéticos e menos poluição.
Mas estes são os meus ideais.
Devia preferir uma carteira Chanel assim comprada com o meu dinheiro.

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