Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

CHANEL pre Fall 2014

Eu que nem ligo muito aos desfiles e a às tendências acabo sempre por esbarrar com alguma coisa que me leva a ir ver.
Agora que há entre-épocas e entre-entre-épocas (refiro-me aos pres e resorts, por exemplo) nas lógicas das colecções, gostava muito de falar da única pessoa capaz de criar mil colecções num ano e fazer TUDO bem.
Lembro-me de ter visto socas de ganga na R. St-Honoré há uns oito meses, na loja da Chanel, e de estarem hordas de asiáticas aos berros por causa das socas, porque os números mais pequenos lhes ficavam grandes, naquele modelo. E eram umas socas de ganga. Estava com o AMET e ele de repente diz-me que se não fosse isto ser da Chanel, ninguém comprava, porque eram socas de ganga, e seriam sempre sapatos irónicos, não tivessem os c’s cruzados no ladinho da soca. VERDADE.

Tal como quando as nossas calças preferidas estão a dar as últimas, parece-me que o Karl está a preparar-se para deixar um legado impossível de suplantar, quando deixar o comando da Chanel.
O Karl Lagerfeld é alemão. Na Alemanha não há alta costura. Foi por na Alemanha não haver alta-costura (complexos do pós-guerra) que se mudou para Paris e por isso foi parar à casa que mais faz sonhar mundo fora: Chanel.
Todos estes factores fazem dele a pessoa mais inteligente, perspicaz, influente e conceptual do Universo Moda.
Senão basta pensar que o espírito da marca nunca se perdeu: o carácter de fácil utilização e intemporalidade de qualuqer peça Chanel é inegável. As escolhas de materiais, cortes, aspectos e styling são quase sempre irrefutáveis. E os acessórios são o que faz o público suspirar.

Pronto, o desfile de Pre-Fall 2014 da Chanel é, mais uma vez, a prova de que existe uma linha conceptual maravilhosa que se segue a partir do momento em que se decide qual é o tema de. E por isso é que o que o Karl faz é arte e não é moda. Pelo simples facto de tudo ser pensado de forma conceptual, de obedecer a uma ideia base e de a alimentar através de uma linguagem que muitos acham fútil e desnecessária, mas que é a História da Humanidade. Lamento por todos os que todos os dias insistem em afirmar que roupa é apenas roupa e não se permitem apreender todas as outras esferas de sublimação que a roupa oferece. O papel fundamental da cobertura do corpo em sociedade nem sequer é passível de ser discutido e pronto, é isto. Lamento muito, porque o pior é sempre aquele que não quer saber.

Entretanto perdi-me, mas o desfile Pre-Fall 2014 da Chanel é absolutamente genial.
Paris-Texas. Texas, U.S.A. América. Nativos.
Peço que façam uma pausa e que vão aqui ao STYLE.COM ver este LINK onde estão as fotos todas dos combinados do desfile de que vos falo: http://www.style.com/fashionshows/review/2014PF-CHANEL/  

Posto isto, só tenho a dizer que é absolutamente brilhante o recorrido que se faz pelas culturas que convivem no mesmo território desde há séculos. É absolutamente brilhante a interpretação à la franciú que se faz da Americana. É absolutamente brilhante que se trabalhe desde a manta nativa à versão moderna da mulher texana endinheirada, para a qual se olha como uma grande bimba. É absolutamente genial que eu não queira comprar nada pelo simples facto de saber que estou perante uma obra de arte sob a forma de roupa.
E é isto que me arrepia na moda da qual tanta gente diz mal: a capacidade de, através de um dispositivo aparentemente simples, que é a tão vulgar roupa, ser possível dizer tanto!… Percorrer a história do traje e aterrar em grande no protótipo de texana do centro comercial de Austin.

E isto é o que acontece sucessivamente com estas colecções off the off-off o recorrido pelo tema faz-se de forma conceptual, divertida, séria, interpretativa, descomplexada e respeitadora. Comprável. Intemporal.
É o toque de KARL.


Todas as imagens, Style.com

E se ainda se estão todos a queixar porque a nova cara da Chanel é a Kirsten Stewart, vão queixar-se para outro lado, porque esta é das decisões mais inteligentes do último milénio.
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