Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Cheira a Miu Miu

Na sexta-feira recebi este e-mail a anunciar a chegada de um estafeta, que é mais ou menos o mesmo que a chegada dos Reis Magos, estafeta esse que terá certamente sido guiado pelo eclipse da noite de domingo para segunda.

“(…) Envio-te este email porque o primeiro parágrafo do press release fez-me pensar imediatamente em ti:
MIU MIU É UMA MARCA QUE ADORA MULHERES CHEIAS DE CONTRADIÇÕES: INTELIGENTEMENTE FRÍVOLAS, DESTEMIDAMENTE DIVERTIDAS, SERIAMENTE ALEGRES, FEMININAS E FEMINISTAS. MIUCCIA PRADA SABE CLARAMENTE QUE A MODA NÃO É SUPERFICIAL: MEDEIA A NOSSA RELAÇÃO COM O MUNDO QUE NOS RODEIA. O PODER DE CONSTRUIR A IDENTIDADE – COMPREENDER, TORCER E QUEBRAR AS REGRAS – É UMA CONSTANTE NA MULHER MIU MIU. É A SUA DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA. ELA TEM A SUA PRÓPRIA AGENDA, NÃO SE SUBMETE. O SEU ESTILO É A MATERIALIZAÇÃO DESTAS QUALIDADES, SIMULTANEAMENTE DELICADA E FORTE, REFINADA E CRUA, MODESTA E EXORBITANTE.
Portanto, lendo isto só posso concluir que a Miu Miu é uma marca que te adora. (…)”

Chegou ontem pela manhã.

Isto que está a acontecer aqui neste post é mais do que um bocado improvável, uma vez que não posso dizer que seja conhecida pelo meu olfacto incrível ou refinado ou pela minha qualidade na escolha de perfumes.
Digamos que grande parte da minha vida escolhi perfumes pelo frasco.
E pela cor do líquido.
Porque era imperativo confiar em alguma capacidade de escolha que fosse minha e avançasse para além da crítica escrita, até há bem pouco tempo muito difícil de obter, ou da sugestão da senhora da loja, que nunca me conhecia, mas que ainda assim tinha a veleidade de me sugerir um cheiro baseada nos três minutos de conversa à força que entabelara comigo.
Até porque o cheiro é uma coisa muito pessoal.
Nunca tive um olfacto muito apurado.

Voltando ao início disto tudo, este post é sobre o novíssimo perfume da Miu Miu, que por sinal é o primeiro da marca.
Criada em 1993, a irmã mais nova da Prada consolidou-se no mercado quase automaticamente devido ao facto de vir contrariar a ordem minimalista então vigente.
Entre o grunge e a ressaca dos excessos dos oitentas, nos noventas a cena do pessoal a sério era em acto de contrição, tudo em limpinhos e em smart; caso vos falhe a memória, basta pensar nas colecções da Prada dessa altura e fica-se com uma ideia.
A Miu Miu surgiu então para contrariar a tendência e servir as mulheres que continuavam a ser flamboyant e divertidas e cheias de graça e vontade de cores e brilhos e purpurinas, que pareciam ter-se extinguido de mão dada com os dinossauros.
Esperamos sempre das colecções da Miu Miu propostas divertidas e cheias de graça. Cheias daquela diversão que é mais ou menos a mesma de quando se misturam pipocas, algodão doce, M&M’s de manteiga de amendoim, marshmellows, gomas ácidas, gelado e bolachas Oreo, tudo acompanhado de Coca-Cola.
Esperamos essa overdose.

Mas será que devemos esperar essa mesma graça do seu primeiro perfune?
E porque não?

Nos tempos em que ainda escolhia perfumes pela embalagem, escolheria o perfume da Miu Miu sem pestanejar, porque o frasco salta muitíssimo à vista e faz lembrar qualquer coisa antiga que não sabemos bem o que é, mas que faz parte do nosso imaginário.
Faz lembrar as barbies sevilhanas da casa da minha chiquíssima Tia Sofía.
Acrílico translúcido encarnado, dourados, branco mate e vidro opaco num azul automaticamente Miu Miu, mais o relevo matelassé recorrentemente presente em carteiras, por exemplo; contrastes para os nossos olhos de hoje, atolados de normcore, mas ao mesmo tempo requinte, e ainda ao mesmo tempo, porque neste tempo que são os muitos tempos que demorámos para aqui chegar, cabe muita coisa, um tempo que já foi.
Anos sessenta e anos oitenta e anos vinte e anos trinta e anos anos.
O teledisco do “Why Don’t You Love Me” da Beyoncé.
A Rossy de Palma.
O Russ Meyers.
A Dolly Parton e a Tammy Wynette.
A casa da Jayne Mansfield.
Mas também a Rita Pavone na sua versão western spaghetti “Little Rita Nel West”.
A Welma, mas também a Daphne do Scooby Doo.
O LouLou da Cacharel.

E a lista poderia não terminar, porque a Miu Miu é sempre a reminiscência de qualquer coisa que tanto pode ser Uma Casa na Pradaria, como a Mary Poppins, como a Tavi Gevinson.
Hoje.
E para mim a parte do hoje também é muito importante, porque eu também gosto imenso do passado, mas já passei a fase de me mascarar de pessoa de época e também já só prefiro um apontamento-reminiscência ou uma peça exuberante ou um toque disto ou daquilo.
E a Miu Miu encerra isso tudo em si:qualquer que seja o conceito da marca, terá também sempre espaço para o reverso diametralmente oposto.
Ah! – Que pluralidade!

Mas uma vez que isto não é sobre roupa ou acessórios, o que tenho a dizer-vos sobre o perfume é que combina notas florais com uma doçura qualquer que normalmente me causa aversão, porque um perfume doce dá cabo da minha cabeça.
Lírio e jasmim e rosa, mas também uma coisa qualquer que é terra, ou que é amadeirada, que é uma versão revista e aumentada do tão clássico e forte e por vezes repugnante patchouli, na estirpe akigalawood.
O resultado desta combinação é um aroma que cresce e abre lentamente, que tem uma profundidade não tão profunda como a extensa história da marca.
É menos sumptuoso e exuberante que o frasco pode sugerir.
Não serve quem deseja refastelar-se horas no aroma porque se funde rapidamente.
Mas isso agrada-me de uma forma quase mórbida!
Só que é divertido e certeiro sem se tornar demasiado presente, porque tem um toque de neutralidade na forma como se vai evaporando e incorporando na pele e na roupa.
Fala-me muito ao coração, porque os cheiros que tenho mais presentes são, por exemplo, o cheiro da terra molhada depois de uma chuvada que não se fez anunciar numa tarde de Verão alentejana. Ou as rosas que o meu Pai colhia para nos por em cima do guardanapo na mesa do pequeno-almoço de Domingo. Ou o cheiro do chá de jasmim fresco que a minha Tia me enviava de Macau e eu guardava religiosamente no frigorífico para ir consumindo com alguma cerimónia. Ou os lírios roxos do campo, que no Alentejo pintalgam a planície e que neste caso são mais uma memória visual que está dentro do frasco, que salta cá para fora quando o abro.

É um perfume inteligente e de agora. Não cheira a velho nem a novo, cheira a uma coisa que podia ter sido e estado aqui sempre ao nosso lado, e acho que aí é que está o toque de genialidade da coisa.
Porque em bom rigor, gosto de sair de casa a cheirar a perfume, ao perfume que elegi para aquele dia e aquele mood. Não gosto de chegar a casa a cheirar ainda a perfume. Gosto de chegar a casa a cheirar a rua ou ao que estive a fazer, que também tinha um cheiro que passou por mim e que me viveu e que eu vivi. Se o cheiro faz parte da vivência, sim, quero trazê-lo comigo. Perfume como acessório é então sair de casa confortável com um cheiro de casa.
Perdão.

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