Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Comunhão de Bens

A Luisinha tinha uma vida de sonho.

Vivia no Alentejo, num casarão todo idealizado por ela e por uma amiga arquitecta a meio dos anos oitenta, tinha um trabalho de sonho, duas filhotas lindase um guarda-roupa de cortar a respiração.

Em plena década de noventa, a Luisinha era um mulherão: excelente dona de casa, muito decidida, inteligente, com óptimo gosto e dona de uma cultura e saber-estar incríveis; lia e ia a exposições e tinha discos de vinil porque adorava música.

Tinha em comum com o seu grupo de amigos o estatuto económico e os miúdos.
Resistia estoicamente morena face à invasão de nuances que nessa altura começaram a querer cobrir os brancos de toda uma classe social. Vestia tailleurs de saia ou calça com camisas de seda e sapatos Bally durante a semana, e ao fim de semana tinha o melhor estilo casual do grupo, que insistia nas saias travadas da Mikado com T-shirts a condizer ou então nos fatos de treino. Luisinha usava jeans e ténis. E arrasava. Acima de tudo era diferente e adorava sê-lo.

Acontece que o marido de Luisinha era uma besta. Uma daquelas bestas aficcionadas, brasonadas, das touradas, da bota caneleira e do alcoolismo como cartão de visita. Das cigarrilhas e da falangeta do indicador direto amarela. Um homem à antiga portuguesa, daqueles que revira os bigodes como os entusiastas da nova portugalidade e das tradições fazem, sabem?

Descontente com a vida que afinal não era nenhum sonho, há muito que Luisinha decidia tudo sozinha e fazia o que tinha a fazer com as miúdas sem prestar contas ao marido que nem sequer as chegava a pedir, sempre ausente numa corrida qualquer ou no Clube a ver a emissão de uma corrida qualquer ou em qualquer coisa que envolvesse corridas.

Completamente saturada de tanta solidão apenas povoada pelas camisas para engomar e pelo prato que todos os dias levantava imaculado da mesa de jantar, Luisinha pediu o divórcio.

Foi um choque no seio do grupo de amigos e até mesmo fora dele: ninguém se divorciava! Logo agora que as coisas estavam tão boas!… Isto só podia ser mais uma das ideias modernas da Luisinha, um impulso que depois lhe iria passar!… Tinha perdido a cabeça! Onde é que já se tinha visto, uma mulher como a Luisinha, a primeira do grupo a fazer quase tudo, querer o divórcio!?! De certeza que era uma questão de tempo até mudar de ideias! – As mais beatas rezavam para que não tivesse dito nada ao marido, para que ainda fosse uma ideia inclusa.

Um dia, a Luisinha apareceu sozinha com as miúdas, como de resto, já era habitual, para uma festa de fim de semana à tarde na vivenda recém construída dos Andrade. Em cada mão, uma miúda, na mão direita mais um saco com a mousse de chocolate que fazia sempre para estas ocasiões. Os miúdos deliravam, era fácil de fazer e saía-lhe muito bem.

A um canto da mesa repleta de semi-frios de palitos la reine e gelatinas em arco-íris com pudim, bavaroise de ananás, baba de camelo, a recém chegada mousse e três fartíssimos pratos de sandes de panrico com queijo, fiambre ou paté la piara cortadas em triângulo, Manecas e Teresa retiveram Luisinha:

– Sempre foste com aquela coisa do divórcio para a frente? – perguntou a Manecas, que era mais abelhuda e descarada que qualquer outra do grupo, e que na verdade já tinha ouvido um zum zum. – Ouvi a do tribunal a comentar no outro dia, sabes como é que as coisas são, isto sabe-se tudo…

– Mas tens a certeza, Luisinha? Tens uma vida tão boa… – Perguntou Teresa mais em tom de desabafo, demasiado inocente para a idade e para a quantidade de filhos que tinha.

Entretanto chegaram mais uns casais que eram só pais dos colegas de escola, que não eram bem amigos, e o assunto morreu ali.

Nestas festas ficava-se geralmente pela cave e pelo jardim, para não haver desconhecidos a entrar pela casa e a bisbilhotar. Quem tinha vivendas “protegia” os que ainda não tinham lá chegado.

Luisinha aproveitou para subir as escadas do jardim até à cozinha americana contígua à sala de jantar para fugir dali, apanhar mais gelo e contribuir assim para o bom funcionamento da festa. Ainda bem que faltava gelo, pensou Luisinha enquanto despejava o frapée para o lava-loiças num gesto mecânico e simbólico. Apetecia-lhe muitíssimo despejar emoções com aquela facilidade, só que não podia. A rigorosíssima educação jamais lhe permitiria tal coisa. Já o divórcio estava a ser uma grande inovação no seio familiar, porque embora não se apreciasse o então ainda marido e ele não fizesse a mínima questão de estar casado com ela, isso não interessava nada. Muito menos interessava que ele estivesse a dificultar a tarefa ao máximo. Estava a ser um divórcio litigioso, doloroso, penoso e acima de tudo, moroso.

O processo já se iniciara há que tempos, só que ninguém sabia.

Abriu a porta do congelador e tirou as cuvetes de gelo para fora. Enquanto as despejava para o frappé, continuavam os gestos mecânicos e simbólicos. OK, despejar as emoções poderia até ser assim mais difícil como extrair os cubos de gelo das cuvetes. Luisinha precisava de catarse, mas o seu coração estava tão empedernido como o gelo.

Aquando da mudança para a casa nova, a televisão antiga dos Andrades tinha sido substituída por uma muito maior, ligada à parabólica e com comando, equanto a antiga tinha sido reconduzida, pelo que havia agora uma televisão na cozinha, acesa quase as vinte e quatro horas do dia. Para Luisinha, tanta televisão era uma atrocidade, mas pronto. De frappé já cheio de gelo na mão, num momento de distracção, Luisinha foi atraída para o écran, qual íman de Claudia Jacques.

Carlos Ribeiro apresentava “Comunhão de Bens”, de Ágata, numa das primeiras posições da tabela.

Imóvel perante o écran, deu por si a cantar de cor, enquanto dos olhos lhe brotavam cascatas silenciosas: “(…) Podes ficar com as jóias, o carro e a casa, mas não fiques com ele. E até as contas do banco, e a casa de campo, mas não fiques com ele. Podes ficar com o resto e dizer que eu não presto, mas não fiques com ele. Tira-me tudo na vida, e o mais que consigas, mas não fiques com ele. (…)”. – naquele momento tinha finalmente descido do seu pedestal, era humana e estava em comunhão com Ágata.

Este foi o momento mais Marxista da nova vida de Luisinha: em uníssono com Ágata, estaria para sempre abolida a luta de classes e encetara-se todo um novo Futuro.

Agarrou nas míudas, abandonou a festa e sobretudo a taça da mousse, que era do serviço que recebeu no dia em que casou.

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