Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

CROSSFIT DAS MÃES

É Agosto.
Já fui à praia.
Em bikini.

Mas para isto fazer assim algum sentido, explico aqui uma coisinha, que se sistematizou na minha cabeça uma vez que fui ao programa da Ana Rita Clara, o Faz Sentido, na SIC Mulher, com a Carolina Deslandes e a Adriane Garcia, no ano passado e isto porque a Carolina o disse, relativamente aos então seus dois filhos com menos de um ano de diferença entre eles: em dois anos fui Mãe duas vezes.

E também adorava muito fingir que para ter um bikini body é só preciso ter um bikini e um body, mas a verdade é que, tendo um bikini e um body, a coisa não é bem assim.
Poderia também começar a desenvolver aqui um rol de frases mesmo lindas, que todas juntas acabariam por se transformar num belo discurso de auto-motivação sobre ser sedentária e quê, mas é que nem é o caso. Além de não ser, de todo, sedentária, não, não tenho MESMO meia hora por dia para fazer mais exercício numa catedral do exercício.
Exacto, MAIS.
Porque os dias têm 24 horas e os dias das Mães com 24 horas não chegam para dar abasto.
Tendo em conta que cada corpo é um universo e que já escrevi sobre isto no ano passado, vou escrever sobre o que realmente me levou a escrever-vos hoje.

Por acaso, no texto do ano passado, falava desta ideia do corpo capaz.
Este ano falo-vos da mesma ideia, mas de uma coisa da qual também me fui apercebendo ao longo do último ano, que é o upcycling do corpo das Mães na vida das Mães.
Pronto, agora de repente tornou-se meio obrigatório lerem o texto do ano passado, por isso façam uma pausa, clickem lá em cima, e vão ler.
Chama-se TODAS AS MULHERES SÃO REAIS.

Segundo a Wikipédia, o “(…) Upcycling, também conhecido como reutilização criativa, é o processo de transformação subprodutos, resíduos, produtos inúteis ou indesejados em novos materiais ou produtos de melhor qualidade ou com maior valor ambiental. (…)”.​

O corpo no acto de ser Mãe tem de ser, acima de tudo, funcional.

Aquilo a que hoje em dia se chama “crossfit” não é mais do que um treino funcional, só que articula uma série de funções que ninguém pratica nunca, numa base quotidiana, porque os seus quotidianos não incluem agitar cordas ou arrastar pneus.
Pratiquei sempre bastante exercício, não de ginásio, mas desportos colectivos, como basket ou andebol, pratiquei dança durante muitos anos, e alguns deles também me dediquei ao ioga e ao pilates. E o meu horror a ginásios não é de hoje nem de ontem, é antigo, porque não me agrada a ideia de ginásio, porque para mim a actividade física está mesmo muito relacionada com esta coisa catártica de libertação e de progressão, de superação, de avanço no espaço, de contra-ataque, de liberdade física, e não tem mesmo nada a ver com um leg press ou com uma máquina que não sei como utilizar e que ninguém tem paciência para me explicar como é que se utiliza. No ginásio, que frequentei anos a fio, sou sempre a tola que está mais tempo que qualquer um nas máquinas que ninguém quer, que faz playback do que estiver a ouvir nos auscultadores e que deixa cair os pesos. É muita pressão para mim. Sendo que a maternidade retira qualquer tipo de pressão desnecessária e ajuda o indivíduo a reposicionar-se em santíssimos aspectos na vida, a pressão do ginásio não é, de todo, uma que queira reclamar.

A maternidade trouxe-me o Amor de Mãe, mais dez centímetros na cintura, que segundo a minha costureira me vieram mesmo a calhar, porque assim a anca não parece tão larga, opinião da qual mais de metade da minha roupa discorda, porque agora está triste e sozinha a um canto ou a caminho de novos donos e uma modalidade a que chamo o CROSSFIT DAS MÃES.
Após a primeira gravidez, pratiquei ginástica pós-parto, num local óptimo com uma senhora óptima. Porém, e porque cada corpo é mesmo um universo, um dos universos da minha galáxia não me permitiu semelhante regresso na sequela.
Prevenindo o eventual momento de pânico num provador perto de si, e uma vez que a secção dos fatos de banho do El Corte Inglès este ano viria a estar no piso -1, ainda bem que não só pratiquei o CROSSFIT DAS MÃES, como também segui à risca o plano alimentar que acompanha esta modalidade desportiva.

– E em que é que consiste o CROSSFIT DAS MÃES?, devem estar vocês a perguntar-se.
E eu respondo: o CROSSFIT DAS MÃES é, nada mais nada menos, que o upcycling de toda a vossa actividade diária como Mães.
Se eu fosse uma influencer a sério, isto agora ia dar a uma App que vocês iriam sacar, em que vos ensinava exercícios específicos com ou sem o vosso ou os vossos bebés, numa casa falsa, com activewear caríssima e a barriga à mostra; eu capitalizava uns €uros a sério, enquanto vocês partilhavam imagens dos antes e depois, todas agrupadas num hashtag, e viveríamos felizes para sempre.
Eu substancialmente mais ryca.
Pronto, não é o caso.
Só que este é um texto irónico acerca do facto de ser Agosto e de eu já ter visto quase todo o meu feed do insta em bikini por aí.
E o pessoal está em forma.
Porque está.

Quando me desembrulhei das roupas de Inverno, qual cebola pronta para o refogado, dei por mim surpreendentemente em forma. Mesmo após ter desistido das minhas (mui dolorosas) sessões de mesoterapia e drenagem linfática por uma conjugação de factores que não é pertinente aqui, em Julho dei por mim numa forma que não esperava. À excepção de uma espécie de bolsos naturais cheios de celulite como se tivesse estado a roubar no supermercado, incrível. Até oblíquos tenho.
E pus-me a pensar ao que é que devo esta forma, se aparentemente fui tão pouco disciplinada comigo própria.

Ora bem, devo esta forma ao facto de não ter feito batota nem um dia, ao facto de ter cumprido tudo à risca, ao facto de nunca ter feito gazeta, nem ter ficado na cama, nem de me ter queixado porque estava a chover, ou estava menstruada, ou estava com um trabalho importante em mãos. Devo esta minha surpreendente forma física ao facto de ter feito treinos funcionais, com aumento progressivo de pesos, de ter feito estes treinos numa base diária, de ter adaptado estes treinos ao meu ritmo, de não me ter esforçado nem a mais nem a menos. De nunca ter começado a treinar sem aquecimento feito. Devo isto também ao facto de ter combinado treinos de força com treinos de resistência, de ter aliado muitas vezes um treino ao outro, para obter o melhor dos resultados. E acima de tudo, devo esta excelente forma física aos meus dois PTs, que me motivaram todos os dias, que me apresentaram desafios constantes, que me propuseram treinos criativos e me reforçaram positivamente em cada momento. Sem a ajuda dos meus dois PTs, tenho a certeza que não estaria a encarar o Verão com este ânimo, com esta confiança, com esta moral, até. Treinei de igual forma ambos os braços e pernas e não fiz nada como manda a regra, a não ser levantar os pesos com os joelhos flectidos, e com os pés como mandam as regras da dança, em que o joelho nunca ultrapassa a ponta do pé e segue sempre alinhado sem escapar noutro sentido. Nunca me esqueci de alongar. Contei sempre com a ajuda dos meus PTs, cujos contactos não vos passarei porque cada um tem o seu, e PT é coisa que não se partilha.
Os meus PTs são os meus Filhos e o resultado está à vista: não só estou em forma, como estou sã. Fazemos tudo e mais alguma coisa juntos e em força, nada nos impede, nada nos detém, nada nos faz parar. Agora que já vi o Hotel Transilvania todo, posso dizer que sou muitas vezes sou como a Wanda do Wayne, sabem?

Uma das coisas que aprendi na vida é que não há nada como misturar tudo com muita convicção e ver no que dá.
Upcycling + crossfit + maternidade?
Dá mais uma forma de convívio entre o corpo e o meio.
Dá mais uma arma para nos defendermos de nós próprias.
Dá a única forma de olharmos para o rabo descaído, para a celulite que trago nos bolsos e para a minha pele flácida, para as estrias e as eventuais maminhas descaídas: certas de que está tudo bem.
É claro que me preocupo com o meu corpo porque tenho uma profissão de contingência pública. Dizer que não seria muito hipócrita da minha parte. Mas se é a minha maior preocupação, o corpo, não. De todo. Na lista das minhas preocupações a aparência estética do corpo acho que nem entra!… Com os devidos perdões, claro está.
Mas… O que seria!…?

LOL.

Como diria o poeta Juvenal, exactamente com a mesma intenção, e em latim, que fica melhor caso estejam a tirar ideias para a tatuagem do antebraço, pelo segundo ano consecutivo é “(…) mens sana in corpore sano (…)”.

Já agora, Joana, em que é que consiste o plano alimentar que acompanha o CROSSFIT DAS MÃES?, pode ouvir-se já no público na minha TEDtalk que vou dar para falar da tal app com vista à criação de mais uma app – LOLZ.
O plano alimentar é muito simples, e também tem como base a maximização da alimentação do seu bebé. A forma como as Mães se alimentam durante o primeiro ano de vida (e estimo que os seguintes) dos seus bebés é como um espelho, vai daí, o plano é o seguinte: privilegiem sempre a refeição ou as refeições dos vossos bebés, e esqueçam-se sempre de comer a horas certas. Façam o favor de nunca comer a vossa comida acabada de cozinhar, deixem tudo arrefecer e perder a graça toda mesmo que tenham cozinhado o vosso prato favorito ou que o tenham mandado vir de um sítio qualquer; sendo sushi, metam-no no frigorífico. Quando estiverem prestes a desfalecer ou se lembrarem que não comem desde anteontem, comam o que estiver à mão; em muitas dessas vezes irão alimentar-se sobretudo de restos dos pratos dos vossos bebés. Este plano tem como objectivo desaprender de comer o mais possível. Ao fim de um ano, ou mais, a seguir este plano alimentar, é provável que tenham perdido todo o amor à comida e ao acto de comer, que tenham feito mais jejuns do que aqueles que seriam de recomendar em toda uma vida, e que nunca cheguem a carecer de nenhuma espécie de detox. É provável que o vosso organismo já esteja todo tipo command C: e que tenham conseguido chegar à saciedade com doses do tamanho de uma colher de sobremesa. Em relação a tudo. Neste tipo de plano alimentar bebe-se sempre muita água e pelo menos dois cafés por dia, mas nunca nenhum desses cafés depois de almoço, porque dormir é muito bom e não vão querer nada entre o vocês e o vosso sono. Tudo isto serve de contrapeso para os eventuais excessos cometidos durante a gravidez e aleitamento e prepara-vos para acompanharem, na primeira pessoa, a introdução de elementos na dieta do vosso bebé, logo também na vossa. É um plano alimentar que vos reinicia o organismo. É muito xamânico, por acaso.

Ah! – E eu só não tenho a app… Mas tenho o livro!

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