Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

DÁ-ME O TELEMÓVEL!

Quem não se lembra do vídeo da aula de francês mais famosa do país, no Carolina Michaelis, no Porto, em que uma aluna chocalha violentamente a professora para lhe dar o telemóvel de volta, decorria o ano de 2008? Quem é que não leu a notícia de que o actor Diogo Infante terá interrompido um espectáculo de teatro (“Cyrano de Bergerac”, encenação de JoãoMota, no TNDMII, em Lisboa), no passado dia 26, por causa do telemóvel de uma espectadora? Quem é que não viu a fotografia da já falecida Peaches Geldof, que deixou cair o filho de quatro meses porque ia a falar ao telemóvel? Quem é que leu o artigo da De Zeen em que a Li Edelkoort diz que os telemóveis nas front rows dos desfiles de moda são um dos maiores falgelos da história da humanidade?

Mal sabíamos nós, quando foi obrigatório começar a usar kit mãos livres para falar ao telemóvel no carro, que os telemóveis não só vinham para ficar, como a sua utilização viria a tornar-se das coisas menos ortodoxas, legisláveis e polémicas de sempre! Mal sabíamos nós os monstros com os quais viríamos a ter de lidar, à cause dos telemóveis. Nem sequer se imaginavam estas reacções viscerais ao uso do aparelho que mais contribuíu para a histeria generalizada do “e se lhe aconteceu alguma coisa” à primeira vez que alguém não atende!

Muitos são os que odeiam os telemóveis. Há leis que regulam o uso de telemóveis em determinadas ocasiões (nomeadamente quando se conduz um veículo motorizado), leis essas que além de muito claras e cheias de sanções pesadas, são sempre aplicadas por agentes da autoridade intransigentes, portadores de uma classe de razão casta, de uma razão que implica uma folha de serviço pura, reflexo do exercício de uma cidadania sem mácula.

Aqui em Lisboa, estão sempre a decorrer sequências de aberturas e fechos de roços na via pública, vulgo “intervenções de melhoramento”, e agentes da autoridade a vigiar essas intervenções, não vá dar-se ali uma complicação qualquer no trânsito ou assim.

Ando muito a pé. Diria que cerca de 90% das minhas deslocações é feita a pé. E essas intervenções saltam-me muito à vista. Não só porque interferem com o trânsito, regulado em regime de excepção, pela sinalização luminosa e/ou agentes da autoridade, como interferem brutalmente com a circulação dos peões na cidade; basta perceber que em cada roçoaberto, lá se vai um passeio e uma passadeira, e com eles, a segurança do peão, que é o cidadão que paga os impostos que pagam o ordenado ao agente que está ali de serviço ao telemóvel, e que, se for atropelado por um veículo, ainda é culpado, porque estava a circular na faixa de rodagem.

Mas já lá vamos a esse cenário extremo.

É engraçado como a essas obras todas que nascem, quais cogumelos, pela cidade de Lisboa, se atribui um determinado número de agentes da autoridade, que servem para regular o trânsito e zelar pelo bem estar dos cidadãos (dos peões mencionados no parágrafo anterior, por exemplo). Acho eu. E também é muito engraçado que nunca tenha visto nenhum desses mesmos agentes a prestar atenção ao buraco, à caterpillar, aos carros, aos semáforos, aos peões e ao que está por ali à volta, porque estão sempre colados ao telemóvel.

Sou zero contra telemóveis (já o referi aqui em várias crónicas). Sou é um bocado contra esta cena dos agentes com telemóveis no local de trabalho, completamente alheados de toda e qualquer realidade que não esteja a suceder no écran que têm debaixo do nariz. Num dos meus antigos locais de trabalho, e pese embora o telemóvel fosse utilizado pelo patrãopara contactar os funcionários durante as horas de expediente, havia regras claras acerca do uso do mesmo, regras essas que vetavam o seu uso para fins recreativos durante as horas de expediente, sendo que também se fomentava uma noçãode responsabilidade individual, baseada numa coisa chamada bom senso, relativamente ao uso do telemóvel.

Sempre que passo por um agente ao telemóvel, pergunto-me se não haverá um conjunto de regras destinado a ele, para lhe aplicar. Porque não é um nem são dois: são todos. Nunca vi um agente no terreno a prestar verdadeira atenção àquilo que está a fazer, tulhido que se encontra pelo écran vibrante do telemóvel, que ao sol não dá para ver muito bem, mais um factor de distracção, lá está.

E já que vivemos no país das taxas e taxinhas, pergunto-me se não será de criar uma patrulha que patrulhe a patrulhinha e autue os agentes que passam o horário de trabalho de serviço ao telemóvel.

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