Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Dia da Mãe Trabalhadora – en retard

Se celebrar o Dia da Mãe é um cliché piroso, também é um cliché piroso dizer que se celebra o Dia da Mãe todos os dias, porque todos os dias são dias da Mãe. Exacto.

Este ano, muito curiosamente, o Dia da Mãe coincidiu (sobrepôs-se?) ao Dia do Trabalhador, e eu acho que deveria ter sido celebrado em conjunto, porque se há trabalhadores a sério no mundo, são as Mães.
Até ser Mãe, isto era só retórica, porque por muito que percepcionasse a genialidade da minha Mãe ou a subtileza da importância da minha Avó, não sabia nada. Zeras.

Fui Mãe já vai para um ano e meio, de uma miúda incrível, que nasceu pequenina mas de olhos muito esbugalhados, e soube nesse dia que a vida iria ser cada vez mais incrível. (cliché) Enquanto ainda estávamos no Hospital, no primeiro dia de vida dela, fui assim mais ou menos percebendo qual iria ser o nosso ritmo: enquanto ela dormia, o tempo seria óptimo para dormir e fazer coisas (que na maternidade e dadas as circunstâncias era tipo… olhar para Ela), e quando ela estava acordada, a cena era outra: nos primeiros dias até ao mês inteiro de vida, a contemplação fora do horário das visitas.
À medida que os bebés crescem, a contemplação é menor e dá lugar àquelas figuras incríveis que fazem de nós, Pais, pequenos atrasados mentais a falar em modo cutchi cutchi para desencadear e ver os sorrisos desdentados mais maravilhosos do mundo.

O Dia da Mãe no Dia do Trabalhador é, no mínimo, motivo para botar a boca no trombone.

Se as Mães que têm contratos e postos de trabalho mais ou menos estáveis, já sofrem com a curtíssima duração das licenças de maternidade e com as pressões laborais internas, imaginem as Mães que não têm contratos nem postos de trabalho estáveis!…

Sou uma dessas Mães freelancers do Recibo Verde e posso dizer que não é, de todo, fácil, ser Mãe e trabalhar em Portugal.

O primeiro dilema pós-maternidade back to life back to reality foi o da escola: sem inscrição feita antes de engravidar, o mais certo é, quando as hormonas estiverem menos agitadas e tiverem deixado de se emocionar a cada três minutos com a beleza dos pézinhos dos vossos filhos, sofrerem de vários ataques de pânico e ansiedade, quando perceberem que não há escola que os acolha, porque até aos três anos, não há vagas. Uma vaga numa escola tem a mesma relevância que um diamante de sangue a cinco euros tem para um ourives. Aceite o facto de que não haverá vagas em nenhuma escola num raio de 30km, começamos numa de procurar uma escola privada, porque temos de regressar ao trabalho porque há já uns meses que não entra dinheiro, e a cena começa a ficar complicada e ninguém quer sentir-se pobre com um bebé lindo nos braços. Ninguém. Muito menos queremos aceitar ajudas, porque fomos Pais e queremos SER Pais. De repente, estudado o panorama, visitadas mil escolas e sofrido o julgamento de valor de todas as educadoras de infância da cidade, o nosso paradigma muda e achamos que até seiscentos euros a coisa é fixe, ignorando que pagar seiscentos euros por uma escola para podermos ir trabalhar é, além de absurdo, sinónimo de um esforço económico brutal, porque há muitos meses em que os freelancers não fazem seiscentos euros… #truestory.

Depois de resolvido o “problema” da escola, o próximo problema para resolver é o dos horários.
É raro que as entidades empregadoras entendam que esmifrar uma Mãe das nove da manhã às sete da tarde é inglório. São poucas as entidades patronais que entendem que sair às sete da tarde é de uma violência atroz para uma Mãe. Porque em bom rigor, se a Mãe entrar às nove e sair às dezanove, vai ver o seu bebé a dormir e eventualmente aos berros com fome e com sono e com a pior onda, porque às sete da tarde é quando eles, Bebés, vão para a cama… E passou-se um dia inteiro sem o ver. Vezes cinco. Vezes no fim de semana não há segundos que cheguem para amarmos o nosso Bebé. Já para não falar dos níveis de cansaço lá no encarnado, sempre.
Tentar explicar a algum patrão que o mais importante e saudável para todos é poder ir buscar o Bebé às quatro da tarde para termos tempo de brincar e de ir ao jardim, de ir ler livros, dar pão aos patos ou o que nos apetecer fazer com o Bebé, é, muitas vezes, uma tarefa inglória e que raramente tem sucesso.
E a trama adensa: é preciso fazer cumprir todas as horas para receber o dinheiro que nos permite pagar a escola. Perpetua-se assim um esquema demoníaco que inculca na Mãe uma certa culpa naquela coisa de “estou a falhar em algum sítio” que é altamente nociva. MESMO. Porque o coração da Mãe é forte, mas é muito muito muito delicado.

Se a Mãe e o Pai não tiverem a sorte de ter uns Avós algures por aí ao lado, estão lixados com f, e não têm outro remédio senão abraçar um esquema em que é necessário gerir um sem fim de horários e disponibilidades. As Mães tornam-se autênticas produtoras executivas do núcelo familiar. É com este tipo de ginástica que se perde o peso, não pensem que é com os abdominais hipopressivos da Carolina Patrocínio. Aliás, de “pressivo” a única coisa que uma Mãe pode ficar é “de”, porque com a conjuntura supracitada, o mais certo (e não me chamo eu Maya) é que não vá ter tempo para ginásios…

No meu caso, e para que fique claro, sou Mãe primeiro. Nem quero ser outra coisa. Primeiro sou Mãe, depois vem o resto.
Como sou aquilo a que a internet chama “morning person”, tenho a cena orientada da seguinte forma: acordo pelas seis e meia, faço café e tomo o meu primeiro pequeno-almoço, já arranjada e pronta para a vida. Por volta das sete e um quarto da manhã (na lógica da Mãe trabalhadora, todos os minutos contam!) tenho tudo pronto, que é como quem diz a lancheira da miúda com todas as refeições do dia, e posso sentar-me ao computador a responder a mails e a trabalhar. Quando a jovem acorda, administra-se o leite e muda-se a fralda. É habitual que ela durma mais uns três quartos de hora, por isso posso continuar a trabalhar mais esse tempinho. Lavar a cara e os dentes e pôr creme e vestir demora um quarto de hora e é feito em grande loucura e conversa e fugas e carambolas. E é inacreditável, porque é lindo, especialmente quando lhe quero abotoar o body e ela quer é estar de pé, por isso vestir é um abracinho de um quarto de hora. (corações!) Quando saímos de casa em direcção à escola e eu já levo três horas de produção adiantadas. Por volta das dez da manhã, quando regresso a casa, arrumo o que ficou espalhado, normalmente uma tonelada e meia de peças de lego, livros e tupperwares, e vou para a cozinha tratar de mais refeições. Tudo sempre dividido em tupperwares devidamente identificadas, que contém uma cacofonia de carninhas e peixinhos e sopinhas, tudo variado, tudo fresco e acima de tudo, tudo pronto para qualquer emergência. Por volta das onze e meia, meio dia, quando o telemóvel começa a apitar porque as pessoas começaram a responder aos mails, regresso ao computador e ali fico pegada, de seguida, até às quatro da tarde, quando me lembro que me esqueci de almoçar, e saio para ir buscar a pequena à escola. Até à hora do banho ficamos no parque a brincar no escorrega, a apanhar pedras do chão, a deixar o ranho correr pela pontezinha até ao lábio e a sujar muitíssimo a roupa e as mãos. Sem bater nas tabelas, quando chegamos a casa a cena é mecânica e assenta num modelo de eficácia comprovada tremendo: num deslizar veloz vou até à casa de banho, abro a torneira da água quente e enquanto a água aquece, as tupperwares com as quantidades certas do jantar seguem para a plataforma de aquecimento; mergulho directo na banheira, bonecada com fartura, esfregar bem para desencardir e enquanto isso, o jantar vai arrefecendo. Sair do banho é um chorinho, tchumps – chucha –  secar, creme, fralda, pijama, pentear, sentar na cadeira, administrar o jantar, lavar os dentes e cama. Às sete e meia – oito da noite nos dias mais loucos – o Bebé dorme e a Mãe do Bebé trata do jantar dos adultos para regressar ao computador caso se verifique essencial fazê-lo. O escritório nocturno da Mãe é no sofá com o computador em cima de um tabuleirinho.

Só assim é que consigo ser Mãe e trabalhar, com produtividade garantida, entre sete a nove horas por dia. Em horários alternativos, porém muito eficazes.
O Pai trabalha muitas mais horas que a Mãe e está lá, naturalmente, para garantir que a Mãe continua a bater bem da cabeça. O Pai também não tem uma vida simples, não pensem as Mães, que tendem a desvalorizar a importância vital do papel do Pai, absortas que estão na sua ânsia de cumprir com sucesso.

Hoje sei que a Mãe trabalhadora é uma figura muito subvalorizada, porque à figura da Mãe trabalhadora se atribui uma série de clichés pirosos que em muito pouco correspondem à verdade. São um conjunto de ideias fémina que fazem da Mãe trabalhadora uma criatura não produtiva, feia, desgastada, agastada, desleixada, desgrenhada, cheia de nódoas, sempre de rasos, que não consegue cumprir e que não respeita prazos.
Penso quase sempre que as Mães que se encaixam nesse perfil são vítimas de um sistema que não lhes permite serem Mães respeitando os horários dos seus Filhos e os seus próprios horários, muito menos sendo autónomas no controlo da sua produtividade. Nenuma Mãe é pouco produtiva; basta ser Mãe para já ser produtiva. Mas isto é demasiado abstracto, porque ser Mãe não é uma actividade de nenhum sector, e a ser, será do terciário… #sotrue

Cada vez mais se caminha para um modelo laboral que não tem um espaço físico definido e estanque, muito menos horários, e cada vez mais se tem comprovado que esse modelo, assente num arquétipo que permite à Mãe trabalhar e cuidar dos seus filhos, quando aplicado, é vencedor em todos os aspectos, quer para a Criança, quer para a Mãe.

Porque ser Mãe dá muito trabalho, especialmente à cabeça, quando tudo à nossa volta não está pensado para crianças.
Não é o alargamento das licenças de maternidade que vai fazer com que a taxa de natalidade cresça, é o alargamento das mentalidades das entidades patronais, é a perceção real da importância da experiência de uma maternidade saudável e plena de contacto com os filhos que o irá fazer.

Se me sinto feia, gorda, com olheiras, flácida, absurda, descompensada, chorosa, com buço e as unhas numa miséria? Sim, tenho dias em que nem uma camada espessa de batom encarnado serve para animar o rosto. Só que também sei que estou a lutar activamente contra este modelo de trabalho hipercapitalista que afasta a maternidade e quando a permite, afasta as Mães dos Filhos e que tenta encontrar, nos dispositivos que as substituem, formas de suprimir o estreitamento de laços e a criação de memórias, identidade e experiência empírica em prole de uma ideia de eficácia assente num horário.
Sei que todos os dias luto activamente contra isto, contra esta tirania do sucesso assente em modelos ridículos que datam de um tempo em que o dinheiro parecia fazer com que tudo isto valesse a pena.

Esta é a minha luta do Dia da Mãe Trabalhadora, dia que passei com a minha Família no jardim, em casa e à mesa de um almoço improvisado e de um jantar cem por cento biológico de produção hortícola e pecuária, familiar cuja recompensa são as memórias doces e os bocadinhos de pão molhado com baba que trago agarrados às calças.

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1 Comentário sobre “Dia da Mãe Trabalhadora – en retard”
  • Que texto tão bem escrito. Eu ainda não sou mãe mas antecipo limitações desde logo na reduzida licença de maternidade, no desrespeito pela figura materna que se vive no mundo empresarial, muito criado por muitas falsas super mães, aquelas que acham que gravidez não é doença, e não é, e que não se importam de pagar uma creche das 8h as 20h só para não parar de lamber as botas à chefia… e em ultima instancia, quem perde somos todos os nós e os que estão para vir, porque crianças mal acompanhadas na primeira infância, não raras vezes dão adultos desequilibrados… mas isso já não importa que é daqui a muitos anos

    Se há frase que admirei particularmente foi esta “é o alargamento das mentalidades das entidades patronais”

    muitos parabéns e que seja sempre uma mãe feliz

    us4all.blogs.sapo.pt

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