Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Ditaduras Invisíveis parte &#8734

Concordamos no ponto primeiro deste post que é: “Todos odiamos Ditaduras”, verdade?
Então, se sim, porque raio é que havemos de deixar-nos governar pela Ditadura que é a Moda na nossa vivência quotidiana da experiência mimética que é o Real?

Decidi, porque sim, que faria limpezas de Verão.
Aquilo a que hoje se chama tratar do feng shui e que na minha terra sempre foram as caianças e as lavagens de paredes com lixívia, as lavagens massivas de peças em lã e fazenda, das colchas, das mantas… A limpeza das teias de aranha e dos ninhos de ratos, andorinhas e vespas. Os enxertos de cânfora e saquinhos de linho com alfazema lá dentro, ou grãos de pimenta nas arcas e partes mais inacessíveis dos roupeiros.
Embora nada disso exista na minha casa, fiz limpezas de Verão.
Duraram o mesmo que um casamento cigano: três dias.
E atentemos na simbologia do número três, por favor!

Merdas à parte, ontem e hoje tive de interromper o processo e ir à rua.
Ontem, a meio das limpezas, porque precisava de comprar algumas coisas para organizar o que não tinha organização possível, e hoje por ocasião do aniversário da minha Mãe, mas já com tudo no sítio.

Ontem almocei e fui ao Ikea de Alfragide, muito rapidamente, para conseguir maximizar o pouco espaço que tenho nas poucas gavetas que possuo.
Saí de casa com o vestido que tinha, troquei os pés descalços por uns Vans (ainda sem buracos) e apanhei um par de óculos de sol.
O Ikea é, de facto, um local pleno de emoções.
E se a minha entrada naquilo a que costumo chamar Little Sweden se fez ainda no meu mundo, rapidamente a coisa mudou de figura: ao subir das escadas, um casal de meia-idade entupia as escadas junto ao corrimão e eu passei-lhes à frente. Ele olha e diz para o rabo da Mulher, que ia à frente nesta procissão de dois: “- Vês?! se não fosses gorda“.
Ignorei.
Mas com tristeza.
Depois de entrar, no piso da exposição, várias mulheres de várias idades, todas ao telemóvel, todas “irritadíssimas” com alguma coisa, porque o ofício de Decoradora-Amadora não é tarefa fácil e finalmente, na caixa, um casal muito jovem a comprar uns colchões de enrolar. E ainda bem. Muito apaixonados, quase desenrolavam o colchão ali mesmo.
Paguei e entrei no elevador.
Fui a última a entrar, encaixei-me no espacinho que havia (obrigada, exercícios de “Corpo” da ESTC) e apercebi-me que havia duas senhoras a olhar para mim e a comentar muito alto cada uma das coisas que tinha vestida.
Há duas situações em que as pessoas fazem isto sem qualquer tipo de pejo: quando há alguém de headphones e quando acham que alguém é estrangeiro. Ora, se eu não estava de headphones e não sou estrangeira, porque raio falavam tão alto? Estava de óculos de sol. Esqueci-me de os tirar. Mas também… Se o Pedro Abrunhosa pode, porque é que eu não posso?! Os comentários foram todos bons. Todos tiveram a ver com a minha roupa, com os meus óculos e com o meu aspecto. Todos muito pouco elogiosos, muito pouco elaborados, nada interessantes, refutáveis, mas nunca naquele contexto. Muito menos com as pessoas em questão.
A minha educação não me permite responder-lhes e a minha vontade não é, certamente, a de as tentar educar.
Com aquelas idades, qualquer tentativa seria um desperdício de tempo e de energia.
Saí do elevador primeiro que toda a gente – é a regra de quem, nestas coisas do Tetris humano, entra em último e com maior mobilidade – e fui para o meu carro. Ainda ouvi um “- Será que ela ouviu?” – e fiquei a pensar no que iria na cabeça daquela gente, que fala naquele volume e ainda acha que os outros não ouvem… Para dentro respondi: “CLARO QUE OUVI, PUTA. OU ACHAS QUE POR ESTAR DE ÓCULOS DE SOL NÃO OIÇO?”

***

Hoje celebra-se o aniversário da minha Mãe.
E nós somos um clã tramado.

Nas limpezas encontrei roupa que não sabia onde andava.
Essas descobertas deram aso a algumas mensagens entre mim e a minha Mãe, com fotografias de pérolas que passam de geração em geração há pelo menos três gerações. Peças que chegam a ter 50 anos de idade.
E é claro que, encontradas estas peças, o que me dá vontade é de matar saudades!
Por isso saí hoje à rua com duas coisas que não via nem usava há anos: um top linho branco, bordado, que é na verdade uma roupa interior do séc. XIX que o meu Pai biológico comprou num antiquário em Beja há uns 23 anos (eu tinha 5…) e umas calças de cintura subida em seda selvagem às riscas verticais pretas, lilazes, roxas e cinzentas que a minha Tia mandou fazer para as suas noites quentes do Oriente outrora português.
Pensei que as calças já não me servissem, mas era tudo mentira. Servem. E são maravilhosas.
E lá saí eu, de casa, em crop top e calças subidas de print geométrico (tudo coisas tão em voga na estação que ainda insiste em decorrer (eu às calças de riscas brancas e pretas costumo chamar “Modelo Obélix“), mas que usei sempre…), cabelo penteado, óculos de sol e uns Nike Roscherun.
Não houve uma única alma que não se contorcesse e virasse para olhar.
“- Será assim tão escabroso o meu conjunto?” – pensei mil vezes.
Quando me reuní com Mãe e Tia e Pai e Tio e Avó, a Mãe soltou a gargalhada do top e a Tia a das calças. Peças conhecidas!… O Tio disse: “- UAU!” e o Pai disse “- Só tu. Mas ’tás bonita.”
As pessoas continuaram a virar-se para trás (vai haver muito osteopata com excesso de trabalho esta semana, de certeza…) até que cheguei a casa.

Ditaduras invisíveis?
Sim.
No que toca ao Estilo, SIM, SEM DÚVIDA.
É a forma mais fácil de julgar alguém – através do que veste.
Sei disso melhor que ninguém apesar de não ter tirado nenhum curso.
E é por isso que odeio todos os blogues de Moda, a Moda, os programas sobre Moda, Consultores de Imagem e gente desse calibre.
Porque a Moda é tirana e ditatorial.
Já o Estilo, não.
O Estilo é pessoal e intransmissível.
É o que define um indivíduo.
É a sua forma de ser e de estar em sociedade.
É, em último reduto, a sua identidade.
Tão simplesmente porque para os que podem escolher, a escolha do que se veste é a mais pessoal de todas as escolhas. Mas nem sempre a mais consciente.
Por exemplo, a necessidade de adquirir uma peça de roupa com um objectivo profissional, amoroso ou social, é uma das maiores que o ser humano actual possui. Porque a compensação de défices através de bens materiais é a maior consolação que existe disponível quando são dez da noite e nos sentimos uma merda e sabemos que o Colombo ainda está aberto. O nosso eu miserável é substituído pelo eu vencedor.

Por isso é que não entendo o porquê do julgamento do Estilo.
Mas devo ser só eu a diferenciar Estilo e Moda.
É provável.
Mas c’mon… Aqui a Joaninha casca que é uma maravilha no “Estilo” dos outros.
Se fosse “Estilo”…
O meu é um cascanço estético.
Não é um cascanço conceptual.
Eu sei lá o que é que uma Jeffrey Campbell poderia fazer por mim se eu a deixasse prender-se ao meu pé!?!… Não sei! É que não sei mesmo!… Mas será que desejo deixar que a Jeffrey Campbell passe a fazer parte do meu Estilo? Será que o meu Estilo aceita uma Jeffrey Campbell? Será que me pode satisfazer e levar onde quero?! Eu acho que não… E não estou disposta a tentar…

Mas sim, a Ditadura é uma nojice.
E se há Moda, também o é.
Quem segue a Moda, coopera com o sistema.
Quem tem um Estilo, não.

E era só isto.
Os meus óculos de sol servem para chorar sem ninguém ver, mas também servem para irritar Senhoras no elevador do Ikea de Alfragide? – BOA!  As minhas calças fazem cabeças girar a 360 graus? – BOA!

A minha roupa é o meu horóscopo: é o que sou e como me sinto.
É o meu mapa astral, é o meu signo e simultaneamente o ascendente.
É a minha defesa – ou ataque – social.
É inconsciente-consciente porque nunca foi cerceada.
É tão livre como a minha liberdade porque se expande e contrai de acordo com as necessidades ou ocasiões.
A minha liberdade diz-me que a Moda é apenas um agente de pressão.
Eu digo que a Moda é a maior calamidade deste novo século.


Os óculos da discórdia de ontem, Victoria Beckham na André Ópticas do Chiado e um
crotch shot de hoje, com nada que se possa comprar.

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4 Discussions on
“Ditaduras Invisíveis parte &#8734”
  • Gostei imenso do texto. As calças são estupendas! Só me surpreende que nesta época de “moda circo” em que a crowd fashionista (salvo seja) tanto se descabela para chamar a atenção de fora pouco estética, a toilette desse assim tanto nas vistas.

  • Joana, quando começa a descrever as peças, já estou a rir a imagina-las, pelo menos as calças. Verificar no fim do post as ditas: Perfeito!
    E adorei esta fascinante sinceridade da sua relação com a roupa, parabéns!

    Abraço.

  • I wish… Ser assim tão única! Há uns dias desencantei um fato de banho de uma gaveta materna e surpresa das surpresas era diferente de tudo e assentou tão bem que recebi elogios… Adoro as suas calças!

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