Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Diva Divina

Não estava uma tarde de sol.
Estava uma ventania desgraçada num daqueles dias de céu branco, que são húmidos e em que o frio se entranha nos ossos.
O vento gelado entrava-me pelo casaco e por todas as camadas de roupa que trazia vestidas. Não levava gorro nem luvas. Tinha a cabeça gelada, como quando dói o couro cabeludo, sabem? E a camada espessa de batom do cieiro que tinha posto parecia ter secado ao fim de três minutos de rua. Mas como adoro andar a pé, decidi que nessa tarde iria tratar de tudo o que tinha para tratar, a pé.
A caminho do último recado nos últimos raios de sol, de repente o dia parecia ter ficado cristalino.
Ali entre o quiosque do lado de cá da estrada onde há dois cafés seguidos – um sempre cheio e o outro sempre vazio – e um chinês, e o edifício da PT em Picoas, na esquina do BIC, de frente para o América Diamond’s, o sinal estava verde para os peões e o mundo tinha parado.
Eu ainda estava do lado do BIC, ali mais ou menos à altura do quiosque. E eu também tinha parado. A ver o que é que se passava.
Àquela hora de ponta, de gente apressada e desejosa de chegar a casa, de gente a buzinar e a correr e a gritar por dentro, nunca me pareceu que houvesse espaço para a contemplação, pelo que achei estranho que tudo estivesse em câmara lenta, de repente.
Pescoços viravam-se.
Carros paravam.
Motas curvavam dengosas.
Bicicletas tocavam aquelas campainhas que soam a outro tempo qualquer.
Havia um silêncio.
Levantei a cabeça e vi.
Uma Mulher caminhava como quem vem a atravessar do lado do América Diamond’s para o BIC.
Uma passada segura e forte. Correctíssima. O calcanhar, que neste caso era um salto vertiginoso e fino de um stiletto, assentava primeiro; a ponta do pé depois. Um pé à frente do outro, duas pernas não muito longas que cruzavam passadeira adentro. Um fato preto de calças e casaco. As calças ajustadas, de corte clássico, deixavam perceber o torneado de umas pernas campeãs dos 1200m salto alto. Coxas fortes e cheias, que deixavam adivinhar um rabo redondo e arrebitado. O blazer de um só botão estava apertado. Por baixo, uma camisa braca mole, clinicamente aberta até ao vale sombrio do peito hirto e bamboleante, envolto naquela passada firme e graciosa. Firme e feminina. Firme e sedutora. Os cabelos longos e fartos, castanhos com ligeiras nuances mais claras, caíam em cascata de escadeados como se fossem anzóis ombros abaixo. Também eles se moviam na dança da passada que estava a parar Picoas. Um casacão de Inverno, também ele preto, desprendia-se apenas assente nos ombros, qual capa de super-heroína, que mesmo com aquela ventania que me estava a dar cabo do cieiro, não saía do lugar. Eventualmente ondulava ao vento. Uma pasta e uma mala. Uns óculos de sol indistintos. E o atravessar de rua mais cinematográfico que alguma vez vi.
Já o sinal tinha ficado vermelho para os peões e esta mulher ainda desfilava, impassível, sem recear um arranque mais brusco levado pela vontade de ir para casa. Ela sabia que à sua passagem, ninguém quereria precipitar-se até casa. C2asa” podia esperar.
Eu continuava do lado de cá da rua, num estado que oscilava entre o enfeitiçada e o contemplativa: não só jamais conseguiria assumir tal passada nuns saltos altos, como nunca tive o cabelo comprido nem tão bamboleante, como também não possuo um tailleur, como se usasse o casaco de Inverno assim, o mais certo era ele cair no chão e eu tropeçar e estatelar-me ao tentar apanhá-lo, como nunca, em tempo algum, irei ter umas montanhitas que me façam um vale húmido e sombrio no peito. Ao contrário de tudo aquilo, ali estava eu, do lado do BIC com os meus Nike, à espera do próximo verde.
Foi impressionante contemplar esta cena. Foi impressionante como ao longo dos metros que percorreu do America Diamond’s ao BIC, a sua passada se tinha tornado cada vez mais forte e confiante, ao saber que toda a gente estava a olhar para Ela, que não andava, desfilava! Que pairava, enquanto o resto da humanidade se arrastava no que parecia ser exactamente o mesmo percurso.
A uns cinco metros de mim, o aproximar da sua presença era impressionante: não muito alta de origem, mas enorme com os saltos compensados, género Tributes Two da YSL, ali estava a Mulher que tinha feito o sol brilhar para toda aquela plateia naquele momento. Também eu olhava para a totalidade dela, especialmente para os sapatos, quando a vi desaparecer do meu horizonte.
Cabeça pr’um lado, corpinho pr’uoutro e uma palhaça tão enorme como a da Madonna nos Brit Awards.
O mundo continuava parado.
Eu no meu limbo.
Avancei, estiquei-lhe a mão enregelada e perguntei:
– Está bem?
– Fisicamente sim.
Ela não quis levantar-se nem agarrar a minha mão.
Eu olhei para os meus Nike, sorri, e segui.

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