Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

+ DO MESMO

Acordámos com a notícia bombástica, no mundo da Fashion, que o anúncio feito pelo Speke Jonze para a japonesa KENZO era a coisa mais essencial a ver nesta semana e nos próximos meses até aparecer outro foco de excitação interwebiana.
E eu fui ver.
E vocês também podem, se ainda não viram:

O Spike Jonze é um ídolo da cena indie e de tantas outras cenas alternativas em geral, e é extremamente maravilhoso que o Spike Jonze faça anúncios, porque é mais do que sabido que as pessoas indie não entram na esterqueira do comercial, porque isso seria apenas… Comercial. BLHAC. Com todo o respeito pelo Spike Jonze, que é pobre convicto e não quer saber de dinheiro para nada, como tantas outras superestrelas indie.

Posto isto, e olhando para o anúncio, não entendo a loucura generalizada em torno do mesmo, porque me parece… Mais do mesmo… Adaptado a um perfume da Kenzo, ok. Mas é mais do mesmo.
É um plano que começa numa festa de alta sociedade carregadinha de velhos e velhas vestidos de cores e formas aborrecidas, numa festa daquelas mesmo super divertidas (porque as pessoas da alta sociedade são todas um aborrecimento pegado, basta ver as “Mulheres Ricas”), em que uma figura feminina adolescente, enfaixada (porque no peito se cruzam duas faixas que assentam terrivelmente e que ajudam ao “já se sabe que ela vai ter de se mexer”) num vestido verde esmeralda (uma daquelas cores que grita high standards por todo o lado) começa a deixar de ouvir o discurso assim tunnelling qualquer coisa muito sua do interior e é levada a abandonar a sala para ser livre fora dali, nos corredores vazios e sumptuosos de um edifício sumptuoso onde têm lugar os mais sumptuosos certames. Logo aborrecidos.
Assim que se abre a porta e se vê a menina sair para o corredor vazio, o pé com o sapato de carácter e o vestido assimétrico confirmam a minha desconfiança: a menina vai começar uma coreografia frenética corredores fora, que traduzirá, através de uma sucessão de movimentos em que o corpo parece ser indomável e animalesco a dar para o tigresa (que é uma coisa muito iconografia Kenzo), impossível de controlar, e incluirá coisas que são movimentos que encerram atitudes disruptivas e desafiadoras de uma ordem qualquer como lamber um busto de bronze empinado numa coluna de pedra (ah – esse assalto aos valores da antiguidade) e deitar lasers das mãos e destruir um jarrão que se quereria ming. WOW. Ganda cena. Depois a menina não controla o movimento num braço, depois a menina não controla o movimento numa perna, depois a menina entra num palco e dança uma dança que é um movimento a dar pró ballet com um follow spot e depois a menina mergulha e entra pela menina de um olho feito de qualquer coisa que me parece papel ou flores e que remete de forma clara para a iconografia da marca. E depois é o perfume.

Pronto.

O Spike Jonze tem de facto uma grande atracção por gente virtuosa, senão vejamos o vídeo da “Weapon of Choice”, de Fatboy Slim, em que um maravilhoso Christopher Walken dança imenso, ou o vídeo em que de “Elektrobank”, de Chemical Brothers, em que a Sofia Coppola é uma ginasta.

Este posicionamento de marca na menina de alta sociedade que deseja ser livre, mas que continua sujeita a um espartilho social, procura cada vez mais acentuar diferenças em vez de ajudar a esbatê-las, em vez de afirmar o carácter transversal do produto, e isso perturba-me imenso, especialmente quando se trata de um produto de fácil acesso e consumo massificado e que tem como objectivo primordial oferecer ao consumidor um conjunto de ideias (que depois são sensações de poder e mais mil coisas) qualquer, como é o caso de um perfume.
Nem tanto à poesia do quotidiano, nem tanto às Marie Antoinettes.

O anúncio do Spike Jonze para a Kenzo é profundamente aborrecido, tem erros de raccord (no backflip a menina deixa de estar de salto alto) passíveis de serem vistos a olho nu numa única visualização, e é um exercício de repetição coreográfica e conceptual.

Dá ideia de que:
a). a Kenzo não tinha orçamento para uma ideia nova
b). o Spike Jonze não estava com pachorra para os japonas
c). a Kenzo queria mesmo mesmo era um vídeo igualzinho ao do FatBoy Slim, mas com uma coreografia como a da SIA

Podemos voltar às nossas vidas, porque afinal não havia razão para tanto alarido.
A actuação da Beyoncé nos VMAS continua a ser o acontecimento da semana, o Christopher Walken continua a ser o preferido e a campanha da Lanvin com a Karen Elson e a Raquel Zimmerman a dançar Pitbull também superam… Desculpa, Spike…

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