Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

DUAS PORTAS DA MINHA JANELA

Quatro dias no Porto divididos entre um sol abrasador, uma manhã chuvosa e meio fria, duas noites geladas e uma que dava para andar de T-shirt. Quatro dias em que pude experimentar todos os moods do Duas Portas. Pelo menos lumínicos.
Quatro dias no Porto cheios de coisas para fazer, com uma estada num sítio incrível e muito poucas horas para me esparramar na cama de enormíssimas proporções que se fazia plantar ao centro do quarto. E eu que bem preciso de me esparramar!…

Fiquei estes quatro dias num local chamado Duas Portas Townhouse, um hotel de pequenas dimensões, na Foz, na linha da frente do Douro, mais concretamente na Rua das Sobreiras.
Como cresci dentro de unidades hoteleiras de pequenas dimensões, aprecio muito hotéis. E restaurantes. Já fiz um NHOM NHOM, quiçá abra aqui uma rubrica de LÁIF COM STÁILE.
QUIÇÁ.

Duas Portas porque tem mesmo duas portas, ambas quadriláteras, uma mais pró quadrada e outra mais pró rectangular.
Do lado de fora, não se adivinha nada.
Lá dentro é outra conversa.
Tudo verde.
“(…) Verde é tudo quanto é belo (…)”, já cantou a Natália de Andrade.
Já tive o cabelo verde num momento de 2012 / 2013 em que para A Tempestade a minha ideia para a Miranda era seapunk. Esse cabelo verde deu origem a alguns dos episódios mais absurdos da minha vida. Em belo e horrível, em medidas iguais.
Por isso ao entrar pela porta mais rectangular do Duas Portas, o verde esmeralda do mosaico hidráulico do chão fez-me sonhar. Depois os detalhes vão todos beber a esse verde e é incrível. O chão de madeira é verde, as escadas são verdes. O chão de madeira pintado de verde faz-me lembrar uns presentes do dia da Mãe que fiz ainda no infantário, que eram uns porta-chaves em madeira pintada com umas tintas que vinham numas latas minúsculas e que agora não me consigo recordar do nome, e o Google também não está a ajudar.
Podem subir-se as escadas ou apanhar um elevador.
À minha espera, no quatro, em cima de uma secretária discreta e do tamanho de que uma pessoa precisa hoje em dia, uma nota de boas-vindas e dois malmequeres de chocolate da Arcádia, numa micro caixinha, que motivou o meu primeiro unboxing de sempre das stories no Instagram.
Os chocolates foram devorados com todo o carinho.
A cama ocupa quase todo o quarto.
A cama é o centro do quarto.
É o sistema nervoso central do meu quarto com duas janelas para o Douro.
Na rua passam carros e o eléctrico, mas não há barulho. Só está ali o Douro a correr vigoroso, uns dias mais azul, outros mais verde, e acho que o eléctrico se esqueceu de passar enquanto lá estive.
O chão do quarto é do tal verde esmeralda profundo, envernizado, quase espelhado. É um chão muito escuro, muito distinto. O verde é isso, distinto. Na casa de banho, os tais mosaicos hidráulicos verdes e brancos não nucleares. As madeiras da mobília são claras, com um tratamento não-brilhante. Contrastam com o brilho do chão, como se estivessem a gozar com a cara de quem até pensa em pintar os móveis, mas nunca o chão. Uma anástrofe quase imperceptível na decoração. À madeira junta-se um nada de branco, mas é mesmo um nada. às vezes, amarelo torrado. Mas só às vezes.
As ferragens são douradas.
E se já estava morta de amor por tudo, as ferragens douradas foram a estocada final.
Uns tubos dourados, muito elegantes, organizam-se numa das paredes para fazer as vezes daqueles roupeiros que não fazem sentido nenhum nos hotéis.
Ah, mas isto não é um hotel.
A casa de banho é óptima e igualmente funcional, sendo que o ponto alto são o espelhinho de aumentar e as torneiras fáceis de utilizar. Quantas vezes não se queimaram com a água demasiado quente, por causa de uma sintética que não funciona…? Quantas? E já agora, quantas vezes já se deixaram sugar pelo espelhinho de aumentar olhando apenas e só para pêlos, imperfeições, borbulhas, pontos negros, rugas, coisas nos dentes…? Quantas? O espelhinho de aumentar pode ser um vórtex perigoso que detém o tempo. Só que no Duas Portas, quando se entra pela mais rectangular, o tempo detém-se mesmo.

O pequeno-almoço é lento e calmo.
O jardim só tem um banco encarnado a rasgar aquele sossego todo.
A vista é lenta.

Todos os espaços são harmoniosos e todos convidam a que uma pessoa se sente e se perca.
A internet funciona lindamente – só é preciso pedir a pass uma vez!
A identidade gráfica é uma apropriação da morfologia da fachada.

E dorme-se bem.
Quer dizer, eu durmo sempre bem. Mas esta cama ajuda muito a optimizar o sono. Em bom rigor ajuda tudo. O conjunto cama e almofadas bojudas é incrível. É assim para um descanso magnífico. Só que pronto, eu como seu uma pessoa que deseja sempre maximizar todos os segundos, consegui marcar mil coisas para quatro dias, e dei por mim a deprimir um pouco por não poder ficar esparramada na cama de dois corpos e dois meios, com a cabeça enterrada nas almofadas bojudas e grandes como alcofas de bebé.
E eu que bem preciso de me esparramar!…

Como não gosto particularmente do excesso de serviço, excesso de decoração, excesso de amenities e excesso de conceito, como é habitual quando se procuram hotéis, o Duas Portas é genial: é acolhedor, confortável, simples, limpo, eficaz. Tem tudo o que faz falta, tem aquela cama, os turcos são mesmo fofinhos, os lençóis são mesmo macios e brancos. Tem televisão, que não cheguei a acender, e os vanities são Castebel, por isso não é preciso levar de casa.

Agora a sério, estou a sentir-me super Digital Influenza.

Gostaria muito que, quando passassem pela galeria de imagens, atentassem em todos os clichés de quem esteve sozinha num hotel de que gostou mesmo: a selfie da casa de banho, a fotografia dos pés, as fotografias da roupa pendurada ou abandonada, estilo natureza morta – que também puxam muito para a Fashion Blogger escandinava ou indie de Portland, Oregon – para uma coisa assim também super Marc Augé, super não-lugares, e a fotografia insólita do extintor a segurar a porta, a única prova de uma acção humana, incontrolável, utilitária dos objectos no espaço.

 

 

 

5

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.