Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

É MUITO EXCLUSIVO SER FELIZ | #trashediastoliyourlook

No nono andar do Epic Sana Lisboa Hotel, ali mesmo ao lado das Amoreiras existe um bar que cheira a cloro.
Entro pela piscina ultra frequentada que está voltada para a vista que dali se tem para o rio e desço até ao bar.
Não se fala português.
Está muito calor.
O ambiente é calmo e silencioso e de descanso.
Os corpos muito brancos dos turistas estão mergulhados na piscina até às suas cinturas. Cotovelos assentes na borda que dá para a vista sobre o rio, óculos de sol e headphones. Telemóveis assentes no mármore quente e branco que reflecte por todo o lado e nos impede de abrir os olhos sem óculos de sol. Corpos muito próximos, apenas separados por escassos centímetros entre os cotovelos que os sustentam na borda da piscina e lhes deixam as cabeças e os ombros ao sol. 
Ninguém está vestido.
De repente sinto-me bizarra por ter o corpo vagamente coberto por um top de riscas vintage da marinha francesa e uma saia mexicana, também ela vintage.
Não estou de férias.
Não sou estrangeira.

No final da entrevista de hoje, os figurantes deste prólogo exibem escaldões.

Nós viemos partir a loiça toda: Beeeeeem! Isto é o máximo! Que chique – e olha que eu viajo muito! Mas eu só frequento espeluncas, não é?! UAAAAAAU! Devia ter trazido um bikini!!! Ninguém ia dar por nada! Nem imaginas, em Sintra estava a chover – o pior tempo – aqui está este calor todo!… Ai que vontade de ir para dentro de água!… Oh pá, ADORO este sítio! Isto é o máximo!
Entrou a Nazaré a dizer isto tudo enquanto descia as escadas.
Nesse instante todos os pescoços se partiram, como na música do Agir, cliente seu.
A Nazaré é pequena e compacta, fibrosa e cheia de genica. Tudo o que é a sua superfície está tatuado e por muitas tatuagens que os turistas do prólogo exibam nos gémeos ou antebraços rechonchudos, enquanto passeiam os seus corpos pela zona dos banhos, nenhum tem tantas tatuagens, tão bem feitas ou tão divertidas como as da Nazaré.

Chama-se Nazaré por causa da Avó, que se chamava assim.
Odiava o nome quando era pequena, mas aprendeu a adorá-lo quando percebeu que ninguém se chamava Nazaré.
É exclusiva.
Nasceu em Campo de Ourique de uma Mãe que era uma autêntica Senhora, muito antiga, que nasceu em 1923 e que me teve aos 42 anos e que aguentou a jarda de andar comigo na rua, de braço dado bem apertado quando passeavam juntas. A minha Mãe era muito discreta, muito Senhora.
Foram sempre só as duas, uma coisa muito pouco comum para a época.

Posso ter saído de Campo de Ourique, mas Campo de Ourique nunca saíu de mim!
 – e ri-se. A Nazaré diz isto com uma ironia que está dentro de uma gargalhada. E isso é super fixe. Todas as suas frases cabem em gargalhadas que lhe saem assim muito livres de dentro dos sapatos da já extinta Sapataria Pinoca.
É única?
Sim.
Mas todos somos únicos.
No caso da Nazaré é capaz de se notar mais, porque ela é assimtrashediastoliyourlookNAZARÉ-20
Tu sabes que eu nem me lembro que tenho tatuagens? Às vezes as pessoas estão a olhar e eu não sei para o que é que estão a olhar!…
As nossas bebidas chegaram muito rapidamente, muito eficazes.
Dois copos gigantes cheios de gelo que nem com o calor que estava chegou a ter tempo de se fundir com a Stoli.
Eu fiquei com o Peach Aperol e a Nazaré com o Sunset Iced Tea por óbvias razões cromáticas: seria redundante fotografar a Nazaré do cabelo cor de laranja com uma bebida cor de laranja. O verde fazia melhor contraste. Daria melhores fotografias.
Isto é o quê?
É vodka. Stoli. Peach Aperol e Sunset Iced Tea.
Uaaaaaaaaaaaaaaau!
Vodka é água divertida. trashediastoliyourlookNAZARÉ-8

 

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Aos dezoito anos, em 1983, foi para Londres trabalhar como au pair na casa de uma família inglesa. Uma amiga da Mãe de Campo de Ourique tinha sido au pair nesta família, e a menina que ela tinha criado tinha acabado de ser mãe. Perguntou-se à Nazaré se queria ir e a Nazaré, que andava por maus caminhos com as más companhias que conhecera na António Arroio disse que sim.
Mandaram-lhe o bilhete de avião e lá foi ela.
Consta que a família inglesa ia caindo para o lado quando a viu.
Ia para ficar três meses mas ficou cinco anos. Ficaram amigos para a vida e passam tempo juntos todos os anos, ou cá, ou lá. A ramificação inglesa da família da Nazaré não tem nada a ver: são daqueles da meia branca com a sandália – ‘tás a ver? – são pessoas com as quais eu nunca me relacionaria se não tivéssemos este laço, se eu não os tivesse criado. São pessoas que amo e que também se sentem muito especiais por me terem na vida deles, porque eles também jamais se dariam com uma pessoa como eu se não fosse eu tê-los criado, e isso é lindo, porque somos família.

Cá não havia nada. Nada. E lá havia tudo.
É óbvio que a temporada em Londres terá ajudado a definir quem é a Nazaré.
Por estranho que pareça, não falámos de música a não ser por intermédio de outros fenómenos pontuais e culturais, como a devoção pela obra da Vivienne Westwood.
Usa sempre coisas da Vivenne Westwood. Hoje trazia um colar e um enorme saco vermelho às bolinhas brancas.

Antes de ir para Londres já comprava muita roupa em segunda mão na Feira da Ladra, mas era segunda mão, não era vintage, que o vintage é uma invenção nova… Era segunda mão e era sabe-se lá de quem é que tinha morrido… Coisas muito boas, porque na altura aquilo era tudo bom a sério, e já havia senhoras que guardavam coisas para mim. É que eu tenho a vantagem de ser muito magrinha e de calçar pouco.
Para as pessoas do vintage, essa coisa de ser magrinha e calçar pouco são vantagens que dão pole positions.  
Foi na lojinha da Vivenne Westwood no World’s End que a Nazaré comprou a primeira peça nova e de algum designer assim famoso. São peças muito especiais que se inserem na sua colecção também muito especial e que começa a tornar-se gigantesca. É muito provável que a Nazaré tenha peças Vivienne Westwood de todas as colecções desde 1983. Ser da cena da Nazaré e gostar da Vivenne Westwood é consequente e tem a ver com Londres, com os anos oitenta, com música e com a vida que a Nazaré decidiu viver. 

É muito exclusivo ser feliz. 
UFA! Falar com a Nazaré é ter a sorte de ouvir as melhores frases, que lhe saem da boca a uma velocidade estonteante, e que não fazem parte de um discurso ensaiado.
Ser feliz é uma escolha, e eu tive a sorte de escolher o marido certo (estamos juntos há quase trinta anos), sempre fiz aquilo de que gostei, sei o que quero e tenho a perfeita noção daquilo que sou. E acho-me o máximo – mas tu não escrevas isto!
Exacto.
Nazaré, desculpa, mas esta tinha de escrever.

Ou ficava em Londres a viver a vida louca, ou voltava e assentava.  
Voltou para Portugal em 1988.
Viria a ser um regresso por amor.
No mundo da Nazaré, em Portugal estavam o amor e a melhor banda: Emílio e a Tribo do Rum, com aquele que viria a ser o seu Marido, o Pinela, e o Jorge Bruto.
As más companhias sobreviveram ao passar dos anos, são a família de Nazaré. De Emílio surgem os Capitão Fantasma, em Novembro de 1988. A Nazaré torna-se baixista da banda, não porque soubesse tocar, mas porque queria tanto passar todo o tempo com o Pinela, que aprender a tocar era uma óptima desculpa
Ainda hoje a Nazaré e o Pinela percorrem o mundo pela música, ora em festivais, ora a visitar os amigos que têm um pouco por toda a parte. Sempre com os filhos atrás, à frente ou ainda na barriga. O mais velho é uma Obra do princípio dos anos noventa, o mais novo um milagre dos anos zero: Nazaré viria a ser Mãe pela segunda vez com a idade da sua Mãe.
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Entre os Capitão Fantasma e a Bang Bang, nesse hiato de uns anos turvos ali no meio dos noventas, a Nazaré foi a responsável pela escolha de mercadoria da El Dorado. Mas eram os anos noventa em Lisboa, era assim muito rudimentar e muito difícil e não interessa nada.
OK, passamos à frente, mas ficas a saber, Nazaré, que por acaso interessa muito, mas pronto, só temos uma entrevista, não temos limitação editorial, mas debruar-nos sobre essa parte seria outro #trasehdiastoliyourlook.

Há dezasseis anos nasceu a Bang Bang, em Sintra, onde a Nazaré tatua das dez da manhã às sete da tarde.
Os famosos do mundo ajudaram muito o negócio. Os fofinhos [nome de código para golfinhos] ajudaram imenso e já perdi a conta a quantos terei feito na vida. As tatuagens da Rihanna ajudam imenso, ajudaram tanto que também eu fiz uma, vê lá tu!… O Sabrosa ajudou muito com as coisas árabes, o Beckham também ajudou muito. Também mando um beijinho aos números da Beyoncé e às coordenadas dos filhotes da Angelina [Jolie]. E agora dava jeito que alguém fizesse assim mais alguma muito vistosa, mas pronto, não nos podemos queixar!…trashediastoliyourlookNAZARÉ-22
Eu? Sou feliz. Sou muito realizada. Só faço o que quero e o que gosto. Nunca fiz nada que não gostasse na vida.
E sou o máximo! Mas bom… Para ser o máximo, levei muita porrada. É que não se comprava online, Querida.

Pois é. Se em ’83 a Nazaré tinha 18 anos, quantos tem hoje?
É fazer as contas.
Nós é que somos todos do tempo em que estas escolhas conscientes da felicidade e do fazer-se aquilo de que se gosta, são dados adquiridos, mas a Nazaré não é desse tempo. É do tempo em que estas escolhas dela eram excentricidades desnecessárias para uma vida quotidiana que se queria na CEE, normativa, pacata e com um óptimo crédito, até há bem pouco tempo. A sua figura maximal naquele corpo mínimo é uma coisa maravilhosa e exótica e brilhante e a respeitar há uns… sei lá… cinco, sete anos?
– Sim, se calhar nem tanto.

E do nada, surge uma afirmação que em bom rigor é a resposta a uma pergunta cliché que não fiz porque não me desperta nenhuma curiosidade, mas que é habitual quando se entrevista a Nazaré. É uma resposta àquele ponto de vista negativo e tribalizante que define as tatuagens como barreira social, como factor deliberado de exclusão do indivíduo, como elemento diferenciador de impacto devastador na relação desse mesmo indivíduo com o meio que o rodeia. Ela vai lá dar a essa afirmação sozinha num raciocínio claríssimo que envolve a vida familiar, os filhos e a relação com o meio, e eu aponto a seguinte frase: as tatuagens são uma barreira óptima.trashediastoliyourlookNAZARÉ-37

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No dia anterior ao nosso encontro, descubro que a Nazaré chegará ao Epic Sana acompanhada das Les Filles (proprietárias da online shop de um dos últimos #ootd), amigas do filho mais velho que se tornaram suas amigas. Descubro no nosso encontro que a Nazaré é amiga de amigos do meu Marido.
O mundo é muito pequeno e mais de metade do mundo quer conhecer a Nazaré.
A voz mais doce e delicada, a manicura half moon que dura uma eternidade, um colar Vivienne Westwood cheio de penduricalhos alusivos ao seu vegetarianismo, três pares de óculos de sol, duas malas e dois vestidos para uma ocasião só depois, porque a Nazaré é impossível de resumir.trashediastoliyourlookNAZARÉ-27

Tento sempre encontrar um vestido para uma ocasião destas, mas sabes que já são tantas que eu sei lá qual é que já usei em quê e olha, escolhi este das flores hoje [que tem vestido nas primeiras fotografias deste artigo] e afinal já o usei para uma sessão lá da loja… Mas a Joana e a Maria João – estávamos ontem a ver a bola – entusiasmaram-me com este vestido vermelho e eu disse que sim, que ficava com ele e que o trazia, mas agora já estou com dúvidas – não é um bocadinho bombom a mais?

E isto é a coisa mais querida do mundo: haverá, alguma vez, hipótese de se ser bombom a mais?
Nunca.

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2 Discussions on
“É MUITO EXCLUSIVO SER FELIZ | #trashediastoliyourlook”
  • A El Doradono rudimentarismo dos anos 90 era TUDOOOOO. Lembro-me de me pirar do IADE nos intervalos para lá dar um pulo a ver se havia coisa nova que eu pudesse pagar. Lembro-me de ver a Nazaré por aí e pensar sempre como eram fascinantes as tatuagens dela, eu que adorava ter uma e morro de medo de agulhas. Lembro-me de pensar constantemente que aquela mulher pequena e magrucha era uma SENHORA. E continuo a achar que sim, que ela é uma Senhora. Como o foi a mãe dela.
    http://bloglairdutemps.blogspot.pt/

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