Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

ELE TEM DOIS AMORES (MAS JÁ TEVE MUITOS MAIS) | #trashediastolithenight

trashediastolithenight2-4Sobe-se a Rua de Camões e quando se chega debaixo do Viaduto de São Cristóvão, do lado esquerdo, de quem sobe, do lado de lá da estrada, há uma entrada pequena, do tamanho de uma fachada, com néons acesos. Lê-se Pérola Negra num amarelo que aquece a noite gelada que se faz sentir no Porto, em Março. À porta, pergunto pelo Mário a um grupo de seguranças que se ri e me pergunta se faço intenções de falar com ele nessa mesma noite. Respondo que sim, que foi o que combinámos. Um deles entrega-me um cartão e deseja-me boa sorte.
E eu entro.
E depois “entregam-me” ao Mário.
É muito cedo, cedíssimo para os cânones nocturnos, são onze e meia, mas nós queremos assim, com tempo para conversar.

Desço as escadas de ladrilho preto, iluminadas por uma quantidade infinita de luzes que acompanham a geometria vigente em linhas paralelas e perpendiculares, horizontais e verticais e diagoniais, quais palavras cruzadas, e ouço lá ao longe, onde terminam as escadas e as luzes começa o Pérola, a mítica Mein Herr, do mítico Cabaret de 1972, da mítica interpretação de Liza Minnelli. Vai no início, na parte em que ela canta que “(…) you’ll never turn the vinegar to jam, Mein Herr (…)”, e sinto-me em casa.

Venho ter com o Mário, proprietário do Pérola Negra, mas também do Lusitano, ex proprietário da famosa Indústria do Porto e ex sócio do Plano B, que não se faz esperar muito, porque o tempo é pouco. O fim de semana começa à quarta-feira, sendo que este é mais complicado porque hoje há festa temática Studio 54.
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O Pérola Negra, contemporâneo da primeira música que ouço à entrada (consta que estará aberto, pelo menos desde 1971), foi até há bem pouco tempo um local dedicado à mesma actividade implícita no filme de onde provém a música: uma casa de meninas, como o próprio Mário lhe chamará ao longo da entrevista.
O Pérola tem um ambiente lumínico predominantemente escuro, trespassado por feixes de néon, e é povoado de sofás de napa encarnada e mesas baixas. Tem espelhos que nunca mais acabam a revestir o máximo de superfície possível e dois bares compridos nas extremidades. Pergunto se houve alguma alteração ao aspecto original do Pérola. A decoração, é do início dos anos noventa e está inalterada. A única coisa em que mexi foi na instalação eléctrica, que foi toda posta de novo, porque estava muito degradada, e claro, tive de fazer uma casa de banho para as Senhoras, porque… como é que hei-de dizer, a actividade que aqui se practicava dispensava que houvesse uma casa de banho de Senhoras em condições, era só uma coisinha pequena.
O Mário namorava o Pérola há cinco anos.
Sabia da decadência do negócio, que perdia terreno para a internet, porque hoje em dia com a Internet… Já sabemos. E a qualidade das meninas também não era… Pronto… Digamos que duvidosa. Há cinco anos, quando quis, pela primeira vez, ficar com o Pérola, na corrida entraram uns espanhóis que ficaram com aquilo para manter a mesma actividade, e eu saí de cena, ficando apenas com o Lusitano, umas ruas mais abaixo, e com o filho recém-nascido. Há um tempo certo para cada acontecimento, e o tempo do Pérola ainda não era há cinco anos.
Mas o Pérola ficou-he atravessado na garganta, de tal forma que quando no final do ano passado os espanhóis vieram ter com ele, a conversa já era outra, e o Pérola poderia finalmente ser seu por um preço simbólico.

Não é de espantar que alguém queira ter o Pérola, ir ao Pérola ou fazer parte do Pérola: na era da globalização e dos espaços todos iguais e descaracterizados e sem qualquer passado ou história, a sensação quando se entra nesta cave debaixo de um viaduto é clara e parece gritar ai se as paredes falassem!… Tanto assim é que já são vários os episódios de público mais maduro, que (com muita ironia) nunca entrou no Pérola, mas que sabe sempre onde é a casa de banho – diz o Mário a rir.

O Mário sempre esteve ligado à música e à noite, porque os concertos são à noite, não é?
Foi manager e técnico de som dos Táxi até ao fim da corrida. Depois em 1987 convidaram-me para ser gerente na Indústria, porque a Indústria já existia, e aceitei. Só em1989 é que fiquei sozinho como gerente e depois acabei por comprar uma parte da sociedade, até que fiquei sem sócios e decidi levar aquilo para a frente durante vinte anos. E vendi em 2009 porque já estava um bocado saturado, porque era um espaço muito grande e porque o Lusitano, que eu tinha aberto em 2005, me dava mais prazer. Vendeu mesmo a tempo de escapar da crise, pelo menos num espaço tão grande e emblemático e tão trabalhoso como a Indústria.
O Lusitano surge em 2005, por causa de um desafio proposto por um amigo decorador gay: Ó Mário, não és capaz de abrir um bar gay. E eu respondi que era capaz de abrir um bar gay se houvesse um espaço interessante para abrir esse bay. Até que esse espaço surgiu, e eu abri. E até foi ele quem acabou por decorar o bar. E atenção que em 2005, estamos a falar de há doze anos atrás, não havia nada na Baixa do Porto, e o Lusitano abriu sem parceiros nem patrocinadores, porque as marcas não queriam entrar num bar onde não havia nada à volta, porque ali era um deserto. Achavam que estava maluco e perguntavam como é que eu ia ter clientela, e eu respondia sempre que as pessoas haviam de vir. Depois era por causa do Lusitano ser um bar gay, também havia esse preconceito, e até houve alguém que me perguntou se eu agora [em 2005] também era gay. Nem respondi, porque a esse género de perguntas não dá para responder. Na altura, no Porto, havia bares gay, claro, mas não como o Lusitano, operavam numa certa clandestinidade, eram mais bas fond, porque o Porto é um meio pequeno e as pessoas ainda tinham muito medo de se assumir. O Lusitano acabou por aniquilar a concorrência, e não me orgulho nada disso, mas foi assim que foi acontecendo, e pronto. trashediastolithenight2-5

Enquanto deixo o Mário falar deste tema que é tão polémico, o espaço vazio e cintilante começa a receber quem fará a festa dessa noite. Entram raparigas carregadas com porta-fatos que avançam até ao Mário para o cumprimentar e dizer que se vão preparar e vestir para a festa. São as Djs da noite. Gabam o blazer preto de risca giz branca com que está vestido e antevêem uma noite de arromba. Percebo que o meu tempo começa a escassear, mas não quero deixar ali o tema fulcral do Lusitano a meio, nem tudo o resto que o Mário, tal como as paredes do Pérola, terá para me dizer.

Agora já nem carregam as malas com os discos, trazem tudo numa pen. Há vinte anos era ver o pessoal passar, carregado… Isto mudou mesmo muito com a internet!… 

A noite é um espaço de inclusão onde as duas regras fundamentais são a descrição e a distância. Dois dês. Porque tu nunca sabes com quem é que estás a lidar, e o melhor mesmo é manter uma postura de proximidade, mas distante. E não sou capaz de não lhe dar razão neste assunto dos dois dês.
Assistiu ao surgimento de mais dezenas de negócios na Baixa e não aceita o rótulo de pioneiro solitário, porque diz que o conjunto dos empresários é que dinamiza com força e vitalidade. Sempre gostou da Baixa e da Ribeira, zonas onde, à semelhança do que sucedeu em Lisboa, se nota perfeitamente o impacto da desertificação das últimas décadas, por causa das políticas urbanísticas que apostaram na construção fora da cintura central, para as periferias que agora fazem parte do tecido urbano. Eu sempre estive junto ao rio, olha só a Indústria, era junto ao rio. E eu gosto, tem mais história, tem mais interesse. E é por isso que adoro o Pérola e que agora anda tudo maluco com o Pérola: um espaço com características muito específicas, que mantive inalterado. Para quê construir um novo se este já existia e era assim? Aqui, assim é sinónimo de incrível. E é verdade. O Pérola é incrível.

Pergunto, porque pouco sei acerca da noite do Porto, sobre a polémica com o reitor da Católica, porque o Mário sabe perfeitamente que não pode agradar a todos, coisa que o torna uma figura algo controversa. E ele explica com simplicidade que o sr. reitor tem de mandar primeiro na casa dele, porque os alunos que saem à noite, por muito que sejam alunos, já são adultos. Não se podem responsabilizar os empresários da noite pelo insucesso escolar. E encerra o tema, porque diz que não há muito a dizer. trashediastolithenight2-14_zpstebvxcko

Entretanto, volto a ouvir mais uma música, porque enquanto o Mário fala tento não ouvir nem ver mais nada, a não ser o bloco de notas, a máquina fotográfica e se o gravador do telemóvel continua a gravar, não vá ter ficado sem espaço na memória. E a música é a “(…) giiiiiiiiirls, don’t cry for louie (…)” de Vaya Con Dios.
Começa a chegar mais gente com apontamentos brilhantes, que evocam qualquer coisa glam. Mas nada do outro mundo. Afinal de contas continua a ser cedo. Porém há dúvidas e questões e gente para receber de braços abertos e sorriso nos lábios, e temos de dar por terminada esta conversa: é que o Pérola é para isto, para gente mais velha que não quer sair às três da manhã, nem aturar a criançada. É um espaço mais maduro. Em tudo. Da selecção musical ao revivalismo. É claro que também tem house, lá para as quatro da manhã, porque a noite continua, e o público mais jovem chega por volta dessa hora, mas o objectivo principal não é agradar a esse público, que tem uma oferta enorme.

Dedicar-se à noite dividido entre dois espaços é azáfama suficiente para quem já vive à noite há tantos anos. Em 2017, o Mário está mesmo dividido entre estes dois amores, super pessoais e intransmissíveis, mas que se complementam, como na música do Marco Paulo, que encaixa perfeitamente neste cenário, que agora é só camp.  Dividir as atenções entre o Lusitano e o Pérola não é fácil. O Lusitano é o irmão mais velho, percursor. O Pérola é o irmão mais novo irreverente, mas com o caminho mais ou menos aberto. O Lusitano é o espaço de uma vida, é  sem dúvida o espaço pelo qual tenho muito mais carinho, e o Pérola… bem, o meu novo bebé. Que ainda precisa de toda a atenção para crescer forte e sadio.

E eu venho embora quando começa a chegar cada vez mais gente que comprova o primeiro verso da canção da Liza que ali ouvi, quase numa de justiça simbólica.
À saída, a noite está ainda mais gelada, mas lá dentro, é só calor.

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