Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

ESTAVAS LINDA INÊS POSTA EM DESASSOSSEGO | #Ttrashediastolithenight

Fui ter com a desconhecida Inês à Rádio Quântica, que fica numa das casas que me é mais querida, a Rua Das Gaivotas, lar do Teatro Praga, numa noite quente de Abril. E esta frase não faz muito sentido, parece mais uma coisa querida poética, “a noite quente de Abril”, mas a verdade é que as noites de Abril foram particularmente quentes e andámos todos muito felizes com a ideia do calor antecipado.

A Inês recebe-me à porta com o seu cabelo amarelo dourado e um sorriso incrível que há-de tornar-se cada vez mais espontâneo ao longo da noite.

Hoje a #trashediastolithenight começa aqui, na Rua das Gaivotas, em Lisboa, para depois deambular um bocado por outras ruas, enquanto aproveitamos o calor inaudito desta noite de Abril. Subimos os degraus em meia lua, viramos à esquerda, subimos mais dois degraus, tornamos a virar à esquerda, e descemos cinco ou seis degraus até ao estúdio da Quântica: lá dentro termina-se uma emissão ao vivo e prepara-se a emissão que continuará pela noite fora.
Embora seja um fenómeno de proporções mundiais, a Quântica opera desde um estúdio relativamente pequeno, na casa de uma estrutura cultural, em Lisboa.
Cumprimento o Marco, marido e parceiro incansável da Inês, que se juntará a nós neste passeio, e seguimos para o átrio das Gaivotas.

Sentamo-nos nos sofás do “Sonho de uma Noite de Verão” e começamos pela Quântica.

 A rádio Quântica, que emite online, é uma rádio em tudo pioneira em Portugal, dedicada essencialmente a unir uma “comunidade hiper fracturada”.
Só que para chegarmos à Quântica e à sua origem, precisamos de recuar uns anos, até 2005 ou 2006, talvez..
A Inês tirou o curso de Gestão, que lhe serviu para “fazer três ou quatro amigas para a vida”, e terminado o ensino quadradão, foi um ano para Brighton estudar canto, desenho, fotografia e tudo o que não obedecesse a padrões numéricos. A ironia do destino foi suficientemente simpática para trazer a Inês de volta a Lisboa, para a por a trabalhar na Flur (a loja de discos do Cais da Pedra) e para a devolver à matemática da música. Não só a vender discos, mas a passá-los em pequenos clubes de Lisboa.
A primeira vez que tocou foi no Lounge. Enquanto todos os DJs que já tinha ouvido tocavam house ou techno, a Inês queria “tocar house e techno, mas também Rihanna, só que tinha assim uma certa vergonha, porque ninguém passava aquilo.”
Estranhamente ou não, na mesma altura, uns escassos metros mais à frente, no boom da internet e dos fóruns, eu e alguns dos actuais membros da Quântica, que ainda não conhecíamos a Inês, tocávamos no LEFT muito raramente, porque à terceira música éramos sempre expulsos e trocados por um CD: ninguém queria ouvir a Britney, a Rihanna ou coisas do género. No primeiro dia em que a Inês tocou no Lounge, acompanhada pela Rihanna e pelo Major, a estreia foi incrível.
“Se há coisa que posso dizer é que fui sempre muito acarinhada e defendida por quem me começou a convidar a tocar. Era tudo mais velho, já malta mesmo sénior e cheia de experiência, que me diziam sempre “Inês, faz aquilo que estás a sentir, pões o teu som, pões aquilo de que gostas mesmo” – e como era tudo pessoal muito mais velho, eu aceitava os conselhos e confiava muito.”
Quando conversamos com a Inês, é evidente que é mulher e que é do Girl Power. “Movimento-me num meio muito masculino e estou a tentar que a representação feminina nesta arena seja mais justa”.
Em 2012, a Inês e o Marco mudaram-se para Londres. Já tocavam ambos um pouco por toda a parte, a Inês fazia parte, com a Maria, das A.M.O.R., e o seu percurso já lhe tinha aberto muitas portas. Por esta altura tanto a Inês como o Marco já tinham produzido música, já tinham editado, já tinham agentes e já despertavam interesse por onde passavam. Em Portugal trabalhavam em actividades de que não gostavam muito para poderem continuar a fazer música, e essa situação começava a tornar-se incomportável, porque o dinheiro também não chegava. O salto foi lógico.
“A Quântica começou em Londres. Voltámos para Portugal em parte porque começámos a ver a bigger picture e a ter uma noção de perspectiva, e de toda a música que se produzia e fazia e tocava cá; não havia muito espírito de comunidade. Havia não sei quantas crews diferentes, mas que não se sentiam parte de um mesmo mosaico, e por isso se calhar não comunicavam tanto. E nós, de Londres, começámos a ver isso – e a oferta de rádios que havia, não oferecia assim muito à cultura e ideias mais underground, à música de dança ou ao formato da rádio de autor. Era tudo muito disperso. Em Londres, Amsterdão, em Berlim, há rádios comunitárias que aproximam os músicos e as suas correntes, em emissões contínuas, que criam sinergias muito positivas para o meio. Quer em programas de autor, quer em sets, seja o que for, mas há. E cá não havia. Mas foi preciso irmos para Londres, para, de fora, conseguirmos olhar e identificar esse padrão. E a Quântica nasceu da vontade de resolver esse puzzle.” Enquanto a Inês me dizia isto e eu tirava notas, ecoava na parte de trás da minha cabeça aquela frase da música da Madonna do “music makes the people come together, yeah”.
Nos passeios estreitos e em obras da Rua de São Paulo, é impossível caminhar lado a lado, e vamos em fila indiana. Já fechámos a porta das Gaivotas e vamos a caminho do Cais do Sodré, ver as obras e o rio. Vou atrás da Inês, que vai atrás do Marco, e é impossível não olhar de volta para a Medusa enorme que me vigia, desde as costas do casaco de veludo preto da Inês. É a Medusa da Versace. E porque a Inês já fez música para um desfile da Versace e isso é incrível, é impossível não perguntar: não só conheceu A Donatella, como esteve presente nos ensaios do desfile e “não tinha noção de nada daquilo… Não tinha noção que as miúdas eram tão magras, não tinha noção que eram tão novas, que iam com os pais… É mesmo outra coisa… Eu cá só tinha ido uma vez à ModaLisboa e não tinha visto nada daquilo nem de nada, esquece…” E eu esqueço, e continuamos com a história da Quântica. Jo - Stoli -6
Então, a Quântica começa em Londres. Todos os programas são gravados em casa e enviados e depois fazem-se os uploads para uma grelha que os lança de forma automática. O primeiro ano oficial de emissões da Quântica foi todo assim, de casa para o mundo, com a ideia de uma base em Portugal. Essa base traduz-se numa festa de aniversário que teve lugar no Lux, em Lisboa, onde muitos membros da comunidade Quântica tocaram, nos três pisos, sets de pelo menos duas horas. Por altura dessa festa, a Inês e o Marco regressaram a Lisboa definitivamente, muito por causa da possibilidade de terem um estúdio físico na Rua das Gaivotas.
“O projecto de uma rádio comunitária em que trabalhamos todos para um bem comum, é um dínamo muito potente. Somos muitos, estamos unidos.”
Sim, mas foram vocês que os juntaram.
“Sim, acabámos por semear a ideia de que as crews são maiores e melhores quando se misturam, e tudo por causa de uma rádio que oferece lugar a toda a gente, porque é assim, quem quer ajudar, ajuda. Não gostamos mais ou menos de quem faz parte do projecto porque trabalham mais ou menos. É uma comunidade.”Jo -Stoli -2
A Inês fala muito da Mãe e de como a influência da Mãe e do percurso da Mãe a levou aqui: é uma Mulher de esquerda, poderosa, doutorada, que nunca desistiu de nada mesmo tendo filhos. E muito naturalmente falamos desta coisa de ela estar tão comprometida com a defesa do espaço feminino no âmbito da música electrónica. “A minha agente é uma Mulher, está na Alemanha, e não aceita propostas sem sentido para mim, com cachets ridículos. Defende-me. E o teu agente tem de te compreender e de te defender. É claro que facilita que ela seja Mulher num meio super male dominated.” 
“É claro”. UFFFFF.
“Para mim o difícil ao início e mesmo agora, era dizer que não. Porque nunca sabes se amanhã vais ter trabalho, se no mês seguinte te chamam para alguma coisa, ou não. E nós temos contas para pagar e uma casa e uma vida. Mas pior que não saber o que vem por aí, é tu fazeres o teu trabalho por um preço ridículo quando sabes que os clientes, que em Portugal são maioritariamente marcas, te querem vampirizar e pagar o mínimo possível, e assim diluis a tua identidade para os ajudar a eles. Dizer que não é importante porque ao definir o que não és, estás a reafirmar o que realmente és. E é dizendo que não que vou ficando a saber qual é o meu percurso. Fazer dumping da tua profissão é só uma estupidez, porque estás a matar aquilo que fazes. E, lá está, com marcas… As marcas têm dinheiro. Podem pagar. Só que não querem. Nisso um agente faz muita falta. E o respeito por ti própria e pela qualidade do teu trabalho também.”

Dumping.
A gestão ficou lá dentro da Inês.

E embora seja muito cedo, nós seguimos para eu ver a Inês beber um Moscow Mule e continuar a conversar.

Podem e devem ouvir a Inês no soundcloud, na Quântica ou em qualquer DJ set.

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