Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

GOSH

Cheguei a uma fase difícil na minha vida de observadora.
Encontrei, finalmente, o excesso, o fim da linha, o fundo do túnel…

A SANDÁLIA DE CORTIÇA

Os portugueses são espertíssimos.
São do mais esperto que há.
E os rapazes que decidiram criar uma marca de sapatos portuguesa (em todos os aspectos) com um nome inglês, devem estar orgulhosos.
A FLY LONDON está no mesmo barco que a Skunk Funk, a Custo Barcelona (será que estou aqui a tocar pontos muito sensíveis?), a Desigual, a Pepe Jeans, a Rulys e outras que tais.
Esse barco está para o bom gosto como o Cabo das Tormentas para os navegadores de outrora.
É precisa uma dobra já.

Sou da terra da cortiça.
No Alentejo o que não faltam são sobreiros.
E sabe-se imenso sobre cortiça.
Somos obrigados a aprender, desde crianças, para que serve a cortiça, quais são as suas propriedades, as suas vantagens, desvantagens e características.
Não sou, certamente, a pessoa mais versada em cortiça, mas posso dizer-vos, caros leitores, que a má utilização dos produtos pode ser nefasta ao olho humano.
A cortiça é um material extremamente leve, flutua, insonoriza e sempre serviu para fazer rolhas.
Agora serve para fazer roupa e sapatos, é ultra utilizada na indústria têxtil.
Nada contra.

Até vos posso contar uma pequena história sobre as primeiras utilizações da cortiça no calçado.
Saberão, decerto, quem foi um senhor chamado Salvatore Ferragamo.
Italiano, etc…!?
Este senhor, cuja vida se fez entre Itália e os Estados Unidos da América, mais concretamente Hollywood, e para precisão absoluta, os pés da Greta Garbo, foi o responsável pela aplicação da cortiça na construção de sapatos de salto alto.
A ideia era sustentar melhor o pé.
Mas antes de uma excelente ideia, é quase sempre preciso passar por um período negro.
Itália de Mussolini.
Todos sabemos de que é que se trata e de como andava aquilo que hoje é a U.E. nesses tempos.
Negrura.
Falta de recursos, escassez de materiais.
Rolhas.
O Sr. Ferragamo devia beber lambrusco com muito maior frequência do que nós.
E algum dia deverá ter-se-lhe atravessado a ideia peregrina de transformar todas as rolhas que lhe sobravam, em saltos de sapatos (reza a lenda que as primeiras solas compensadas de cortiça foram mesmo feitas com rolhas).
Não interessa.
O Sr. Ferragamo patenteou a coisa e foi aclamadíssimo.
Continuou a calçar as estrelas e a agigantar o império.

Quer-me cá parecer que o Sr. Ferragamo merece todo o nosso respeito.
No entanto, e dado o que tenho vindo a observar, Sr. Ferragamo, estou muito zangada com o seu legado!

A sapata de cortiça é o Demónio do calçado.
(Se houvesse, como no lado do bem, imensos Demónios (como há Santos e Santas), já saberíamos identificar, pelo menos dois: O Demónio de Havaianas e o Demónio da Cortiça.)

A Fly London lançou – MENES, isto não poderia vir menos a calhar!!! OMG!!! Estive a pesquisar e a ver como é que se chama o modelo daquela sandália terrível sobre a qual desejo continuar a empreender ao longo deste post e o seu nome é GOSH – uma sandália sobre a qual até já se fizeram reportagens.
Essa sandália dá pelo nome GOSH e é o exemplo acabado do sucesso.
É necessário admitir que essa sandália deve render como o caraças e que quem consegue isso é digno de todo o respeito.
Também é digno de muitos esclarecimentos.
Se um dia pudesse fazer uma pergunta a quem inventou a sandália GOSH, seria:

– EM QUE MOMENTO?!?

Uma vez apanhei um programa sobre o sucesso da FLY LONDON e sobre os prós e contras desse sucesso.
Os contras, segundo os criadores da marca, são as falsificações.
Têm razão.
São contras porque há gente a imitar e a reduzir a hipótese de lucro, mas só isso, porque a expansão, o reconhecimento e a identificação daquele objecto com a marca FLY LONDON não irá desaparecer.
Ficará registada nos anais da história.
A contrafacção é sinónimo de desejo.
Senhores FLY LONDON, os meus parabéns.
Como diz o meu Pai, mau gosto também é gosto, e se há coisa que a produção massificada consegue, é enjoar.
Quero acreditar que o número de exemplares de sandálias GOSH que sai das fábricas de calçado do norte do país não poderiam nunca chegar a povoar tanto pé como tenho visto.
Aqui entra o fantástico papel da contrafacção: minar e separar condignamente aqueles que compraram da marca e os que preferiram o modelo contrafeito.
Mas… AH! Não há separação possível neste caso!
Estão todos unidos pelo mau gosto!
Há imitações geniais.
Cores impossíveis.
E deve haver muita gente com mais do que um par.

M. E. D. O.

Gostava de vos dizer, também, que estas sandálias GOSH, tal como todas as sandálias que não comprimem os dedos dos pés, fazem um pé horrível.
A anatomia da sandália GOSH, um pouco levantada/romba à frente, proporciona um desnorteamento dos dedos dos pés nunca antes visto.
E bonito, diga-se.
Gostava também de salientar a ideia de génio que o responsável pela sandália GOSH teve ao aplicar uma sola bem espessa e proeminente em borracha.
Evita quedas.
E evita beleza, também.

A sandália GOSH passou de me provocar apenas um prurido leve e indiferente, a provocar vómitos e náuseas e de me impedir de manobrar máquinas agrícolas, por exemplo, quando estou sob o seu efeito.
Deviam oferecer bulas às pessoas que não têm nenhum par de sapatos FLY LONDON.
Porque as reacções são espontâneas.

Passo agora a uma nova fase nesta história.
A utilização dessas sandálias.
Tal como no caso dos coletes, não saberia, nunca, usar correctamente este modelo GOSH.
(Ou: “(…) Não saberia, nunca, usar correctamente este modelo, GOSH. (…)”)
Mas tenho recebido as melhores lições…
Podem usar-se com:

– Vestidos de lurex ou de qualquer outro tipo de tecido brilhante (interessa é que brilhe);
– Calças à Boca de Sino;
– Pantalons del Caganet (long live Catalunya);
– Bermudas;
– Shorts;
– Hot Pants;
– Skinny Jeans;
– Roupa de Casamentos/Cerimónias (de qualquer natureza);
– Macacões;
– Vestidos de Algodão;

No fundo, a sandália GOSH serve para tudo.
Foi criada com esse intuito.
Para servir uma geração activa.

Este post é, no fundo, sobre a perversão.
No que uma boa ideia dos primórdios da reciclagem se tornou…

Descanse em Paz, Sr. Ferragamo, no que a mim me compete, está ilibado!

(Por motivos de ordem estética, permitam-me não divulgar nenhuma imagem associada à FLY LONDON ou à sandália GOSH. Espero que vos esteja tão viva na memória como a mim. No caso de não estar, façam um Google. Não me responsabilizo por eventuais danos.)

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