Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

H(A)MOR em brasileiro

Quando era pequena (tipo, super pequena, género cinco ou seis anos), eu e as minhas Amigas que eram as vizinhas da frente, ainda hoje Amigas com A maiúsculo, apanhámos uma mania qualquer que implicava fazer tudo em brasileiro.
A Fedra, mais velha que eu e a Nídia, sua irmã, saía da escola mais cedo que nós e via telenovelas. Quando chegávamos a casa com os trabalhos já feitos enquanto os copiávamos do quadro para podermos brincar mais tempo, lanchávamos, começávamos as brincadeiras, mas quando a Fedra, que tinha um entendimento das coisas muito diferente do nosso, acendia a televisão para ver a novela, era óbvio que também víamos as novelas, por arrasto.
Lembro-me imenso da Pedra Sobre Pedra, porque no jardim lá de casa havia jarros e portanto uma enorme chance de podermos vir a encontrar o Jorge Tadeu, longíssimo das fantasias que isso poderia implicar.
Também me lembro muito bem da Vamp, que a Fedra via já com enorme consciência de que queria ser assim, mas que nós nunca percebíamos nada e continuávamos a brincar, quando brincávamos às novelas.
Talvez víssemos novelas a mais para a nossa idade, mas também não tenho ideia de que nos tenha feito mal, (antes pelo contrário, crescemos e estamos muito bem, obrigada), porque quando estava bom tempo jamais ficávamos enfiadas em casa, porque havia muita terra e água e flores de boganvilia para fazermos suminhos (esmagávamos as folhas roxas com água) e bolinhos de lama nos nossos jardins, para servir às Barbies, às Skippers que, muito antes do Toy Story, eram amigas dos Nenucos, das Polly Pockets e das Barriguitas. O cenário era sempre de grande convívio e, em última instância, as novelas brasileiras ajudaram-nos a construir narrativas muito ricas e livres de preconceitos para nós e para os nossos brinquedos, que não namoravam, mas que se davam todos muito bem.
Tínhamos no entanto o hábito (muitíssimo repreendido pelas nossas Mães) de gozar com as roupas das pessoas, em brasileiro, e de preferência no tom mais agudo que conseguíssemos.
Lembro-me de um grito que era quase de guerra: “olh’u sápátxinhuuuuuuu!!!“.

Hoje em dia não vejo novelas.
Não é por mal, mas não me aparecem à frente e também não as procuro e também não tenho assim o hábito de ver televisão. Mas vou percebendo os fenómenos das telenovelas através da internet, e fico com vontade de conseguir ver telenovelas brasileiras, da Globo. Até porque sempre sonhei fazer uma telenovela da Globo, e sei que esse dia há-de chegar.

Descobri recentemente a personagem de uma das minhas actrizes preferidas, a Samatha Paranormal, da Cláudia Raia.
Trato de evocar a Samatha porque é provavelmente a maior e melhor fonte de humor que descobri nos últimos tempos.
De facto, os brasileiros têm muita graça.
Tenho para mim que ficaram com toda a graça que os portugueses tinham; dá-me ideia que os portugueses a deixaram lá quando trouxeram o ouro todo e mandaram o D. Pedro IV, só pode.
Uma troca injusta.

A primeira vez que me lembro de admirar a Cláudia Raia foi quando ela fazia de transexual Ramona, naquela telenovela chamada As Filhas da Mãe. Tenho gravada na minha cabeça a imagem triunfante da Cláudia Raia (que sempre achei que havia de ser muito alta) num vestido coleante dourado.
Também não me consigo esquecer da imagem da Cláudia Raia grávida da sua filha Sophia (fruto da relação com Edson Celulari) n’O Beijo do Vampiro, em que fazia de Mina de Montmartre, sempre óptima. Agora como Samantha Paranormal, adoro rir-me com os memes que vão aparecendo na página de Facebook da dita cuja, porque têm tanto de divertido, como de mordaz e sarcástico. São ácidos e não respeitam esta ideia reinante global de que o humor tem de respeitar o próximo, ou de que o humor tem limites.
E o que mais adoro nesta Samantha Paranormal é, em primeiro lugar, o nome. Melhor nome de personagem de sempre. Depois adoro muitíssimo ver as expressões escolhidas em cada meme, com as respectivas legendas. Gosto muito de imaginar (porque ainda só vi excertos no YouTube) a Cláudia Raia, a mui divina e portentosa Raia, a fazer comédia neste registo de telenovela, que é sempre tudo em desbragadas.
AMO.
Adoro rir-me noutras línguas. Especialmente em brasileiro e em espanhol. É um universo de humor completamente diferente, que me leva para uma realidade muito mais leve e divertida, muito mais descomplexada, muito mais arejada e fresca!
Acima de tudo AMO o sentido de humor dos brasileiros, a sua noção de liberdade dentro e fora (neste caso dentro) do Universo ficcional, e acima de tudo adoro perceber que a noção de ficção, no modelo das telenovelas brasileiras da Globo, se actualiza e insere no zeitgeist de uma forma muito harmoniosa. Adoro ver que as personagens têm páginas de Facebook com feed próprio e fãs próprios, que existe essa comunicação residual no metauniverso do “real” para o espectador. Gosto muito de sentir esta apropriação tentacular dos meios e de me deixar influenciar por ela; de me deixar encantar pelas personagens de internet, antes das personagens de uma ficção que está a decorrer nas nossas grelhas da programação dita “tradicional”. É uma forma de reconhecer que a televisão tem vindo a perder terreno para a internet, sem dramas, e que a internet é uma excelente forma de captar públicos jovens.
E AMO profundamente que a Cláudia Raia seja a Samantha Paranormal.
Que A Cláudia Raia, essa Mulher que – à distância de uns 20 anos – foi a minha primeira referência estética do inalcançável. Foi a primeira Mulher alta e com imenso porte que vi e que achei linda. Aquele cabelo enorme e comprido, aquela boca meio torta, a pele clara, o peito e os ombros, generosos, aquela força toda.
Não sei explicar…

Talvez tenha sido no papel de Ramona que mais me marcou. Por ter sido uma Mulher a interpretar um Homem que se operou para se tornar numa Mulher. Pela escolha de uma Mulher que sempre considerei tão bonita e magnífica, para o papel de um transexual.
Soa a paternalismo? Sim, pode soar, mas olhem, estou super ok com a hipótese de soar a paternalismo, porque nessa altura, como hoje, não era preconceituosa nem retrógrada e morava num meio propício à criação desses complexos e preconceitos relativos à “diferença” do próximo (que nunca estava muito próximo), pelo que, à menor dúvida sobre o Ramón que era Ramona, a minha Mãe vinha e explicava-me o que era um transexual, como aliás fez com todo o tipo de perguntas que lhe fui pondo enquanto crescia e formava opiniões e ideias.
Neste caso desta personagem da Cláudia Raia, em que o drama era que a personagem do Alexandre Borges, Leonardo Brandão, que era um engatatão e vivia o conflito de se ter apaixonado por um transexual, a minha Mãe explicava que era Amor, e que o Amor não conhecia barreiras nem entraves.

Hoje sei que talvez a Cláudia Raia, nesse papel de Ramona, tenha tido uma importância enorme na minha formação, juntamente com toda a abertura de horizontes que sempre tive (a planície Alentejana tem horizonte a perder de vista e nunca se me encerrou à frente do nariz, só se abriu sempre até ao infinito), na forma como olho de igual modo para todas as pessoas, independentemente de tudo. Pensei nisto tudo enquanto contava, num jantar de família, algumas das minhas citações preferidas da Samatha Paranormal, com o devido sotaque brasileiro; pensei em como as novelas brasileiras também desempenharam um papel importante na minha formação e amor pela ficção pop e mainstream, pelo Universo dos sotaques, do estilo e da beleza. Da estética, vá… E sei lá de mais quantas coisas!… Pensei sobretudo em como as novelas da Globo me deram a diversidade e riqueza sociais de que não dispunha onde morava. E de como a televisão já foi tão mais importante do que é hoje. fantasias lacoste sertanejo E uma das coisas mais maravilhosas é pensar nisto das Mulheres enquanto comediantes e da pouca quantidade de Mulheres comediantes por esse mundo fora (problemática levantada na Maria Capaz aquando da entrevista à Maria Rueff).
Porque por exemplo, sinto-me comediante: não há um dia em que não me ria ou faça rir alguém.
Também adorei pensar que o sentido de humor é uma coisa maravilhosa, que os portugueses não têm mesmo graça nenhuma, porque a devem ter mesmo trocado pelo ouro, a sério, e também pensei que ser a Cláudia Raia deve ser o máximo dentro e fora da ficção.

E pronto, este post pode não fazer sentido nenhum para muitos de vocês, mas para mim faz.

(ler em brasileiro) Cláudia Raia, você é responsável por um montão de coisas na minha formação. O impacto social daquilo que é a sua profissão, está vivo em mim. Mil vivas para você. 
 A ficção como veículo, consumida com bons explicadores, é genial.

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