Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Herói em Collants

A minha história com o ballet é de impossibilidade cósmica: sempre inscrita nas aulas disponíveis na província, caso houvesse professora; nunca houve, pelo que nunca andei no ballet. Andei no basquetebol, no andebol, na patinagem artística, na ginástica e na natação. Mais tarde, muito mais tarde, cheguei ao ballet.
Mas era tarde demais. Porém aprendi a gostar de ballet e a respeitar a forma, a dar-lhe valor, e acima de tudo a compreender a importância da repetição como caminho para a aproximação da perfeição.
As seis horas diárias de aulas de dança que faziam parte do meu estágio davam-me muita energia, mas também dores musculares. Um dia um amigo perguntou por que raio tinha eu dores musculares, que dançar era coisa de meninas. Convidei-o a vir comigo a uma aula, equipado para que a pudesse fazer. Relatou-me mais tarde que tinha ficado arrasado das pernas durante uma semana.
Na semana passada fui ver a “Bela Adormecida” da Companhia Nacional de Bailado ao Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. Na sessão a que fui a sala estava mais vazia que cheia, no entanto tinha muito público jovem e famílias, facto que surpreendeu as pessoas com quem fora.
A dada altura, os jovens ao meu lado começaram a suspirar muito alto e a bafejar uma certa fartura. Pensei que fosse por causa do espaço exíguo entre as cadeiras da plateia e a fila seguinte, e embora as exalações sonoras fossem demasiado audíveis, deixei de as ouvir. Até que, quando a meio do espectáculo surge o príncipe que irá beijar a protagonista e acordá-la daqueles cem anos de sono, senti uma gargalhadazinha jovem no público.
Surgira um homem em collants. R-I-D-Í-C-U-L-O.
O riso em surdina consumava não só os suspiros como a tragédia que é a mentalidade dos jovens que povoavam a plateia, surpreendendo por um lado, decepcionando por outro.
Recordei-me imediatamente do episódio dos meus amigos e do ideário a ele associado.
O Príncipe, interpretado pelo bailarino espanhol Carlos Pinillos, dança de collants e jaqueta António Lagarto. Movimenta-se pelo palco num encadeamento fluido de movimentos precisos que incluem saltos contínuos a uma altura muito alta. Se os collants o fazem parecer ridículo aos olhos destes jovens que não conseguem conter o riso, os seus músculos definidos, o rigor dos seus saltos, o vigor dos seus movimentos, a beleza da sua expressão corporal, elevam-no muito acima do solo impulsionado apenas pela sua força, sem Air Jordans para lhe salvar os joelhos. Tudo aquilo é masculino por contingência de género, mesmo em collants. Tudo aquilo exala força, energia, vitalidade, poderio, masculinidade. Se tudo aquilo é uma demonstração das capacidades de um sujeito do sexo masculino, logo tudo aquilo é masculino, pelo que é uma coisa zero risível mesmo para o mais másculo dos machos. Zero passível de ser ridicularizada. Mesmo em collants.
Vim para casa a pensar na galhofa juvenil e em tudo aquilo que se ensina relativamente ao género e à convenção do adequado a cada género e em como isso é ainda hoje amplamente difundido em todo o lado, da escola aos meios de comunicação, passando por casa e pelos espaços lúdicos. Mais que triste, fiquei desapontada para com aquele público carregado de gente que, se por um lado ajudava a baixar a média etária na plateia daquele espectáculo, por outro aquelas jovens pessoas faziam com que o público fosse gente conservadora nos seus trintas.
E detestei fazer parte desse grupo.
Impressionou-me constatar como é fácil para uma septuagenária apreciar um bailarino e difícil para um jovem fazer o mesmo, separados que estão pelo défice na apreensão do modelo clássico, sendo o jovem incapaz de se alhear do preconceito evidentemente aqui explanado, o dos níveis de homossexualidade experimentados por um bailarino de ballet em collants.
Pensei em Mihail Baryshnikov, um dos grandes bailarinos da história do século XX, ídolo de tantos dos que encontraram no ballet a virilidade atribuída aos corpos de ginásio assentes em pernas conseguidas com repetições infinitas na máquina de leg press, regadas a batidos de proteína e litros de óleo Johnson espalhados pelo corpo de quem jamais calçará uns collants, mas que tira selfies no balneário em camisola de alças recortadas com mamilos à mostra.
Pensei na fotografia que ilustra este artigo e na beleza helénica desta anatomia, qual Discóbolo de Miron pós-moderno, e desejei escrever a crónica de hoje.

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