Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

H&M X M.I.A. | SEMANA MUNDIAL DA RECICLAGEM

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Então esta é a semana mundial da reciclagem.
De 18 a 24 de Abril.
Mas ninguém sabe nada disso por causa do Banif, do BPI e do Brasil, três problemas que afectam o nosso quotidiano, mais que não seja porque inundam as primeiras páginas dos jornais e os primeiros quartos de hora dos telejornais. Até eu, que ouço e leio e vejo notícias e dou algumas (hihihhihihiihih), só soube desta semana mundial da reciclagem por causa de um vídeo da M.I.A. que começou a inundar a Internet, a intercalar os escândalos supracitados.
Pá, e hoje já é quase fim de semana grande, e tipo… WHO CARES?

Vi o vídeo, porque se é da M.I.A. vejo sempre, porque a tenho como um selo de qualidade e depois é que soube que o Rewear It da M.I.A. seria o resultado de uma parceria com a H&M para promover uma campanha de reciclagem têxtil durante esta semana. 

Pedi à H&M Portugal que me enviasse o press release desta campanha para ler um pouco mais acerca desta iniciativa, pelo menos em linguagem oficial, e para poder escrever, porque como sabem, este é um tema que recebe muita da minha atenção.

Importante saber que até dia 24 podem entregar para as vossas roupas que já não usam/nunca usaram, não querem em qualquer H&M. Essas roupas serão recicladas e serão novas peças de roupa.

Da mesma forma que se comoveu, à Internet também lhe deu uma volta à tripa e começou a vomitar impropérios acerca da ironia desta campanha e desta escolha.
Crucificou-se imediatamente a H&M, hipócrita, e também a M.I.A., claro, que terá deixado de ser cool por ter colaborado com uma gigante como a H&M; o que não deixa de ser curioso, tendo em linha de conta que a M.I.A. também não é uma menina que, coitadinha, veio do Sri Lanka em condições infra-humanas.

Assim de forma muito reduzida, criticou-se amplamente a colaboração entre a H&M e a M.I.A. pelo contributo de nenhum ser “válido” para a resolução dos problemas que assolam a Humanidade.

Mas vamos por pontos:

QUEM É QUE NÃO CONSOME FAST FASHION?

Uma das acusações que uma metade da Internet faz à outra metade da Internet é a do consumo de fast fashion e não pude evitar perguntar-me quem é que não consome fast fashion?
Quem é que, no seu perfeito juízo, consegue afirmar que não consome, de todo, fast fashion? É muito feio e paternalista e pretencioso e ainda mais hipócrita do que qualquer acusação à H&M afirmar coisas feias acerca da fast fashion, acerca daquele que tem sido o veículo facilitador de estilo e identidade “próprios” a grande parte da população de emissores que acha que estar na Moda é essencial à vida.
Não consumir fast fashion implica um fundo de maneio do qual mais de metade da Humanidade não dispõe, mas também uma relação afectiva e de respeito para com os objectos, coisa que  também não parece que funcione, porque há pelo menos quatro décadas que nos treinam no sentido contrário.
Apontar o dedo é muito feio e dizer que, em nenhuma circunstância se consome fast fashion, é para lá de feio e falacioso e destrói qualquer posição séria que possa vir a tomar-se relativamente a este assunto. Além de que a prosperidade da H&M só é um facto porque a população consome… Não?

A H&M NÃO É SUSTENTÁVEL

A H&M não é sustentável é uma afirmação correcta.
Da mesma forma que nenhuma outra empresa é sustentável, porque nada daquilo que fazemos é sustentável, porque tudo o que fazemos tem um determinado impacto na Natureza. A nossa simples existência fisiológica é impactante para a pobre da Natureza.
Mas partindo do princípio que não podemos evitar viver, reduzir a nossa forma de estar no e com o mundo, aceitar e tentar resolver/contornar o problema da sustentabilidade não me parece, de todo, uma perda de tempo.
Perante este panorama dos gigantes do têxtil, das sweatshops, da exaustão dos recursos humanos e naturais, das parcas condições de trabalho, da deslocação da produção, dos encargos com a logística e de todo o desperdício, sabemos que, dado o modelo de negócio ancorado na venda massificada a preços baixos, ainda assim com margens de lucro incríveis em relação aos preços, não é um Universo bonito. Nem ideal. Nem simpático. Sabemos que não pratica nada daquilo que é correcto desde os nossos poleiros fáceis do “primeiro mundo”. É verdade.
Mas não seria de louvar, de alguma forma, que uma empresa destas dimensões, cujo modelo de negócio é aquele que conhecemos em linhas gerais, decida acrescentar ao seu paradigma uma linha que fomenta a produção consciente?
Se sabemos que as mentalidades mudam tão devagar e que tudo demora tanto tempo a mudar, porque é que em vez de celebrar uma iniciativa que desafia um modelo indefensável, se escolhe apontar o dedo?

miaA M.I.A. NÃO DEVIA

A Internet também vomitou um pouco em cima da M.I.A. porque ela não devia ter apoiado uma empresa destas. Mas ninguém parou para pensar que a M.I.A. e a sua arte também estão inseridas numa indústria cuja lógica é questionável… E também ninguém parou para pensar que a M.I.A. também pode ter aceite fazer esta coisa com a H&M porque consegue entender que isto é uma iniciativa que move muita coisa. Não só envolve o tão questionado cachet da Artista, como envolve uma manobra de marketing global e uma movimentação de capital, logística e de recursos humanos significativos para a empresa. Que prejudicam a facturação e que, numa lógica capitalista selvagem, impedem a empresa de crescer mais não sei quantos por cento por ano. É certo que isto assim dito faz de mim uma porca capitalista, mas é a realidade. E eu não sou uma porca capitalista, antes serei uma porca teórica.
Talvez a M.I.A. devesse porque é, de alguma forma, porta-voz de uma mensagem diferenciadora no seio da sua indústria, que atinge, de forma global, uma franja de público normalizada, porém sensível a determinados tópicos.

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A conclusão lógica nesta questão H&M x M.I.A. no âmbito da semana mundial da reciclagem é que a indústria Pop é um óptimo veículo de transporte para mensagens importantes.
Todas as marcas procuram alguém capaz de transmitir essa mensagem fora do contexto corporativo, que o façam com alguma arte, com alguma leveza. Encontrar um indivíduo capaz de transmitir uma mensagem corporativa é o petróleo desta década, porque o consumidor já não é bebé e já não quer ver a publicidade, prefere o filtro humano entre a marca e a relação que poderá querer estabelecer com ela.
Ao endossar o Artista, a marca deseja que a sua mensagem chegue a um novo local.

Porquê crucificar, agora, a H&M ou a M.I.A.?

Para quê acusar uma manobra de marketing que por acaso tem um bom objectivo?

O problema da relação do consumidor com o objecto, neste caso com a peça de roupa, é mais relevante do que a colaboração entre os dois gigantes, e é a origem do problema. Porque a relação entre o consumidor e o objecto está assente no princípio da novidade permanente, numa ideia de relacionamento frugal. O dedo está apontado numa direcção menos questionável que o modelo de consumo vigente.

H&M Conscious Collection 2016 está disponível desde 7 de Abril nas lojas H&M.

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