Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

hoje é dia de ir à missa

Às vezes digo aqui coisas sobre punk e sobre ser punk e sobre essa cultura que é mais ou menos conhecida do grande público, mas por causa do estilo punk, género o estilo traduzido em fotografias e moodboards em revistas e sites de revistas da especialidade.
Como não sou nem nunca fui muito fundamentalista relativamente a nada, não me preocupo em odiar directamente e a gritar que isso não é punk, porque punk é outra coisa. Até já workshops sobre punk eu dei, numa de espalhar a palavra.

A semana que passou, perdeu-se uma das figuras mais representativas e emblemáticas do punk em Portugal e eu fiz uma coisa muito punk que é menos punk porque estou no sistema, e punk que é punk não está no sistema, mas se está no sistema é tipo Amílcar Cabral e contamina desde dentro e infiltra-se a faz a coisa acontecer, convoca atenção e assim, para temas que são não temas para a massa crítica vigente, mas só vão poder ver isso se comprarem a TABU, do jornal SOL. Ou então esperam uns diazinhos e podem consultar o artigo online, acho eu.
Seja como for, é sobre o Ribas e sobre como o punk me salvou a vida.
Porque o punk salva.
Qualquer religião que se preze, quando descoberta por quem precisa de salvação, é a contingência que marca a diferença, que estabelece limites e obrigações, que institui novos cânones, que reacende a motivação perdida e que abre as portas da convicção.
Se eu fosse punk mesmo punk, nem sequer tinha um blogue, porque punk que é punk não tem blogues, porque não tem computador, porque não liga a essas merdas e porque não quer saber de ter uma casa com uma secretária e um computador e porque também não paga a conta da luz, porque vive numa okupa e faz puxadas; não aceita nem quer ser aceite, vive à margem da condição social, ostraciza-se e segrega-se a si próprio em movimentos de contaminação comunicantes entre si. Punk que é punk vive à margem do capitalismo e pratica coisas como o freeganismo e a ocupação de espaços para habitação própria. Punk que é punk, é assim. E é assim que têm de ser os profetas e santos do punk. Porque, se o punk é uma religião, tem de haver canonização de figuras, tem de haver gente que esteja lá nos pedestais punk, a ser mártir. São posições essenciais para a manutenção de uma religião que ainda agora começou a tornar-se acessível e global.

Como parto do princípio que os meus leitores não serão inocentes, é sabido que há aqui ao lado, do lado direito, uma banner da VANS e o que é que isso significa. Não vos enfio os dedos pelos olhos, porque aqui a tendência sempre foi a transparência.
Gosto da VANS e que a VANS gosta de mim e que existe uma certa dose de reciprocidade no nosso relacionamento, embora não seja nem pro surfer nem pro skater nem pro-nada-físico-radical. Sou do Teatro e das Artes Performativas. E eu acho que isso já é muito radical, pelo que tento sempre que vejam as artes performativas como uma amálgama de disciplinas marginalizantes, praticadas por um grupos de pessoas que também não conhecem limites, pelo menos no que ao conhecimento diz respeito. Mas como a imagem da minha cena nunca esteve muito em alta, há um longo caminho pela frente. Alta e baixa cultura? Não acredito em tal distinção, pelo menos em 2014.

A VANS está a lançar uma campanha que se chama OFF THE WALL, que não é necessariamente composta por uma coisa ou outra, é sobre os meios em que interage e se expressa e sobre a sua relação enquanto marca, com o consumidor final.
Sabendo qual é o seu consumidor final-tipo, a VANS TV começou então uma cruzada de comunhão com os seus fãs.
Embora seja muito abstracto para mim, que uma marca cujo objectivo é servir as necessidades de uma fatia da sociedade com um produto fiável, familiar, e em última instância clássico, se constitua como ídolo, não consigo deixar de entender que assim seja, pelo que amo ainda mais a dicotomia associada a este tipo de identidades que fazem com que a marca e o consumidor se confundam no primeiro passo: a escolha. Será a marca que escolhe, o produto ou o consumidor? O estatuto de ténis (ou sapatilhas) clássicos permite-lhe isso. Permite-lhe essa intemporalidade e transversalidade que faz com que se associem a crianças de cabelo verde, desportistas de desportos não muito convencionais e senhoras que compram as colaborações com a Hermès. Distender um conceito. Alargá-lo e maximizá-lo. É isto que faz da VANS uma marca que, para mim, se pode usar para qualquer ocasião. Há quem troque de saltos altos para umas sabrinas que leva na mala. Eu tenho sempre uns era brancos à mão. (E também… Nas festas… Em bom rigor ninguém nos vê os pés.)

Neste primeiro vídeo da campanha, retrata-se um backyard gig, que é na sua essência um concerto DIY de uma banda punk. O punk não viveria sem o DIY e o DIY não viveria sem o punk. Sendo o punk uma religião, um backyard gig é uma missa. Encenado ou não (porque nesta coisa dos objectos crus e reais, há sempre uma dose de matéria ficcional ou metaficcional), fica aqui o primeiro vídeo da série, que me tocou o coração. Não é pela arte, pela marca ou pelo compromisso. É pelo conteúdo. É porque eu nunca tive backyard gig ou qualquer tipo de gig de punk e sonhava com o dia em que iria ver as minhas bandas e conhecer as minhas pessoas, quando era adolescente. É porque quando me revejo num objecto, é difícil não querer que o mundo saiba que a profundidade das coisas é maior que aquilo que a nossa vida nos permite fazer.

Clickem no menino e vejam o vídeo.

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