Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

I’m on a food-free food diet.

De há uns anos para cá, parte do que é a ideia de cultura, i.e. Lifestyle, depende inteiramente da partilha incessante de duas práticas: a alimentar e a desportiva.
Desde que temos Instagram que levamos com as refeições das pessoas que seguimos, mais as vezes todas que vão ao ginásio, ao yoga ou fazer uma corrida, à qual agora se chama running. Também sabemos muito bem quem é que está a dar-lhe no crossfit e quem é que é vegan (normalmente também estão sempre a dizer-nos isso) e quem é que é paleo. E também sabemos quem é que é gluten-free por opção e não por doença Celíaca ou de Crohn, porque o gluten afinal é o pior inimigo da saúde. Ah – E o açúcar também, porque o açúcar é veneno e agora os pacotes de açúcar vão começar a vir com caveiras ou aquele símbolo de biohazard (não é a banda) e com mensagens como as que vêm impressas nos maços de cigarros.
Se há umas duas décadas os distúrbios alimentares da ordem do dia eram a anorexia e a bulimia, hoje é possível perceber que a febre do super healthy também se pode tornar uma super patologia, também super perigosa. Orthorexia. Há inclusivamente vários artigos sobre uma super green blogger chamada Jordan Younger ou The Blonde Vegan, talvez a primeira a padecer desta coisa da orthorexia e a falar sobre isso.

Esta semana que passou li um artigo do Boston Globe em que o chef de Gisele Bundchen e Tom Brady revela os segredos da sua dieta. E não podia ter ficado mais deprimida. No fundo o casal mais (preencha o espaço com um adjectivo a seu gosto) ____________ do mundo não come nada e alimenta-se de ar levemente salpicado por gotas de orvalho exclusivamente colectadas em tina de cristal posicionada debaixo de uma acácia australiana, no centro geodésico da ilha que é um continente e um só país, numa das três madrugadas de lua cheia da Primavera de cada ano.
O artigo funciona como um bom texto de comédia, sob a forma de entrevista, e é facilmente transformável em sketch da Porta dos Fundos.
Fica a dica.
Em linhas gerais o chef responsável pela alimentação da família Bundchen-Brady, Allen Campbell, prepara todos os dias refeições deliciosas (LOL) com um máximo de três ingredientes. Não é, mas é quase. A ementa é preparada com as mesmas restrições que as de um estudante universitário (come o melhor que puderes com três ingredientes, e esses três ingredientes são massa do Dia, uma lata de atum e ketchup ou maionaise de marca branca), só que em versão (atenção) plant-based, organic, gluten-free, GMO-free, sugar-free, caffeine-free, flour-free, pepper-free, mushroom-free, tomato-free, and dairy-free. É uma food-free-food diet!

Pergunto-me muitas coisas relativamente a esta dieta, mas acho que a primeira é: como é que o Tom Brady é quarterback de uma equipa de Futebol Americano e só come isto? Como é que ele aguenta os treinos e os jogos? Fará ele uma dieta destas assim super óptima e praticará aquela compensação de suplementos (que são todos químicos, não é?) aterradora? Ou come às escondidas como naqueles programas que dão no TLC?

Das várias bacoquices incluídas nesta dieta inflexível, gostaria muito de dissecar os frees:

Plant-based: plant-based que é como quem diz vegan, que é como quem diz, balelas, porque os Bündchen-Brady comem carne e peixe. Diz o chef que este plant-based se refere ao facto de comerem imensas coisas verdes, tipo, predominantemente. Mas é errado. Comem verdes e proteína animal. Veganismo de pacotilha.
Organic: ou em português, biológico. E isto do biológico é uma coisa que me tira do sério, porque há muitas imprecisões e muitas concepções erradas acerca do que é o biológico. Ser biológico não significa não conter pesticidas; aliás, quem achar/afirmar isso, desconhece profundamente o assunto. Mas bom, só consomem frutas e verduras e grãos de origem biológica.
Gluten-free: não há pão, não há torradas, bolachas, biscoitos, massas, bolos, cerveja, pizza, salgados, cachorros e hambúrgueres, queijo, ketchup, maionaise, molhos de pacote de qualquer espécie (molho das almôndegas do ikea, xau), barras de cereais, salsichas e no fundo tudo o que tiver centeio, trigo, aveia e cevada. O mais simples para perceberem a lista de exclusões do gluten-free é consultarem a dieta de uma pessoa que tenha doença Celíaca ou doença de Crohn. Podem também consultar o Gluten-Free Museum para uma abordagem mais conceptual.
GMO-free: são os famosos transgénicos; ao optar pelo biológico, por defeito, está a eliminar-se tudo o que é transgénico. Não é linear, mas é quase.
Sugar-free: vá lá que o açúcar das frutas e o açúcar natural dos alimentos não faz parte da blacklist do chef. Porque a avaliar por quem tem 3 máquinas para desidratar alimentos, é bem capaz de ter também uma máquina para extrair o açúcar das frutas. Não tenho dúvidas. Mas no fundo tudo o que tiver açúcar, xau. Sacarose é um sinónimo de açúcar. Acho que eles também não devem usar agave nem stevia nem açúcar de côco. Tipo, zero açúcar. ZERO. ZERINHAS.
Caffeine-free: tudo o que tiver cafeína. Que é uma coisa que não entendo. porque acho só bacoco. Na medida certa, beber café não é uma coisa assim tão ruim quanto isso.
Flour-free: que dizer que não consomem farinha de nenhuma nação, o que deve ser impossível, mas pronto… Porque em bom rigor é possível pulverizar coisas até fazer delas farinha. Creio que o chef se refere à farinha branca, aquela farinha das pizzas e dos bolos e assim.
Pepper-free: mais outra que não entendo, até porque a pimenta está associada a um sem fim de coisas boas no processo digestivo e é uma das grandes amigas da perda de peso. Não se entende.
Mushroom-free: ??? Esta juro que me passa ao lado, género furacão Alex nos Açores. Há certos cogumelos que não devemos comer, porque, razões. Mas… De resto, não entendo.
Tomato-free: porque diz que o tomate causa inflamação. Exacto. – Ai, estou aqui com o pé todo inchado… – Claro! Então, comeste tomate! LÓIS. Mas o tomate também é um óptimo anti-oxidante natural, e dizem que ajuda a prevenir vários tipos de cancro, e que são bons para os ossos, para o coração… Whatever!…
Dairy-free: lácteos, bye bye. O que também é bastante bizarro, porque isso significa que não há nada de queijo. E uma vida sem queijo, para que é que serve. #vidasprólixo Mas atenção que o que vêm sendo os lácteos são coisas óptimas para a pele, por exemplo.
Curioso que o chef não diz se a dieta do Brady Bunch é Alcohol-free. E esta é uma questão que me preocupa, porque uma pessoa só consegue viver com tanta restrição se estiver sempre com um copo de tinto bem aviado… Mas não havendo queijo, também, é indiferente…
Ou se é Drug-free. Pela mesma ordem de lógica. Só que esta parte ele não deve saber, deve ser outro chef. My bad.

OK, a única coisa que tento que a minha vida seja free é de coisas pré-feitas de pacote. Dá imenso trabalho, porque há certas coisas que os pacotes com a ajuda dos microondas preparam muito mais depressa e com recurso a muito menos utensílios e assim, mas pronto. Sou casmurra, o que é que querem!? Sabiam que tudo o que é de pacote tem açúcar? E sabiam que a maior parte dessas coisas todas free são de pacote e são no fundo sucedâneos empobrecidos de coisas que, na sua versão original já foram boas? Just sayin’… Isto se consumirem coisas free sem ter um chef em casa a preparar a vossa ementa com quinze dias de antecedência. Caso não se verifique o enunciado na linha anterior, vão consumir imensas coisas do pacote. E a Gisele não aprova.

Diz a maior parte dos médicos e nutricionistas que a eliminação de qualquer lote de alimentos e seus derivados é uma grande loucura, pois o corpo humano precisa de uma lógica de consumo harmoniosa entre todos eles: completam-se e ajudam-nos a praticar uma alimentação saudável e a viver, consequentemente, uma vida saudável.
É importante pensar nisto da dieta hiper-restritiva e em todas as coisas a que vemos o mundo ocidental educado a submeter-se, e reflectir. Pá, cinco ou dez minutos chegam para ler este texto e ver os links relacionados para formarem a vossa opinião sobre o assunto, independentemente do facto da Gisele ser a super Top do Mundo e o Tom, o super desportista.
Porque se ter um corpo é biopolítica, se ter um corpo é um acto social, comer, alimentar-se, também o é.
O artigo da dieta da família Bündchen-Brady Bunch revela uma das coisas que mais tenho vindo a notar ultimamente: o da necessidade de limitar para viver. Mas em quase tudo. É estranho que seja necessário estabelecer fronteiras, tangíveis ou não, para que a manutenção de uma vida aparentemente ideal seja efectivada.
Questões sociológicas da idade do Medo.

gisele-bundchen-tom-bradyTom e Gisele, ambos com cara de já quem comia qualquer coisinha.
o-TOM-BRADY-GISELE-NEW-YORK-APARTMENT-facebookTom e Gisele com ar preocupado à chegada de uma festa onde não sabem se o menu vai ser plant-based, organic, gluten-free, GMO-free, sugar-free, caffeine-free, flour-free, pepper-free, mushroom-free, tomato-free, and dairy-free.
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6 Discussions on
“I’m on a food-free food diet.”
  • Subscrevo tudo. Só uma pequena pseudo-correção: as pessoas que não podem comer gluten têm Doença Celíaca. A Doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal, que poderá beneficiar (em termos de diminuição dos sintomas) com uma restrição ao gluten (porque este implica digestões mais demoradas), mas o que se costuma aconselhar é até evitar alimentos com muita fibra, não o gluten em específico (até porque há alimentos pobres em fibra – o pão branco de trigo por exemplo – que têm glúten).

  • Ora bem.. sobre os cogumelos : há quem diga que absorvem tudo o que há de mau na terra. Tipo radiações e afins. E assim comemos tudo isso quando os comemos.
    Por motivos óbvios prefiro não saber isto.

    Sobre o Brady comer às escondidas : penso que sim! Baby Sitter incluída.

    *’s

  • Acho que este artigo está na mouche. Gosto especialmente do início. Quantas vezes dou um toque aos feeds e estão ensopados de fotos de running (como tão bem apanhaste) e pratos xpto. Obrigado por escreveres o que acho.

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