Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Just Google It!

Ninguém quer outra coisa desde que existe o Google!
Entre o surgimento do Google e a sua disponibilização em todos os aparelhos electrónicos, smarts e tudo e tudo, só não anda informado quem quer! Porque o Google é como a Wikipédia, só que com muitas mais vantagens!
O Google mudou a vida de todos nós e a forma que temos de analisar as quaisquer questões. A forma como nos deslocamos. O Google desruíu toda e qualquer chance de aventura, aniquilou a curiosidade e acabou de uma vez por todas com a linha atada no dedo mindinho, ou a cruz desenhada na mão em azul-esferográfica, porque pura e simplesmente, o Google permite saber tudo a qualquer hora.
Não sabe? Just Google it!, como no slogan da Nike!
De todas as coisas óptimas que o Google permite fazer e que não posso estar aqui a enumerar, destaco uma delas, a minha preferida, que é googlar doenças, conjuntos de sintomas, bulas e todo o tipo de informações médicas que deveriam apenas ser fornecidas por profissionais da especialidade. Só que é uma seca ir às urgências. E… Para quê ir às urgências, quando se pode tão simplesmente googlar um conjunto de sintomas? Para nada! Por isso, se tem sintomas estranhos, just Google it! – o resultado vai ser ge-ni-al!
Quantas vezes não nos apareceram já umas borbulhas ou umas comichões ou qualquer outro sintoma que não sabemos identificar e que não passa nem com o ibuprofeno genérico, nem com fenistil, muito menos com um ben-u-ron mil ou qualquer outra coisa que nos receitaram na farmácia? Muitas, não é? E quantas dessas vezes, desde que temos o Google sempre à mão, não decidimos muito heroicamente googlar os sintomas e ficar duas horas a suar da palma das mãos e às voltas em casa? Pelo menos umas MIL, não é?
Quando se googlam doenças, os resultados da pesquisa são quase sempre muito esclarecedores e ajudam imenso tudo quanto é indivíduo: não há uma combinação de sintomas que não nos reencaminhe directamente para um fórum de participação aberta, normalmente escrito em português do brasil, onde pessoas certificadíssimas por uma imagem de perfil aleatória e um nickname sugestivo, opinam e esclarecem quem não sabe o que é que se passa com o seu corpo. Essas são as pessoas que explicam a quem googla doenças que estão à beira da morte, com cancro ou com sida. Porque quando se googlam doenças, os resultados tendem sempre a ser devastadores.
Qual é então a excitação de se googlarem doenças? Porque é que nos fazemos isto a nós próprios? Com que intuito? E por que raio é que acreditamos no que nos dizem e ficamos depois a passar a vida inteira a pente fino, em busca de formas de contornar o diagnóstico que a internet forneceu?
Tal como qualquer site de rating de experiências pessoais, logo tendenciosas (olhemos para os sites de avaliação de restaurantes ou hotéis, por exemplo), os fóruns de saúde online são absurdos e ninguém deveria confiar neles, muito menos em circunstâncias de aflição, quer seja ela ligeira ou moderada. É absurdo. Porque se levamos a vida a aprender e reforçar a ideia de que não podemos confiar em estranhos, por que raio vamos nós confiar nos intervenientes desses sites, que ainda por cima escrevem com erros ortográficos enquanto narram as piores experiências das suas vidas? Porquê? Será a busca incessante de emoções fortes a baixos preços? Será o medo de saber a verdade verdadeira? Será por comodidade?
Googlar tudo é uma das mil formas de passividade do hoje, é uma desresponsabilização individual enorme face aos graus de seriedade de qualquer tipo de problema. E se às vezes acredito que o Google é o meu melhor amigo, também temo que possa vir a tornar-se o bode expiatório de uma geração entorpecida e ignorante. E acho que é só esperar até alguém processar a Google, nos EUA, e ganhar.
Creio que a isto do googlar tudo (e eu que o diga, porque acredito sempre imenso no Google Maps, por exemplo, e às vezes acabo a dez quilómetros de onde deveria estar, só porque confiei na senhora que me vai dizendo o caminho) não se pode chamar faca de dois gumes. Seria injusto.

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