Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Las Lolas

No triplex com um terraço invejável num prédio no mínimo kitsch do Eixample Esquerra, em Barcelona, vivíamos eu, a Guada, a Maribel e a Susi. Entrava-se para o nosso apartamento por um átrio dividido em três escaleras. As paredes eram forradas num tecido adamascado em grená escuro e ao centro uma fonte de granito cor de rosa que em tempos deitou água dos seios da mulher roliça que lá estava sentada numa bilha. Uma floresta de plástico e muitos espelhos fumados de molduras douradas depois, chegávamos ao elevador que nos levava à porta do àttic.
A Susi vivia no quarto do primeiro andar do apartamento onde ficava a sala, uma das casas de banho, o hall e a cozinha, eu e a Guada vivíamos no segundo andar, com dois quartos, uma sala com o tecto todo em clarabóia e uma casa de banho, e no terceiro andar, num quarto recuado com casa de banho, walk-in closet e um espaço de sala, vivia a Marivel, que era mais ou menos quem mandava no terraço, de onde se via toda a cidade e que muito poucas vezes teremos disfrutado.
Fui dar a este apartamento através de uma conhecida de uns conhecidos que ia sabe Deus para onde em tour com umas bandas punk do super underground dos EUA, que eu gostava e que conheci numa noite em Lisboa, com quem simpatizei imenso, que me deu o seu número de telefone e disse para eu o usar caso fosse admitida no mestrado ao qual me estava a candidatar, em Barcelona.
Fui admitida. Liguei-lhe. Fiquei com o quarto dela. Só precisava de lhe dar três rendas adiantadas em dinheiro no dia que lá chegasse, coisa que fiz, sim, andei com um envelope cheio de notas por toda a península.
Quando cheguei ao triplex viviam nele a Guada, o dono da casa que entretanto desapareceu e alugou o quarto dele à Susi e arranjou a Maribel para o terraço mesmo antes de desaparecer após um longo período passado no sofá a comer amendoins torrados com mel e sal e a ver televisão enquanto chorava por uma namorada, a Manu.
A casa ficou entregue a quatro miúdas.
Éramos nós.
Passado uns meses de vivermos juntas, deu-se o até então inédito: numa manhã de quinta-feira, chuvosa, em Janeiro, estávamos todas em casa por motivos diferentes.
A Susi tinha a porta do quarto aberta directamente para a sala, envergava pijama polar cor de rosa com pantufas muito proeminentes, também elas cor de rosa com animais indistintos entre o coelho, o rato e o ursinho fofinho. Tinha a maquilhagem dos olhos esborratada como sempre e olhava com fúria para o portátil.
Eu desci apenas em roupa larga fato-de-treinosa e ténis, que sempre tive um medo de me esbardalhar escada abaixo, que nem vos conto!…
Enquanto estava na cozinha a fazer o meu café com leite (eu sou uma chata com o café com leite), ouvi a Guada descer e acender a televisão. Ouvi ainda a Susi a conversar com ela e a concordarem sentar-se no sofá. Ouvi os passos pesadíssimos da Maribel nas escadas e a voz melosa e dengosa e o sotaque venezuelano a aceitar o convite do sofá. Decidi juntar-me em vez de beber o café com leite na cozinha.
Estava a dar o programa da Ana Rosa Quintana.
Entre a sweatshirt XXL da Maribel e a capa tripalhoca da Guada, sentei-me tipo genérico dos Simpsons: apertámos as nossas ancas que na altura ainda não mentiam e consguimos encaixar todas no sofá outrora ocupado pelas mágoas do José.
E ali ficámos até às três da tarde, numa manhã invulgarmente longa e fémina para mim.
A emissão sucedia-se paulatinamente até que começa a dar uma novela venezuelana e Maribel lança o debate subordinado ao tema “Operações Plásticas, O Flagelo”.
E começam todas a falar sobre operações e silicones e botoxes e um sem fim de coisas que a Maribel esmiuçou ao máximo e sobre as quais todas pareciam ter opiniões fortíssimas. Devo dizer-vos que Guada e Susi eram ambas andaluzas e que aquilo era uma sinfonia de sotaques no meio de opiniões, no meio de gritos, escândalos, comentários e denúncias sobre celebridades com, outras sem, as que tiram, as que põem, as que cortam… E eu calada. A minha opinião dessa altura é a mesma que a de agora, que é quem quer põe, tira ou então deixa-se estar, mas eu sou livre de me divertir ou não com isso enquanto espectadora. Partilhei que no meu caso, nunca considerei uma operação plástica porque acho que se perde imenso tempo a recuperar e porque cirurgias desnecessárias são só uma estupidez.
A determinado momento, no meio daquela algazarra espanhola, a Susi que era muito provocadora, pergunta a minha opinião sobre as plásticas e eu disse exactamente o que já disse.
Assassinei o debate.
Franziram-se caras, levantaram-se sobrolhos, retorceram-se lábios.
Cada uma pegou no seu pijama e foi embora.
Deixaram-me ali na sala, sentada no sofá onde nunca me tinha sentado até então, sozinha.
Saí para ir ao supermercado do El Corte Inglès, onde às terças e quintas havia o único pão comestível na Catalunha, e quem me tira o café com leite e a torrada com manteiga e doce de tomate ao pequeno-almoço, tira-me tudo, pelo que lá fui eu em busca dos sabores encantados que sempre me serviram para matar saudades de casa.
Perdi-me em passeios e cheguei ao fim da tarde.
O triplex que naquela manhã parecia um arraial, estava agora entregue ao silêncio sepulcral que uma pessoa tanto deseja quando vive com mais pessoas.
Fui directamente para a cozinha fazer o meu jantar, que naquele dia foi elaboradíssimo, porque no meio de tanto silêncio e depois de lavar a cozinha, era possível confeccionar uma refeição decente. Fiz uns frutos secos de cação, que é uma coisa divina que só a minha Mãe sabe fazer. E as saudades que tive da minha Mãe estes anos de emigrante!…
Enquanto mexia o caldo encarnado na panela, começaram a entrar as outras inquilinas. Primeiro a Guada, sempre aceleradíssima entre uma festa e outra, vinha só um bocadinho, mas cheirava muito bem, Joana! UAU! Subiu as escadas. Desapareceu. O caldo continuava a apurar e eu estava à janela da cozinha, que dava para o saguão que tinha imensa vida àquela hora, quando entra a Maribel no seu registo vou-para-a-cama-agora-já-imediatamente-às-sete-da-tarde-porque-estou-sempre-cansada e também sumiu.
Quando estava a dispôr o pão decente no fundo de um prato fundo para lhe pôr por cima  o “cação” e depois verter delicadamente o caldo e saborear a minha identidade, chega a Susi de patins em linha e headphones, ainda mais acelerada que a Guada, com uma agenda.
A Susi estava muito zangada comigo e sabia-o e ainda bem que me apanhava.
Patinadora exímia (em tempos que já lá vão tinha sido patinadora num supermercado em Sevilha), de um só movimento encostou-me à janela aberta do saguão, espetou a mão na parede e elevada pela altura das rodas dos patins, encurralou-me e começou mesmo coladinha à minha cara:
– NÃO GOSTEI NADA DO QUE ME DISSESTE ESTA MANHÃ SOBRE AS “LOLAS” DE PLÁSTICO!!! NÃO GOSTEI MESMO NADA!!! OLHA AGORA!… MAS QUEM É QUE TU PENSAS QUE ÉS, HEIN? Ò PORTUGUESINHA DA MERDA! ERA O QUE MAIS ME FALTAVA! SER CRITICADA NA MINHA PRÓPRIA CASA!!!
Continuava o disparate em alto e bom som quando apareceram na porta da cozinha as outras duas, a ver ao longe aquele despautério. Eu não conseguia nem sair do pequeno buraco onde estava encurralada, nem defender o meu ponto de vista nem explicar nada, porque aquela mulher vinha muito zangada:
– LAMBISGÓIA! SE EU FOSSE COMO TU, MAGRELA DE MERDA, NEM SEQUER PENSAVA DUAS VEZES!!! AOS DOZE ANOS TINHA LOGO COMEÇDO A FAZER UM MEALHEIRO PARA PÔR MAMAS! PARA TER ALGUMA COISA! SE TEM LÁ AGORA ALGUMA GRAÇA SER UMA LAMBISGÓIA COMO TU!!! PFFFFFF!!!
Como a Susi não parava de crescer para cima de mim e a altura da casa era imensa e o crime era de evitar, a Guada decidiu intervir e pelo menos puxá-la pela mochila, o que no fundo era tudo aquilo que eu precisava, porque ela estava de patins e por melhor patinadora que fosse, teria de deslizar para trás sob pena de, perdendo o equilíbrio, cair ali à minha frente enquanto me enxovalhava. Sei hoje que mesmo que ela tivesse caído continuaria a enxovalhar-me na boa e eu continuaria imóvel e impotente.
A coisa amainou, a Maribel foi a chorar para o quarto, muito abalada com tudo aquilo, acompanhada por uma caixa de Chocapic que retirou da sua prateleira do armário e eu voltei às sopas frias, que pus novamente a aquecer para refazer o meu prato e intentar a memória.
Sim por não, a Guada continuava na cozinha, porque a Susi continuava na cozinha, e de patins. Era uma bomba relógio, e a outra queria garantir o meu bem-estar.
Estava eu a levar a primeira colherada – por esta altura bastante merecida – à boca, vira-se a Susi que, novamente de um movimento de patinagem artística dá uma volta de 180º posicionando-se à minha frente e abrindo, de um só gesto, a sua camisola.
Os meus olhos, dois pratos.
Os frutos secos de cação que iam na minha primeira colherada escorreram e pingaram e salpicaram-se todos da altura entre a minha boca e o prato – que são uns cinquenta centímetros – e as nódoas de paprika com que a minha camisola viria a ficar ainda hoje se mantêm.
À minha frente, sem barreira nenhuma, um par de mamas.
Redondas, cheias, hirsutas mas com boa queda, de aspecto suave e com uns mamilos inquiridores, túrgidos e ecuros. Estavam ali mesmo à minha frente, em toda a sua pujança, impressionantes. O peito de Susi não oscilava com uma respiração ofegante, porque ela não estava nervosa. Estava só a confrontar-me com as suas “lolas”.
– TOCA-LHES. – Disse-me ela num tom imperativo-sugestivo.
– Não, obrigada – respondi eu – estou a tentar jantar.
– TOCA-LHES! – Insistiu ela com as mamas cada vez mais em cima da minha cara, enquanto a Guada estava imóvel com o queixo no chão, género desenho animado japonês.
– Não, obrigada, a sério.
– TOCA, CARALHO!
– Já disse que não, Susi, a sério, por favor, deixa-me jantar. Não sei o que é que se passa, mas não quero mesmo tocar.
– EU NÃO SOU FUFA, MAS TOCA-LHES LÁ, CARALHO!
– Obrigada, Susi, sinceramente, e do fundo do meu coração, agradeço quereres partilhar comigo as tuas “lolas”, mas não me apetece tocar-lhes… Não leves a mal… Talvez noutro dia?
– TOCAAAAAAAAAAA-LHES!!!
– Susi, por favor, a sério… São muito bonitas. Eu não tenho nada que se lhes compare, se quiseres até te mostro, também, mas… Não me apetece. Não insistas. Vá lá…
A esta altura já eu tinha as mãos tão escondidas debaixo do meu rabo, que acho que estavam de fora apenas as secções do cotovelo para cima. Até que a Guada interviu:
-Vá lá Susi… Ela não quer.
E a Susi afastou-se até ao frigorífico.
A Guada sentou-se à mesa comigo para ter a certeza que a outra desistia do frontin’ à pobre da “portu”.
Voltou a rodopiar nos patins e gloriosa, de mamas de fora, patins em linha e mochilinha aos ombros, no meio da cozinha, com uma lata de Estrella Damm na mão, fez um gesto à Guada com a cabeça, para ela se ir embora, demonstrando-lhe que estava mais calma.
A Guada afastou-se apenas até à porta.
Dois dedos ágeis abriram a lata que arrefecia a mão da Susi. Levou-a à boca, deu um gole profundo e ordinário na cerveja. Com o peito assim descoberto, era possível ver-se o líquido a deslizar pelo esófago até aterrar no estômago.
-Joana, desculpa. A sério. Desculpas?
Encolhi os ombros – Sim?!?!?!?…
– A sério. Desculpa. Fui uma mulher de sucesso. Muito sucesso. Aos 18 anos ganhei um prémio de Moda, como designer. Fiz um vestido todo em fatias de presunto Cinco Jotas e ganhei uma bolsa de estudo para ir para Madrid estudar Moda. E fui. Só lá estive um ano, depois voltei para Sevilha e fui aprender a costurar com uma Mestra que me ensinou tudo. Voltei porque tinha um namorado com quem tive de me casar antes de ir, comprar uma casa e fazer essas coisas e ele insistia muito para eu regressar. E eu vim. Fazia vestidos e desfiles e coisas relacionadas com Moda, mas nunca nada muito sério, porque ele me batia muito e eu havia dias que mal me conseguia mexer. O meu ganha pão a sério eram as noivas, que fazia muitas. Quando consegui divrociar-me e vender a casa, aos vinte e seis anos, finalmente, tinha emagrecido tanto que nem me reconhecia. Um amigo gay levou-me com ele para Londres para trabalhar e viver com ele. Para me tirar da fossa, sabes? Eu tinha o dinheiro todo da casa estacionado na conta. Não conseguia sequer ver-me ao espelho. Nem era por estar magra, era porque as minhas mamas, as mamas que eu já tinha tido, eram agora duas peúgas na chaminé à espera do Pai Natal. Pedi ao meu amigo que me conseguisse um cartão de saúde inglês que eu nunca falei, e fiz a operação. Ele explicou ao médico que eu só queria encher o espaço que já tinha, mas que estava vazio.
Eu expliquei-lhe o que eram frutos secos de cação, reaqueci tudo novamente e fiz-lhe um prato.
Jantámos à luz das suas mamas.

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