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YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

LEVI’S ORANGE TAB | Il viaggio a Milano

Há já algum tempo que a Levi’s corre atrás dos ícones, sem necessidade nenhuma.
A Levi’s é, no mundo ocidental, uma referência tão transversal que é muito mais do que um clássico, é um dado adquirido, um valor seguro. Um ícone incontornável. Daí que não tenha de correr.
Tanto se pode ver a Levi’s como as calças que fazem o melhor rabo do mundo, como se pode vê-la como a marca do Mr. Oizo e da associação da electrónica ao denim, como podemos olhar para a Marilyn em John Ford (já aqui escrevi sobre isso), como podemos simplificar tudo e dizer tão simplesmente que a Levi’s é a marca do casaco de eleição de Einstein.

Apesar daquela piada dos anos noventa do menino que queria umas calças Levi’s e o pai lhe respondia com a pergunta porquê, a tuas são pesadas?, a Levi’s tem o peso icónico da codificação não verbal mais significante da cultura popular. Desde colecções com a Chiara Ferragni a colecções com a NBA, a colecções revivalistas, à criação de uma linha consciente e à implementação de uma secção de customização e reparação de peças em pelo menos uma loja por país, a Levis soube muito bem manter-se erguida após as reviravoltas do final da década de noventa e início dos anos zero.

Durante a Semana de Moda de Milão, a Levi’s levou-me a mim e à Raquel a Milão, para ver a nova colecção da etiqueta Orange, cuja origem remonta à mítica década de sessenta do século passado.
Muito simplesmente, a Levi’s lançou, na década da paz e do amor, da emancipação da juventude como período importante e único no crescimento e formação do adulto por vir, uma linha de roupa adaptada a essa gente: mais barata, com cortes que satisfizessem as suas necessidades e as da moda vigente. Janis Joplin e as bocas de sino, por exemplo. Tudo made in USA. Porém, os anos de produção da etiqueta cor de laranja não foram muitos, embora os modelos tivessem uma boa aceitação por parte do consumidor. Nos sessentas e nos anos de produção que se seguiram, a cena ainda era a construção de peças para durar. Chegaram a todos os cantos do mundo, é um facto, mas algures a meio da década de setenta, a produção da etiqueta cor de laranja foi afrouxando, até que terminou. Foi o fim da era do rock and roll e do punk. O que era stock da linha descontinuada foi escoado, e os ciclos de produção de todas as linhas clássicas que se mantiveram e surgiram alteraram-se de forma drástica, tendo a Levi’s tal como quase todas as marcas globais, passado a fabricar maioritariamente fora dos Estados Unidos, por forma a oferecer preços cada vez mais competitivos, seguindo a tendência de consumo mundial, até chegar a um período controverso e muito conturbado, durante a década de noventa (curiosamente a década em que se registaram os maiores recordes de vendas da história da marca e também o maior sucesso de sempre, devido à sua associação com todas as estrelas, da pop ao punk), com greves e pagamentos de indemnizações tão chorudas que se tornaram históricas, a trabalhadores precários um pouco por todo o mundo.
Enquanto marca, a Levi’s sofreu nove anos de perdas consecutivas.
Ainda assim, enquanto por um lado definhava, por outro, no universo paralelo do vintage e dos coleccionadores, determinados modelos da Levi’s atingiam valores históricos e dignos de uma marca de luxo, sendo que todo e qualquer modelo da etiqueta laranja, made in USA, especialmente os do E maísuclo, passavam a ser revendidos a preços proibitivos. Porque a qualidade da etiqueta laranja e o envelhecimento das peças eram únicos e mais do que apetecíveis. orange tab

É então que, no despertar da nova década em que vivemos, os anos dez, a Levi’s começa a reeditar linhas vintage, motivada pela crescente procura dos seus produtos icónicos. Ao abrigo dessa reprodução de clássicos, chega-nos a Orange Tab, inteiramente made in USA, apenas imbuída do espírito livre dos setentas, que voltamos a viver, com a novíssima novidade de ser uma colecção genderless. Gajos barbudos, motas, guitarras distorcidas, saudades do Lemmy, uma piscadela de olho ao revivalismo do surf e da sua cultura associada, simplicidade, durabilidade, resistência, versatilidade.

Foi isto tudo que fui ver a Milão, durante aquela altura do ano em que toda a gente anda impecável pela rua, não vá aparecer um fotógrafo de street style com meio milhão de seguidores.

O espírito verdadeiro da coisa na sua versão 2.0 será bem traduzido na cena Kings of Leon circa ano dois mil.
E o resto é história da cultura popular. O resto são tempos que não nos pertencem.

Ainda assim, as minhas primeiras Levi’s compradas para mim, sem terem sido usadas por ninguém antes de mim, só minhas todas minhas, foram Orange Tab, compradas nos Porfírios da Rua da Vitória, na Baixa, em 1993. A partir desse dia cristalizei para sempre o meu total look ganga, composto pelas calças, camisa e casaco, tudo Levi’s, tudo Orange Tab, que usava religiosamente, com Vans. Era assim que pedia aos amigos do meu irmão que me gravassem cassetes com bandas a sério. Era assim que ouvia Metallica e Guns e Offspring. E era Orange Tab porque eram mais baratas, eram modelos que já não se fabricavam e que estavam empatados. E foram as primeiras calças que me chegaram aos tornozelos. 22

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