Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

LIMPEZAS DE VERÃO

Por acaso ia escrever “caianças”, do verbo “caiar”, mas achei que se calhar era melhor não, porque pode que haja quem não sabe o que é caiar e ainda me caía tudo em cima.

Em primeiro lugar, meux amygx, a TRASHÉDIA não morreu, não está morta, mas também não ressuscitou.
Esteve em pausa.
A vida assim o ordenou, e sendo a TRASHÉDIA uma extensão da vida, a pessoa obedeceu, sem remorsos.

Regresso hoje com um tema que me é muito caro, que é muito caro à ordem do dia e que pode mesmo vir a desempenhar um papel qualquer nas vidas de quem vier ler.

LIMPEZAS DE VERÃO.

Está mais do que provado que limpar, deitar coisas fora, separar aquilo que se quer do que não se quer, rasgar os setecentos talões de multibanco que atafulham a carteira, organizar as facturas, por de parte o que já não serve, ver na despensa que as latas de conserva já passaram do prazo, faz bem à saúde psicológica do indivíduo.
No meu caso, sei que faz bem, porque vá, se calhar faço esse tipo limpezas com muita frequência…
Desde que me sucederam determinados eventos na vida que tento não acumular, não comprar em excesso, não ter só porque sim. Relativamente a todos os objectos. Não tendo sido, jamais, viciada em compras, gosto mesmo mesmo de não ter. De ter só uma coisa de cada.
E depois há, para além de tudo isto, a ecologia, que não é só separar o lixo.
A noção de ecologia estende-se para lá de um código de cores e depende de um conjunto de acções e medidas do indivíduo em prol do colectivo. É uma coisa que no início é de policiamento pessoal, até que se entranhe nos hábitos quotidianos. Porém, e porque é muito difícil viver uma vida mais verde numa base frequente, têm vindo a ser publicitadas iniciativas de marcas, corporações, associações, colectivos e organizações espontâneas e não espontâneas, cujo objectivo visa sensibilizar o indivíduo, que neste caso é consumidor, para o impacto da sua forma de consumir no meio ambiente. O capitalismo afectivo também tem sido utilizado para que o indivíduo se observe a si próprio. Há desafios online para reduzir os plásticos nas compras de supermercado, levar os próprios sacos, comprar a granel, etc… Só que às vezes é mesmo muito… FÁCIL não ser eco.

Tive muitas dúvidas quando pensei neste texto, porque é assim que as coisas são agora, e por isso pensei que era fixe explicar porque é que este é o meu texto de regresso:
A minha cena com a preocupação ambiental vem de muito longe. É fixe ter nascido nos anos oitenta e ter beneficiado de uns Pais que me foram educando nesse sentido, desde pequena. Agora que penso nisso, já pratico “upcycling” de roupas desde que nasci, porque sou a mais nova e usei do mais velho; mas mesmo quando chegou a hipótese de usar só meu porque assim o mercado já nos dizia que era possível e estávamos na CEE cheios de guita dos empréstimos, recebia roupas de primx que usava feliz. Depois na adolescência descobri umas roupas que eram da minha Mãe e da minha Tia e comecei a usá-las com fervor, combinadas com roupas que eram do meu Pai. Isto surge porque o meu ídolo aos 12, 13 anos, era a Janis Joplin; nesse Natal recebi uma biografia dela, em espanhol, onde se descrevia que ela vestia roupa de homem para ir para o liceu, costume muito pouco aceite ou bem visto na época, e a música de que ela gostava não era para ela. O seu maior ídolo era a Bessie Smith. [Não sei se está no Spotify, mas é de ouvir]. Ora bem, desse Natal em diante, era óbvio que era impossível vestir outra coisa que não as calças do baú da minha Mãe, camisas do meu Pai, e nunca roupa que não tivesse pertencido a, pelo menos, duas gerações antes de mim. Muito camisolão de malha tricotado nos anos setenta e uma botas do meu Pai que ainda hoje uso. Da Janis ao Punk foi um pulinho e depois descobri muito rapidamente que havia uma coisa chamada “Anarchist Cookbooks” e procurei desesperadamente um. Acabei por ir dar ao Days of War Nights of Love e assim se libertou a activista em mim. Mas enquanto criança, já era sócia da Quercus, já tinha o meu primeiro livro de como reciclar, e já chagava imenso a família inteira sobre poupar água dos autoclismos e sobre reciclar plásticos e papel reciclado e assim. Depois cresci no campo e isso também ajuda bastante.
A Moda veio depois. Até entrar para a ESTC, a Moda para mim não conhecia fast fashion, eu não ia a centros comerciais e não tinha quilos de roupa. Ou de sapatos, ou de acessórios. Andei com a mesma mochila mais de dez anos e só me separei dela quando se desfez, por exemplo. Depois trabalhei muito tempo numa loja vintage, o que ajudou imenso a apurar estas coisas que hoje em dia lutamos desesperadamente por incutir numa população que ainda acha excitante que haja marcas a lançar colecções quinzenalmente.

Ontem dediquei-me àqueles trabalhos incríveis que contemplam separar as roupas e sapatos dos meus Filhx, ver o estado dos brinquedos, afiar os lápis de cor e os de cera também, fazer uma limpeza à gaveta dos medicamentos para os ir entregar na farmácia e questionar brutalmente a minha forma “ecológica” de estar na vida.
ATENÇÃO – analisando a cena friamente, não estou nada mal. Não preciso do livro da Marie Kondo para nada. Não possuo em excesso porque não sou uma compradora compulsiva.
No entanto, porque o importante deste texto é mesmo a auto-análise, dei por mim a despejar uma gaveta atulhada de maquilhagem que nem sabia que tinha.
Uma vez a Sílvia, maquilhadora do Canal Q que tanto estimo, antes de gravar um Super Swing mandou-me por batom, e eu fui por. Uso sempre o mesmo, da MAC, ela perguntou-me qual era a cor, eu respondi e ela diz-me que “agora quando lá for entregar produtos, peço um desses”.
Sempre achei que fosse um mito urbano, essa campanha da MAC.
Peguei nos meus sacos e fui ao El Corte Inglès, de resto o melhor sítio para ir quando se precisa de alguma coisa, em busca da reciclagem de maquilhagens encantada.
Cheguei-me ao balcão da MAC e perguntei se recebiam as maquilhagens. A rapariga disse-me que sim, mas o sim menos afirmativo de sempre. Perguntei se recebia produtos de outras marcas e recebi outro sim também muito pouco afirmativo. E perguntei-lhe se eu não tinha direito ao tal produto gratuito por cada seis produtos. Mais um sim dos que já vos disse e um pode escolher que também não lembra a ninguém. Queria o mesmo batom de sempre, por isso não precisei de escolher. Perguntei porque é que estava a ser tão difícil que me falasse do BACK TO MAC, que é uma campanha que existe há algum tempo e que está no site da marca… Bom, lá consegui arrancar-lhe um sorriso, mas com muito muito muito esforço.
Continuei a minha tentativa de entregar os produtos e fui à Chanel, onde ao longo dos anos fiz um belíssimo amigo, o Daniel, e perguntei a mesma coisa: “dá para reciclar? porque estas embalagens são muito complicadas na sua composição e acho que fechar um saco e atira-lo para o ecoponto amarelo é uma espécie de crime”… Ao que ele me respondeu que sim, que “é possível entregar, pelo menos no El Corte Inglès, as maquilhagens que não usamos, para que sejam depositadas num contentor específico para elas. O mesmo com frascos de perfume, por exemplo.”
OK.
Achei que era importante dizer-vos isto, porque acho que Agosto é um mês muito clássico na abordagem que lhe fazemos e que as limpezas são transversais e que acabamx todx por encher sacos com famílias de coisas cujos destinos já deveriam ser óbvios, mas que não são e que é preciso trazer o trash para a mesa de debate, e não apenas a compra.
Sabem?

Eu gosto muito de tomar banhos no mar.
Acho mesmo fixe. Ainda por cima o surf cá em casa é muito importante.
Mas o mar está muito sujo.
Há mil formas de agir para que não vá tudo parar ao oceano.
E tanto quanto sei as sereias não se maquilham.

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