Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

MARIBEL

Já tinha este texto alinhavado quando o deixei para me dedicar à secção das Marias Capazes de Moda.
Voltei a este texto porque estava muito insatisfeita com ele, por me parecer que era mais um igual ao das Lolas. E pus-me a pensar por que raio seria este texto igual ao das Lolas. Seria pelo conteúdo (mais uma história de um coração esmigalhado e um desejo de redenção)? Seria pela forma? Seria pela potencial realidade dos factos.
Depois percebi porque é que este texto estava aqui na pasta das coisas inacabadas.
Acho que quase todas as histórias de Barcelona são assim sobre a tentativa de suplantar o que não foi, num movimento eterno e enganador, que adia a tomada de decisões, o crescer ou a assunção de uma vida adulta. As histórias de Barcelona são um bocado sobre aquilo que vivemos agora em Portugal com a partida dos nossos amigos para o estrangeiro em busca de um sonho laboral, que na verdade é a forma simpática de camuflar o verdadeiro sonho, o de adiar o crescimento porque crescer é um secador e dá imenso trabalho.
Não estou certa se irei continuar a partilhar histórias destas de Barcelona, porque por muito que as ache divertidas, elas são no fundo muito tristes e reflectem a solidão e o quão a sociedade nos faz sentir desajustados, sempre, e individualmente.

Cá vai:

Depois do episódio com a Susi, a casa ficou assim com um ambiente digamos que pró tenso.
Qual leoa, a Susi dominava o apartamento todo, especialmente o primeiro piso, o da área comum mais importante, a cozinha. Eu que de facto passo imenso tempo na cozinha posso garantir que o ambiente naquela em especial, era de cortar à faca. Se não estava, a Susi fazia questão de estar: ora deixava o piercing do umbigo de molho num tachinho em cima do fogão (que era o tachinho que alguém usava para aquecer o leite), ora eram os restos da salada de acelgas com lombos de sardinha (porque ela seguia a dieta do grupo sanguíneo do Dr. Adamo) que ficavam a polvilhar o ar com o seu cheiro característico.
Como eu era a única que ozinhava, eu também era a única a quem o piercing fervido no tachinho fazia alguma confusão, pelo que também percebi que o ideal para o bom funcionamento da casa seria empregar alguma diplomacia e contornar o assunto, airosa. Levava o meu prato para o andar intermédio e comia sentada à mesa, em frente ao computador, enquanto via séries no YouTube.
A Maribel tinha uma cara muito bonita, uns olhos azuis escuros muito redondos, um nariz longo e arrebitado como um escorrega de um parque aquático e muitas sardas nesse mesmo nariz. A boca era grande, cheia de dentes sólidos, muito brancos, e os lábios eram carnudos e clarinhos, sem um desenho muito definido, assim como se fossem duas salsichas frescas juntinhas a fazer um sorriso. Tinha o cabelo comprido, de um ruivo escuro muito bonito, sempre muito bem penteado no dia que o lavava, menos bom no dia seguinte, e péssimo no terceiro dia, porque o pobre triste nem sequer aguentava três dias sem ser lavado.
Mesmo naquelas fotos tipo passe do canto superior direito dos CVs fotocopiados ad infinitum que a Maribel enviava para todos os anúncios de trabalho que achava decentes, a cara dela ficava incrível. Parecia o ridiculously photogenic guy.
A cara da Maribel era sem dúvida o seu cartão de visita enquanto procurava trabalho como designer gráfica numa cidade onde o mercado estava saturadíssimo. Era chamada para ir a quase todas as entrevistas a que se propunha, mas acabava por nunca ficar com o trabalho e não sabia porquê. Entretanto trabalhava numa loja de crianças new age no Carrer de Sèneca, onde passava os dias a deprimir e a ir ao café da frente buscar pratinhos de bravas com alioli.
A depressão constante da Maribel era proporcional à quantidade de pacotes de Chocapic que apareciam no lixo.
Uma noite estava eu a comer uma sopa de espinafres na minha mesa do piso intermédio, vem a Maribel com todo o seu peso físico e psicológico e na aura (eu que não sei nada de auras, tenho a certeza que a dela pesava uma tonelada, pelo menos sentia-se isso) e senta-se na cadeira ao lado da minha.
Vinha para fazer conversa.
O rabo transbordava-lhe das calças e por sua vez dos braços da cadeira de escritório e isso incomodava-a silenciosamente. Nos sacos que transportava consigo, duas caixas de Chocapic, um volume de cigarros, Gilettes, bandas Veet, descolorante e uma garrafa de dois litros Coca-Cola.
Pensei que fosse ter um date.
– Que é que estás a comer?
– Sopa de Espinafres.
– Hum… Nunca comi. É típico de Portugal?
– É… Em Portugal come-se muita sopa. Eu como muita sopa. Adoro sopa.
– Pois. Eu vejo-te sempre com uma tigela.
– Pois.
A conversa com ela nunca tinha por onde animar, e isso era muito difícil de gerir, porque ela desanimava sozinha mesmo que a estivéssemos a puxar para cima, e acabava sempre por fugir e por se fechar no quarto dela, lá na varanda.
Depois destas três frases sentada ao meu lado, quis levantar-se para subir até ao quarto dela, mas não conseguia desencaixar o rabo da cadeira. Eu só reparei quando ela, já com as bochechas roxas, começou a chorar compulsivamente e abandonou os sacos todos no chão, deixou cair os braços e ali ficou a soluçar.
Levantei-me, percebi o que é que se passava e abracei-a até ela se acalmar.
Da forma mais discreta que pude, ajudei-a a desencaixar-se dos braços da cadeira.
Ela agarrou nos sacos e subiu as escadas para o quarto.
Assim que fechou a porta do quarto, peguei numa chave phillips e tirei os braços todos às cadeiras da nossa mesa do piso intermédio.
Uns dez Un-break My Hearts da Tony Braxton depois, a Maribel desceu com o saco das Gilletes, do descolorante e das bandas Veet e trancou-se na casa de banho.
Uma hora depois veio e sentou-se ao meu lado novamente, na cadeira já amigável, enrolada na toalha, mas à mesma com o saco em cima dela. O cabelo estava volumoso e macio, já seco, e caía-lhe em cachos pelas bochechas vermelhitas do calor da água do banho prolongado.
Era a primeira vez que a via sem maquilhagem.
– Oh Joana, desculpa há bocado.
– Não faz mal. Eu é que não sei se te posso ajudar, por isso… Pronto, não sei.
– Pois, tu ainda és muito nova.
– Se calhar… (eu odiava a do “és muito nova”, porque nesta altura eu era sempre “muito nova” para tudo)
– És. Mas és boa amiga. E boa ouvinte.
Neste momento estremeci, porque sim, era muito nova, mas não era propriamente boa amiga, porque não éramos amigas, muito menos era boa ouvinte, porque nunca ninguém me tinha explorado essa característica, mas bom, tudo bem…
– Eu identifico-me muito contigo, sabes, Joana. Eu era como tu, assim tal e qual, só que na Venezuela começamos a namorar muito cedo e eu tive o mesmo namorado a vida toda. Conhecemo-nos através dos nossos pais, porque o meu pai é dos petróleos e eu não saía quase nunca de casa, tinha tudo em casa, que não era uma casa, era uma mansão, mas pronto, tinha sempre tudo em casa e acho que este deve ter sido o único homem que conheci a vida toda para além dos empregados, do meu pai e dos meus avôs. Tirei o curso de design, porque quando o meu pai se fartou dos petróleos decidiu ser designer e eu comecei a trabalhar no atelier dele, e aos vinte e dois anos ganhei imensos prémios de design e a vida era óptima, era tudo maravilhoso e eu ia casar. Um conto de fadas, sabes? Comecei a fazer a minha casa, o dinheiro nunca foi um problema, e o meu apartamento era uma penthouse na Castellana decorada com tudo aquilo que eu quis e inventei que quis e que o meu futuro marido aceitou. Ele nunca se queixou de nada, na verdade. Comecei a viver na casa asism que ficou pronta. Mantinha o meu trabalho como designer, continuava a ganhar prémios e à espera do pedido de casamento. Veio o pedido com um anel que não tinha um, mas sim três diamantes rosa. No dia antes do casamento dei uma volta maior de carro para chegar a casa. Caracas é uma cidade perigosa. E sendo Caracas uma cidade tão perigosa, belisquei-me para ter a certeza que tudo aquilo que era a minha vida estava a acontecer e era verdadeiro. Confirmei a veracidade dos factos quando entrei na garagem e subi até à casa que idealizei. No quarto de vestir estava o meu vestido de noiva, os sapatos, o véu, a grinalda e tudo à espera da chegada da minha assistente com a maquilhadora, o cabeleireiro e a florista, porque o bouquet ia ser escolhido no próprio dia.
Fui dormir.
Não dormi nada.
No dia seguinte de manhã chegou o batalhão que me iria enfiar no vestido e tratar do cabelo e da maquilhagem e do bouquet e de me levar até ao casamento, que iria ser na praia. Chegámos muito cedo à praia e fui dar um passeio à livro do Nicholas Sparks, à filme com a Diane Keaton vestida de gola alta branca. E eu vi o meu noivo abraçado e aos beijos à minha prima.
Fugi dali. Fugi vestida de noiva, com aquela parafaernália toda, toda montada. Entrei no carro da noiva e fui até ao aeroporto, comprei um voo para Barcelona e vim. Nos primeiros tempos vivi na Casa Fuster, porque era o único sítio que conhecia e que me lembrava, até que todos os meus cartões foram cancelados e o meu pai me apareceu à porta a obrigar-me a voltar porque estava com um problema enorme por minha causa. Mesmo explicando que o meu futuro ex-marido dormia com a minha prima, o meu pai queria que me casasse, sob pena de me cancelar tudo. E eu disse-lhe que cancelasse, que eu aquilo não queria. O meu pai voltou nesse mesmo dia para Caracas e eu fui-me tatuar. Fiz check out no dia seguinte depois de ter vendido o anel de noivado. Aluguei um quarto e fui à procura de trabalho. A única coisa que eu não percebi foi que a minha vida antes não era real. Procuro trabalho há três anos, há três anos que procuro quartos cada vez mais baratos e há três anos que não consigo parar de engordar, porque não consigo nada, porque a minha vida foi toda por água abaixo e porque sou tão frágil que ninguém tem paciência para me aturar. Os Chocapic não se queixam e sabem-me bem e fazem-me feliz prolongadamente: são pequeninos e uma caixa acalma-me a noite inteira. Gostava de te convidar para jantar amanhã, que são os meus anos, e não queria passá-los sozinha, e gosto de ti.
Agora era eu quem não conseguia levantar-se da cadeira. Estava spaced out. E como tenho o pior talento de todos, que é o de não saber reagir em nenhuma situação dramática, só me saíu:
– E o que é que tatuaste?
E ela abriu a toalha.
Como na entrada do rancho do Michael Jackson, por cima do monte de Vénus em letras garrafais , românicas e convidativas, Carpe Diem, com aquele arqueado do word art do Word.

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