Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

méri critmâss

Não odeio o Natal, aliás, gosto mesmo muito do Natal, mas acho que ninguém gosta verdadeiramente do Natal e isso serve como anti-clímax nesta história.

Hoje em dia ninguém está muito preocupado com o Advento.
E talvez seja ainda bem, pronto, não sei…
Eu pessoalmente já ansiei por cada Domingo de Dezembro, mas isso foi no tempo em que a minha Mãe me obrigava a ir à missa e me vestia roupa que me dava cabo do humor.

Acho que o Natal evoluíu – em Portugal – de uma festividade (!?!) religiosa para uma boa oportunidade de oferecer de forma graciosa coisas que faziam mesmo falta para uma corrida desenfreada às prendas para uma corrida desenfreada ao endividamento para uma cena quero-ser-internacional para a aniquilação total de qualquer tipo de cânone na tradição.
Nada contra.
Só que o Natal de repente passou a ser uma quadra odiosa.
As pessoas cool odeiam o Natal, é super cool odiar o Natal e dizer consumismo pelo menos dez vezes por hora.

Sempre adorei o Natal.
Sempre foi absurdo, o meu Natal.
Primeiro porque somos uma família muito disfuncional e isso é a alma das nossas celebrações.
O nosso Natal nunca foi cravado de prendas, nunca foi um abuso de nada.
Só de açúcar, que a minha Avó não perdoa e faz todos os bolos típicos do Natal.
O Natal da minha casa é numa mesa de quatro metros de comprimento com a família que aderir (a minha Mãe obriga uns quantos a ir, mas isso é super normal e amoroso nela, a Matriarca…!) e amigos estrangeiros desterrados por alturas do nascimento do Menino, gente que está de passagem e amigos de amigos.
A casa abre-se para quem quer.
É uma festa animada, não é uma depressão.
Não há frete.
Não há gente chateada com cunhados e parentes indesejáveis e/ou indesejados.
Nem sorrisos amarelos nem falsidades.
As únicas chatices do Natal resultam da cozedura do polvo e da eventual desgraça na cozedura das batatas na água do polvo: Natal sem batatas cor de rosa é letal.
Ficamos a conversar e a beber as aguardentes caseiras que os clientes do meu Pai lhe oferecem e normalmente esquecemo-nos da meia-noite: ou porque já está tudo a dormir género Bela Adormecida ou então porque a conversa estava demasiado boa.
A mesa fica posta durante três dias.
A toalha muda-se dia 25 para o almoço, porque há sempre alguém que oferece uma toalha de mesa (a única prenda que vale realmente a pena, porque mesas tão compridas são difíceis de vestir…!).
Levantam-se os bolos e a fruteira e volta a assentar-se tudo.
Há sempre sonhos de abóbora com e sem calda. Nógado. Filhozes, Azevias. Há de tudo. E há pudim. E há canja e mil e uma especialidades para agradar a cada um.
E livros.
O nosso Natal está cheio de livros.
E de frio.
Lá na quinta está sempre um frio terrível e a lareira não chega para aquecer a sala.
Durante o dia vou à lenha umas dez vezes. Encho o carrinho de mão até acima, cagulo style, para não ter de ir à rua à noite, porque o frio é dez vezes pior.
No Natal usamos sempre o capote pelo menos uma vez cada um.
É pesado e muito alentejano e ninguém o usa na vida real.

Por acaso curto o Natal e nunca odeio o Natal.
Odeio – sim – as pessoas às compras e a forma gratuita como oferecem presentes umas às outras.
Não há conceito nenhum na oferta.
Existe uma obrigatoriedade qualquer que aniquila a mística associada a um presente, seja ele qual for.
Isso é que me deprime.
Tanto no Natal como na Vida.

Eu e a minha Mãe trocamos prendas às escondidas.
Somos as únicas que amam realmente o Natal e que se compreendem ao ponto de poderem oferecer coisas lindas e cheias de significado uma à outra.
Fazemos um Natalinho íntimo antes ou depois do Natal e rebentamos dinheiro.
Cada vez acertamos mais em cheio.
E é tão bom!

Lamento que este ano o Natal se passe com imensa tristeza deslocada.
Parece que alguém levou um murro e que em vez de lhe voltarem a por o maxilar no sítio, lhe estão a por gelo.
Meaning: o pessoal está triste pela falta de dinheiro.
Esta é uma crise de consumo.
E as pessoas estão tristes porque não podem – ou têm medo de – consumir.

E eu não sei qual é o destino deste blogue.
Budget shopping?
É o quê?
Alguém me ajuda?

 

0

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.