Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

MIAU MIAU | TRASHEDIASTOLITHENIGHT

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O nosso encontro TRASHEDIASTOLITHENIGHT é no Baixa Bar, na Baixa do Porto, num domingo de Setembro. Diz-se muito que em Setembro está frio no Porto, mas é mentira.
Na rua há umas bandeirolas triangulares coloridas, penduradas em fios que fazem assim uma espécie de tecto sempre em festa. E é Domingo, mas é de festa.
“Se fosse há uns seis ou sete anos atrás, isto que estávamos a fazer hoje era bastante perigoso e provavelmente não estava a acontecer”, quem o diz é o João Vieira, mais conhecido como DJ Kitten, e “isto” é uma entrevista num bar da Baixa do Porto. O Porto, tal como a carreira do João no universo da música, mudou muitíssimo. Sendo que do Porto falamos do ponto de vista do turismo, do João falamos de um outro ponto de vista.
Mas já lá vamos.

Primeiro, o Rafael, mixer do Baixa Bar, serve-nos um Stolithymemule, uma versão suavizada do tradicional Moscow Mule, que vai buscar o nome à infusão de alecrim e tomilho com que é preparado. Para suavizar a pujança do Moscow Mule, e porque estamos no Porto, uma nota de vinho do Porto. O João bebe feliz como uma criança que tem autorização para pedir um refrigerante porque é dia de festa.

O Porto mudou e o João também.

Em bom rigor, o João está sempre a mudar, porque se hoje é mais White Haus, há dez anos era guionista na RTP, há quinze era O DJ Kitten e há vinte estudava gestão de empresas, que depois se transformou em design gráfico e foi dar a Londres, a umas festas na Student Union porque… Why not?
O início da carreira do João como DJ terá sido algures nas garagens da infância, com cassetes gravadas que tocavam em festas pueris que gradualmente viriam a tornar-se menos inocentes.
A dada altura na sua vida, o João partiu para Londres, com o intuito de estudar.
E estudou. Design gráfico. Mas um dia soube que fazia falta um DJ para as noites de 5ª feira, e acabou por se apresentar como candidato, mesmo sem nunca ter tocado para lá das festas de garagem da infância. A entrevista foi rápida, e só lhe pediram que anotasse numa folha de papel a lista das 20 músicas que passaria numa festa. Mas que o fizesse em cinco minutos. Foi simples. Daí a uns dias estreava-se como DJ universitário.

Isto decorria nos anos noventa, em Londres. 1997. A Baixa do Porto era ainda um local inseguro ao qual não pensava regressar tão cedo.
Porém quis o destino que no Natal do ano 2000 o João fosse ao Porto, de coração partido por uma namorada que tinha deixado de o ser, e fosse a uma festa, arrastado pelo irmão, com a inércia de quem perdeu o amor e Londres, a carreira de DJ e de trabalhador de loja de discos, tudo isto num Inverno frio e cinzento. E enquanto ele me descrevia este momento da sua vida, o meu attention span de três segundos começa a orquestrar toda uma tragicomédia daquelas que começam em livro de culto inesperado, ao estilo Nick Hornby, com banda sonora e tudo, o que neste caso é fácil, e ouço lá ao fundo, junto à nuca, “(…) let’s all meet up in the year 2000 (…)”, de Pulp, e já estou a ver depois assim um actor anti-herói a protagonizar o filme, também um sucesso inesperado da cena indie. Regressando à Terra, nessa festa o João encontrou uma senhora cheia de energia, mais velha que ele, com quem conversou toda a noite. Ela compreendia-o muito bem e ele encontrou uma sereia no oceano de solidão e incompreensão em que se encontrava mergulhado. Porque a vida tinha de continuar, apesar do Natal e do seu own private fim de Londres, o João tinha entregue o portfólio numa agência e lá tinha começado a trabalhar como designer, e é na segunda-feira seguinte à festa de sábado que a Fátima Magalhães entra pela porta da agência e voltam a encontrar-se. Daí nasceu o Club Kitten português, porque o inglês tinha começado na Student Union e acabado em Camden; recomeçava a festa que o viria a encher de alento mais uma vez, e a garantir que afinal Portugal era o futuro.

“Mas atenção, isto era quando ainda não havia telemóveis nem redes sociais, quando a noite era mesmo um sítio mágico e encantador, quando se arriscava a entrar. Tu não sabias o que estava lá dentro, se a noite estava boa ou má, como é que estava o ambiente… E à porta fazias o quê? Arriscavas. Não sabias se estava lá aquela miúda que tu gostavas, como é que era o DJ… E o DJ naquela altura era uma espécie de figura sagrada da noite, porque era o gajo que tinha aquela música que tu não tinhas – não havia Shazam – estavas na pista a dançar e de repente passava um som que não conhecias, e a única coisa que podias fazer para ouvir mais uma vez era sair mais uma vez…”. Inevitável não falar das redes sociais e de como os smartphones tornaram os espaços físicos menos interessantes, menos recheados de peripécias.

Mas bom, o Club Kitten começou no início dos anos zero e foi uma festa portuense que se alastrou a Lisboa, com residência mensal no Lux. O João “não era um DJ de misturas, passava músicas que tanto podiam ser Bonnie Tyler, como Liars, e as festas eram sets de sete ou oito ou nove horas em que estavas lá pela música, pelo que a música te fazia sentir, pela catarse provocada pelo que fazias com a música, na pista, naquele contexto.” Eu lembro-me destas festas, porque foi nestas festas que comecei a sair à noite, no Lux, e lembro-me perfeitamente de como o Club Kitten era incrível. Uma vez por mês havia toda uma produção e preparação para ir dançar ao Lux, ouvir o que o Kitten trazia. Porque ele trazia “a malta toda do Porto, porque as festas eram assim, eram com flyers e telefonemas, muitas vezes para telefones fixos, que se convidavam as pessoas. E as pessoas eram convidadas porque tinham onda e pelo que eram na pista. A Fátima era a grande responsável por tudo isso, no Porto, e depois quando vínhamos a Lisboa, vinha um autocarro. Preparávamo-nos no Lux, e havia glitter e cenas drag, gay, rock, punk…” O Club Kitten era aquilo a que hoje se chamaria safe space. Mas antes do tempo.
“Durante os anos de ouro do Club Kitten também tinha os X-Wife e vivia só da música, de tal forma que me despedi da vida diurna de designer. Viajava pela Europa a por música e a tocar com X-Wife; fomos aos EUA também, tocar, comprava discos, via bandas que depois trazia para tocar connosco, e tenho montes de histórias, aconteceu de tudo um pouco, porque havia muita gente muito doida à nossa volta.”

Os anos de ouro foram incríveis e o João estabeleceu-se no Porto, onde ainda hoje vive. Ele mudou como músico, porque passou do lugar de DJ Kitten, um lugar difícil de conquistar, sobretudo ao nível do respeito, porque a própria definição de DJ, quando ele começou a por música, era outra, e ele andou mais ou menos a quebrar um cânone de sinergia musical e de pista e de passagens limpas e perfeitas, de progressão e sensações. DJ enquanto passador de canções capazes de arrancar emoções do crowd através de narrativas e insinuações era uma coisa pouco respeitada no seio dos DJs. E quando o passou a ser, o João já estava quase a entrar numa fase em que se dedicou mais à produção musical, aos X-Wife e hoje em dia a White Haus.
Uma particularidade do João, perceptível através do seu percurso, é que nunca se “preocupou muito com o que é que estava a dar.” Ele fez sempre o que estaria a dar para ele. “Quando comecei White Haus também me disseram que ninguém ia ouvir, porque agora não se está a fazer nada disto, porque vivemos noutra época… Mas eu fiz, porque era o que me estava a apetecer, e olha que tem estado a resultar até bastante bem.”

E como é que te sentes com a ideia de seres uma espécie de DJ sénior, na cena nacional? – É impossível não perguntar – E ele responde tranquilamente que “bem, porque não vais estar na mó de cima a vida toda e a tua carreira toda. Tens de saber quando é que uma coisa tem de acabar para se passar a fazer outra coisa. Porque é assim mesmo. Eu deixei de ir ao engano fazer sets a sítios onde sei que a malta não vai gostar do meu som, e que eu sei que não vou gostar do sítio… É crescer, porque é mesmo assim.” E a vida muda e continua, claro, para melhor e pior e assim assim, mas uma das coisas certas do DJ Kitten é que vive a noite de outra forma.
“Não podes ser saudosista, tens de te adaptar. Às redes sociais e ao tempo e aos turistas, e a tudo… Há quinze anos atrás não estaríamos a fazer est entrevista neste sítio espectacular a um domingo à noite. Era perigoso. Hoje é possível. Já viste? Nem tudo é mau, mas acho que talvez haja hamburguerias a mais…”

E despedimo-nos.

E eu conto-lhe que uma das imagens que tenho mais viva das noites todas que já vivi remonta a um dos primeiros Club Kitten, no primeiro andar do Lux. Já era de manhã e era quase verão. Estávamos todx suadx de tanto dançar. Já há umas seis músicas que era a última música, quando foi mesmo. E começa a dar o Ace of Spades, de Motörhead. Os corpos que ainda se abanavam estavam ok, os outros eram só corpos cansados a serem engolidos pela luz que entra lentamente pelos janelões do Lux e conquista o espaço aos corpos. Já só uma pessoa dançava convicta. Era um rapaz todo vestido de cabedal, numa cena meio Tom of Finland, que fazia air guitar e cantava a letra toda. A música já só tocava em surdina, cada vez mais baixa e a voz dele é que cantou o último refrão para quem o quis ouvir the ace of base, the ace of base

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