Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

MiniMacro

Vi no outro dia mais uma reportagem sobre portugueses e poupanças, mas desta feita o foco estava bem apontado para a queda a pique das poupanças dos portugueses no ultimo (a preencher pelo leitor) ____mestre.
A notícia concluía que os portugueses não têm poupado lá grande coisa por causa da tal retoma económica e vai daí, diz que os portugueses andam a gastar mais; e também diz que não é muito importante poupar, porque isto está tudo a melhorar e depois logo temos tempo de poupar.
O problema das poupanças dos portugueses e do decréscimo das poupanças dos portugueses passa pela – e vou invocar a minha experiência pessoal – falta de disponibilidade para poupar. Porque do que vem sendo o orçamento pessoal ou familiar, independentemente das condições em que cada um vive (casa própria, casa dos pais, casa alugada, comprada ou em modo nómada), o que sobra ao fim do mês, quando sobra, não é para poupar. É para gastar a celebrar ter-se chegado ao fim do mês com três tostões positivos no saldo da conta. Quer seja com uma imperial em copo de plastico na roulotte do Campo Grande ou com um delírio de grandeza e um cocktail num bar de hotel.
Experiências à parte, concluía-se que os portugueses poupam menos de 5% dos seus rendimentos, o que é normal, tendo em conta que 5% do ordenado mínimo nacional são €24,25, e que no contexto do chamado “bolo mensal”, €24,25 é Dinheiro com dê maíusculo. E em bom rigor, muito fina é a fatia – já que estamos a falar de bolos – dos portugueses que ganham por mês muito mais que o ordenado mínimo.
Fiquei vagamente de cara à banda com esta reportagem sobre a poupança e sobre o facto dos portugueses não pouparem assim muito. No encadeamento da mesma reportagem, falava-se de encontrar formas para poupar e para fomentar essa prática na população portuguesa e de repente algumas das sugestões passavam por comprar menos, por comprar de forma mais consciente, por comprar produtos duradouros e por comprar em lojas do chinês.
Se em vez de ter sido uma reportagem tivesse sido um concurso de televisão, a última opção era a que estava errada e tinha entrado um sinal sonoro género buzina e uma luz encarnada algures.

Não basta apontar o dedo ao problema, é preciso ensinar a poupar. E esse sim é o grande problema e ninguém faz reportagens sobre isso. Sobre o hábito português da crítica irreflectida. É preciso aprender a poupar, é preciso ensinar a poupar e dar a entender a importância da poupança em todos os contextos, não apenas num contexto de crise, e a todas as pessoas, de todas as idades.

E se começássemos a pensar em macro e ensinássemos poupança desde cedo aos mini portugueses, a.k.a. crianças? E se começássemos desde cedo a pensar que a nossa micro economia domestica pode reflectir-se na ideia de macroeconomia a longo prazo? Se pensássemos naquela coisa que envolve o futuro, e não apenas em meses? Ou em legislaturas?

A repetição de uma crise em quatro décadas de democracia potencia a ideia do live fast die young que no punk é uma constante, só que a nossa esperança media de vida faz esta filosofia soar a morte lenta a partir da idade da reforma. Ou antes. Seja a comprar na loja do chines, na loja dos produtos tradicionais artesanais numerados à mão numa série limitada a dois.

Começar no mini para ir dar ao macro daqui a uns anos. Acabar com o drama da construção e lançar uma espátula de cimento, sem medos. Só que no chines não vendem cimento… Ou vendem?

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