Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Morte em Cape Town

Disse a Li Edelkoort aqui há uns dias, que a Moda, como a conhecemos/íamos, está morta.
A super insider das tendências apressou-se a vaticinar a trágica e agonizante morte da Moda e a atribuir as culpas a toda a gente, começando nos Bloggers, e entrando depois para um terreno mais pantanoso em que culpa a sociedade, o trabalho em equipa e a tribalização dos jovens, costumes e afins.
Uma grande salganhada para encetar uma questão, que na verdade é um discurso individual, voltada para este problema que é a aceitação da mudança por parte dos mais velhos.
Por acaso sempre pensei nas pessoas da Moda (mais velhas ou não) como das mais avançadas em termos práticos, como a franja de criadores que materializa mais rapidamente uma urgência e a única classe capaz de chegar efectivamente ao público.
A Le Edelkoort fez-me mudar de ideias nos próximos parágrafos.

Já há bastante tempo que as grandes senhoras opinadoras da Fashion andam com estes problemas da morte da Fashion e do declínio do culto do indivíduo (ainda no outro dia a Suzy Menkes andava a chorar a Loulou De La Falaise, again), da nostalgia da grande Fashion por oposição à Fashion de agora, que é uma porcaria normativa e chata e aborrecida, massificada e que está de costas voltadas para a sociedade.
Em si, todo este descontentamento é uma grande contradição.
Vendo as coisas bem vistas, a Fashion do F grande que a Dª. Edelkoort quer enterrar, nunca esteve muito voltada para a aceitação do público, muito menos para a sua inclusão.
A Fashion do F maiúsculo é exclusiva.
Exclui.
E sempre vivemos todos muito bem com isso, com essa ideia de que a Fashion não era o Carnaval do Rio.
O culto dos indivíduos e dos estilos individuais que reflectem a personalidade de cada um também nunca fez questão de se incluir na Fashion, de se tornar tendência ou de querer ser a bitola de uma normatividade excêntrica, vá. A relação entre ambos era contemplativa e fazia questão de não ser inclusiva, de se alhear, de ser uma navegação tranquila, género expedição às Berlengas: a gente fica a observar assim ao longe, a beleza em estado selvagem.
E pronto, já está.

Se há umas décadas havia front rows mais interessantes, cheias de gente incrível e verdadeiramente inspiradora?
Pelo que o YouTube e as fotografias da época deixam ver, sim.
Se as Musas e os Musos de quem era, estava e fazia Fashion eram os herdeiros de uma vida burgueso-palaciana meets aristocracia decandente meets saudosos do Oscar Wilde, do Lord Byron, do Dali e do Duchamp?
Sim.
Se a atenção e o comportamento nos desfiles reflectiam esse turbilhão de emoções?
Sim.
Se agora é tudo uma chatice em que as front rows têm pessoas todas iguais com telemóveis (os telemóveis incomodam muito estas senhoras velhas…) e os desfiles duram dez minutos impessoais?
Sim.
Mas também entre os anos oitenta e os anos zero passámos pelo heroin chic e por toda uma década de oblivion muito entusiasmante para a Fashion e para o deleite estético da Fashion, mas se calhar nefasta para esta normatividade comportamental que vivemos hoje, refelxo do que já foi. Não?

Mas a minha pergunta é: quando é que se decidiu que o arquétipo não pode mudar?
Quando é que se decidiu que os desfiles têm de durar uma hora, em 2015? Uma hora em 2015 é uma eternidade!…
Pergunto-me se há realmente necessidade de solenizar o consumo de qualquer tipo de arte ou objectos? Se a necessidade dessa sacralização é realmente verdadeira, se os indivíduos das gerações vindouras querem mesmo que assim seja.
Parece-me profundamente Velho que se queira reger a Fashion por um conjunto de regras com mais de três décadas.
Evocar um desfile do Thierry Mugler de uma hora para sublinhar o aborrecimento que é ver um desfile de doze minutos é o mesmo que dizer que o Karl Lagerfeld devia parar de fazer roupa e conceptualizar desfiles, porque já que ele é de um tempo antigo, o melhor era ter ficado nesse tempo dos desfiles de uma hora, ou então de continuar a fazer tudo como nos anos idos, mas hoje.

A Edelkoort defende ainda que o culto da roupa aniquila o culto da Fashion e que as tatuagens contribuem para esse bicho mau que é o Normcore, que está a apoderar-se de um Mundo em que ninguém já quer ser visto.
Ora, esta afirmação é de uma pretensão tão grande que me faz urticária.
Por essa ordem de razão da Dª Edelkoort, não será ainda mais excêntrico tatuar o corpo todo, por oposição ao que antes era visto com maus olhos? Não será ainda mais disruptivo conceptualizar o corpo tatuando-o, do que cobri-lo com roupa amovível e que em última instância reflecte um estado de alma passageiro e uma personalidade volátil?

Consigo entender que a querida Edelkoort se sinta deslocada, consigo compreender que, para quem viveu a década dos excessos ao máximo possa parecer muito absurdo este nosso tempo da T-shirt branca e dos jeans e dos ténis e dos it-items. Posso compreender que o normcore possa ser visto como uma ameaça e que o estilo Hamptons meets Hipismo possa assustar quem já amou a Fashion, quem já a viveu e se esforçou por se apresentar o mais bizarra possível para conseguir destacar-se no meio de uma multidão de Basquiats e Loulous e Mathildes Willinks e Klaus Nomis e Mapplethorpes e tantos outros nomes que a geração do Normcore idolatra.
Não consigo entender é esta necessidade de profetizar o Futuro de uma indústria que, desde aquela que é apontada como a sua “época de ouro”, se tornou não sei quantas vezes mais lucrativa, maior, mais competitiva e abrangente.
Não percebo porque é que se deseja isolar a Fashion e afastá-la do público, que na verdade a consome mais do que nunca, esforçando-se mais do que nunca por chegar aos calcanhares de um it item.

Se a Fashion está distante do consumidor? Não.
Se a Fashion está distante da realidade? Não.
Se a Fashion deixou de criar fantasias e vontades? Não.
Se a Fashion deixou de fazer o culto do indivíduo? Não.

Por isso, a sério, não entendo estas mortes anunciadas e estas contracções do público perante as sábias palavras das gurus que no fundo compraram o bilhete de primeira classe, que é última carruagem do comboio e que irá desprender-se do resto das carruagens já no próximo apeadeiro.

Acho que a Fashion nunca foi tão entusiasmante como é hoje, acho que a Fashion nunca foi tão rica como é hoje. E basta-me pensar que o Karl Lagerfeld existe e que quem anseia por um item Chanel também deseja comprar um Rick Owens, e que isso é tão conceptualmente oposto, que é um manifesto em si mesmo. Que é um autêntico acto de guerrilha Fashion. Ou que, por exemplo, é possível combinar uma Birkin com uma T-shirt velha e deixar que esse coordenado apareça nas páginas da Purple Fashion Magazine, e que também essa imagem é um acto de revolta.
Acho que a Fashion se conceptualizou para lá da fruição estética e que é isso que atormenta as Edelkoorts da vida.
Com todo o respeito, mas não posso concordar com, nem bater palmas ao artigo da ZEEN que me levou a escrever este.
Porque ainda me apetece reforçar esta ideia de que nada do que é proposto por Edelkoort corresponde à realidade, se pensarmos que o culto do indivíduo no âmbito da Fashion nunca foi tão longe como hoje em dia, em que os Bloggers (que toda a gente odeia e não quer ser) são Narcisos 24/7, convidados pelas grandes casas de Alta Costura, pelas grandes Marcas e pelos grandes Criadores, para serem portadores de “ADN próprio” de quem os convida, para comunicarem essa mesma individualidade ao público em geral, que é quem vai juntar os tostões para consumir a marca.
Agora, se a questão for clarificada e se esmiuçar que a figura comum do Blogger é acéfala e convém porque não pensa e não tem a individualidade ideal, concordo. Mas aí a culpa é das marcas que a querida Edelkoort venera, que desejam posicionar-se assim.

Não acho que a Fashion vá morrer ou que esteja mal de saúde.
Basta olhar para o trabalho do Bill Cuningham para se perceber que não estamos a correr riscos nenhuns e que a Fashion está bem e recomenda-se.
O que aconteceu, Edelkoort, é que as marcas tiveram de deixar de brincar à Arte para se tornarem rentáveis, para que o show pudesse continuar com a hora Mugler que tantas saudades lhe causa. O que acontece é que para isso a produção teve mesmo de ir para as ditas sweatshops (contra as quais sou e toda a gente sabe disso) e que as marcas tiveram de se agrupar (também elas, veja só!) em grupos financeiros que lhe permitem a little bit of Fashion and a little bit of Pop for a little bit of FUN!
Os CEOs querem ver resultados e as vendas têm de existir para que a Arte continue.
É claro que nem todos têm o génio de Lagerfeld, Miyake ou Kawakubo, mas é preciso fazer como o Olivier Zahm, e abrir lugar às novas, porque só assim chegamos lá, só assim conseguiremos encontrar a Liberdade criativa dentro dos limites impostos, quer sejam eles financeiros, conceptuais, éticos ou estéticos. Acho que é esse o grande desafio, e não a Morte.

E enquanto escrevia isto, fui ali fazer um chá, para não me encher de mais torradas com manteiga e doce de tomate, e a mensagem do Yogi Tea de hoje, é esta: “Let’s learn to rejoice more often”.
Entendeu, Edelkoort?

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