Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Natal Muita Chill

Hoje enquanto trocava mensagens com uma amiga disse-lhe que o Natal este ano era cá em casa e ela respondeu: “Que adulto”. Disse-me ainda que seria impossível fazê-lo em sua casa, porque a ideia da família inteira reunida era altamente stressante e que eu deveria escrever precisamente sobre esta minha coolness que permite a reunião natalícia cá em casa.
O Natal não é um certame muito complicado de nenhum ponto de vista, tendo em conta que para a consoada apenas é preciso ter o bacalhau, os presentes, álcool com fartura, doces tradicionais da época, um ananás (não sei porquê, no Natal há sempre um ananás dos Açores que os adultos insistem em destruir regando-o com vinho do Porto) e café. Também é preciso ter a família e pelo menos um apontamento decorativo que sublinhe qual é a festividade.
Já desde há muito tempo que preparo consoadas, pelo que sei como é que a coisa se organiza para que corra tudo bem e esteja tudo sentado à mesa àquelas oito da noite super importantes para os decanos do clã.
Mas percebi por esta mensagem que estou sozinha nesta passagem de testemunho geracional e que é importante falar sobre isto.
Regra geral uma pessoa começa o Natal quando começam as compras, o que cá em casa é fácil, porque há uma regra que diz que só as crianças é que recebem presentes. Faz sentido. Temos tudo o que nos faz falta e o que não faz. Surpreender um adulto, na maioria dos casos, implica oferecer um Lamborghini ou qualquer coisa dentro desse género, ao passo que surpreender uma criança é muito mais maravilhoso e “fácil”. Um papel de embrulho e uma história sobre o Pai Natal e sentimo-nos o David Copperfield. No ano passado, por exemplo, ofereci à minha sobrinha uma caixa de chinelas de salto alto subordinadas às princesas da Disney. Plástico translúcido colorido e glitter mais Disney. Foi uma emoção que ainda hoje continua! Nunca mais as descalçou.
Por “compras de Natal” entendo então o acto de comprar os mantimentos para a consoada. E aí começa e termina a parte difícil: contar as pessoas da família e ter a certeza que não nos esquecemos de ninguém, calcular quantidades e jogar pelo seguro apostando em pequenos favoritos individuais.
Acredito que o stress do Natal para a entidade organizadora só existe porque não se trata a ocasião como antigamente e não se prevê tudo o que é necessário para que o Natal seja um acontecimento sem surpresas de última hora, presentes que se esqueceram, mantimentos a menos ou o pior bolo rei do universo na mesa, porque alguém se esqueceu de encomendar o bom no sítio certo.
Não custa nada tratar de tudo muito antes quando toda a gente à nossa volta na pastelaria achar absolutamente ridículo estar a encomendar um bolo rei ainda em Novembro, por exemplo. São previsões que garantem o sucesso de uma noite em que julgamos que nos estão a por à prova, para ver se somos mesmo capazes de manter a família unida nos anos vindouros.
Como este ano o Natal é cá em casa e temos uma família muito heterogénea, tomei a liberdade de fazer uma circular (um apontamento vagamente comunista) com a junção das tradições de cada lado da família para que haja assim uma espécie qualquer de harmonia nesta etapa “adulta” da vida.
Ao nível da gastronomia, preparar a consoada tem um grau de dificuldade zero, porque cozer bacalhau e/ou polvo, batatas e couves é das coisas mais fáceis que há. No caso de quererem brilhar, cozam as couves com bicarbonato de sódio, para ficarem mesmo super verdes. Os doces tradicionais de Natal também não são muito difíceis de fazer, mas se houver dúvidas, é ver tutoriais no YouTube e/ou seguir boas receitas. Porém se ainda restarem inseguranças, ou aceitamos que as mais velhas os façam e os tragam, ou encomendamos em qualquer lado. Um truquezinho: nada como produzir uma sobremesa que façamos mesmo incrivelmente bem para que vejam como somos capazes de brilhar na cozinha oferecendo o nosso contributo de modernidade à ocasião e que a humanidade ainda não nos perdeu por completo, pelo menos para as festas tradicionais que interessa manter. Importante em qualquer dia do ano, mas mais importante no Natal é ter sopa feita, daquela que toda a gente gosta, para tapar buracos em estômagos, por exemplo, caso se atrase alguma coisa ou as crianças decidam que no dia 24 não gostam de bacalhau.
Preparar a mesa requer calma e materiais. Nas famílias há sempre alguém que tem um serviço a mais, uma caixa com copos ou um faqueiro que quer despachar durante o ano. E desejam sempre que sejam os mais jovens a herdar. Regra: aceita-se tudo humildemente e põe-se tudo a uso na consoada: vai arrancar sorrisos e garantir que não falta nada na mesa. É preciso não entrar em pânico e perceber que até ao primeiro Natal em nossa casa nunca houve mais nenhum, pelo que podemos estar a fazer história no seio da família, e isso é fixe. Com isto quero dizer que é bom criar uma identidade e que a mesa é capaz de ser o local ideal para o fazer: intercalar pratos de dois serviços diferentes porque não temos nenhum serviço que dê para tanta gente ou ter deliberadamente guardanapos de variadas nações é uma forma simpática e descomprometida de fazer our way, como cantaria o tão rodado nesta altura do ano, Frank Sinatra. É possível comprar um tecido giro a metro por um preço bastante razoável, mandar-lhe fazer umas bainhas simples e produzir uma toalha de Natal lendária. Ou então podem ver tudo no Pinterest e replicar qualquer coisa que gostem, caso não consigam ser muito inventivos.
Ah! – E se formos muito pobres para comprar presentes sumptuosos, nada como apostar em presentes que remetam para momentos divertidos em conjunto: é sempre bom e muito eficaz.
No dia 24 é só abrir a porta de casa e confiar.
Confiar que vai tudo correr bem, que os avós vão tomar conta dos netos, que toda a gente vai querer ajudar e que isso vai ser belo-horrível porque não podemos querer ajuda nem pessoas a perguntar de cinco em cinco minutos onde é que está não sei quê ou pior, ter gente a mexer nos nossos armários.
O melhor? É que alguém vai sacar do pau de selfie e tirar aquela fotografia que ali naquele momento parece ridícula, mas que não tarda nos vai dar imensas saudades.

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