Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

O BIFE


O texto de balanço da Semana de Moda de Milão da Vogue USA, escrito por Sally Singer deu o mote para uma não-discussão que em 2016 já é só uma maçada enorme, mas que, pelos vistos, continua a fazer muito sentido.
Esse texto, em que de uma forma vagamente blasé se trata do que terá sido a Semana da Moda de Milão, é oferecido ao leitor da perspectiva de uma das mais relevantes editoras de Moda do mundo, a qual colabora com a “instituição” Vogue.
Esse bife levanta uma das questões mais pertinentes de 2016: o que é que fazem os Bloggers nas front rows? Porque é que têm esse direito, os Bloggers, que não são nem buyers, nem críticos, nem clientes, nem gente dona de um estilo único e inconfundível, nem editores ou stylists? O que é que os Bloggers fizeram para ir parar às front rows e tornar as semanas de Moda numa espécie de caos espampanante para fotógrafo ver?

Ora bem, depois de ler o texto da Sally Singer e de ter de o ler mais uma ou duas vezes tal não era o meu espanto, consigo perceber que a Moda nunca esteve bem com Bloggers e que o que se viveu nos últimos anos em que alguns até foram capas de edições não-globais, foi uma espécie de paz podre em que as “instituições” (entendamos, neste caso, a Vogue USA como uma instituição) assumiram o papel de parasitas dos Bloggers numa busca incessante pela captação da sua frescura. É do domínio comum que as edições não-globais da revista que contaram com Bloggers nas suas capas vendeu mais do que o habitual e que voltou a colocar essas mesmas publicações no mapa para muitos consumidores que se esqueceram do papel.

Vamos agora muito rapidamente a parte em que podemos dizer algumas coisas sobre os Bloggers que os prejudicam e os tornam ridículos: os stylists, porque onde é que já se viu um Blogger com stylist, pamordeus, os fotógrafos, que fotografam os Bloggers a toda a hora e têm de ter as fotografias prontas já, senão passa do prazo, as assistentes que tratam de agilizar todo o processo e de facilitar a vida do Blogger e que ainda escrevem posts, que também são agentes e publishers, all in one, o excesso de produção, o suposto street style, as mudanças de roupa no quarto de hotel a três metros do local dos desfiles, a sobreposição das suas personas aos desfiles, a sua falta de sentido crítico. A sua constante preferência pelo gosto como critério. 

Mas pensemos também, por favor, de um outro ponto de vista, porque a mim o que me interessa é ver as coisas do maior número de pontos de vista possível.
Quando nas Fast Talks do passado dia 6 de Outubro a Priscila Alexandre (da Hermès) respondeu a uma questão que lhe coloquei sobre a responsabilidade das marcas em racionar a produção (isto no seguimento de cinco dissertações/respostas acerca da irresponsabilidade do consumidor que consome de forma excessiva o excesso de produtos disponível no mercado), a Priscila respondeu que, quando no final da década de oitenta se percebeu que a Moda tinha, de facto, interesse e potencial económico suficiente para gerar capital e vir a consagrar-se uma das indústrias mais valiosas do mundo, quando nessa altura se criaram os grandes grupos de Moda que adquiriram marcas e as tornaram supermarcas (falamos, por exemplo, do tão conhecido LVMH ou do grupo Richemont, constituídos em 1987 e 1988, respectivamente), o modelo de negócio de alterou radicalmente. A Moda deixou de ser uma disciplina de teor mais artístico, portanto de e para um grupo de pessoas muito restrito, e passou a obedecer a exigências comerciais claras, a ter de cumprir objectivos, a sujeitar-se a modelos de gestão oriundos de outras áreas de mercado, de onde vinham os seus gestores.

Nos últimos trinta anos, atribuo à sua cronologia dois momentos decisivos, e este de 2016, é o segundo.
O primeiro é a entrada, no jogo, de gestores cujos objectivos são números, vendas e taxas de ocupação de mercado. Este primeiro momento foi decisivo para o desenvolvimento de grupos como os gigantes Inditex ou Hennes & Mauritz e para tudo o que daí adveio.
No caso da Moda dos Desfiles, a considerada “alta”, esta devido a este primeiro momento assistiu a um crescimento no consumo e produção de todos os sectores de empregabilidade da Indústria da Moda durante os anos noventa, a uma aproximação da Moda da cultura Pop, para chegarmos aos anos zero e à revolução digital novamente num patamar inatingível de uma indústria que de repente se tornou gigante e altamente transversal, porém incapaz de chegar de forma eficaz ao consumidor.
Nos anos zero a Moda irrompe nas nossas vidas através de revistas, reportagens e pequenos objectos consumíveis como os perfumes ou cosméticos, mas não é, nem através das segundas linhas, tangível ou transversal. E na abertura da era digital, a Moda vê-se, novamente, mesmo com novos modelos de gestão e novos recordes de vendas, estagnada. Pese embora o poder de compra tenha aumentado, o acesso à informação seja uma realidade e a cultura pop algo que faz parte do nosso quotidiano.
A Moda, à entrada dos anos zero, voltava a ser inatingível, com a agravante de já pertencer à esfera comum.

Muitos factores contribuem para a evolução da figura do Blogger como uma nova e importante peça no crescimento da indústria.
O Blogger não é nem uma estrela Pop, nem um trabalhador da indústria. Não é um actor famoso, não é uma costureira ou um alfaiate. Não é um artesão. Não é fabricante de tecidos, não é ilustrador. Não vem de uma família necessariamente ligada à Moda. É uma pessoa que vive numa casa e tem um emprego e uma ligação à internet, um computador e uma máquina fotográfica e roupas. O Blogger não é jornalista, uma vez que tudo aquilo que emite é tendencioso e pessoal. Não é validado por uma entidade (neste caso por um editor) e não precisa de ter conhecimentos específicos numa determinada área para exercer funções. Não tem Mestres. Um Blogger também não é Modelo. Não é canonicamente belo, não se insere nos não sei quantos tipos de cara que os bookers das agências costumam recrutar. Não é alto e não é necessariamente magro. Um Blogger não é stylist porque não comercializa os seus serviços de stylist e também não é editor, a não ser no seu blogue.
Ora bem, se um Blogger não é nada na e da Indústria, porque é que a Indústria lhe dá, de repente, um lugar numa front row?
Por tudo aquilo que o sujeito não é. O Blogger tem um lugar na front row, passou a ter um lugar cativo na front row, porque o Blogger não é uma pessoa da Indústria.
Simples.

O Blogger veio, enquanto figura não-integrada na Indústria, oferecer à Indústria aquilo de que ela precisava: vendas.
Ao não ser nada de canonicamente especial, isto é, ao não ser uma figura consagrada pelos Mestres da Indústria, o Blogger está mais perto do consumidor que dos designers, as marcas ou qualquer outro interveniente. E essa posição estratégica é fundamental e é a posição de que as marcas e os grupos precisam neste momento, para conseguirem o que, no final, são números: chegar ao público.
Passou a ser da responsabilidade dos Bloggers o sucesso de um designer, de uma colecção, de uma peça ou de um momento. Porque ao ser completamente filtrada pela figura e testemunho parciais, a realidade de uma marca, objecto ou momento, assumem um papel numa dimensão da esfera tangível que de outra forma não conseguiriam.

Diria que o grande responsável pela realidade dos Bloggers em 2016 é o sénior quase retirado Scott Schuman (cujo blogue já tem 11 anos), mais conhecido como The Sartorialist. Ao adaptar o trabalho de Bill Cunningham à realidade e à dialética digitais, Schuman criou a sua própria dialética e difundiu-a pelo mundo, tornando em menos de uma década a profissão de fotógrafo de street style numa posição quase indispensável em qualquer publicação de sucesso. É claro que no caso da Moda, da década da à qual me reporto e tendo em conta a crescente necessidade de aceleração de processos, estamos perante um fenómeno que não só se massificou como viu a necessidade de se alimentar mutuamente: quando apenas um Schuman não era suficiente, apareceram mais umas dezenas, e depois mais uns milhares, a par e passo com o estilo de um público que cada vez mais se preocupava com o seu desenvolvimento e o tornava mais exuberante na esperança de um lugar ao sol. Essas pessoas com esses estilos cativantes, com esses looks mais fora do comum, são muitas vezes pastores solitários de rebanhos privados, pastores que viraram as costas a uma ideia qualquer de produção certificada e quiseram manter-se numa escala artesanal. Ou pastores dissidentes, ou pastores descontentes, ou pastores a quem nunca seria cedido um lugar ao sol, como é o caso de Bryan Boy ou Tommy Ton. Porque o discurso aqui é directo e não se aceitam paternalismos.

Até os Bloggers entrarem na equação da Moda, a Moda regia-se pelos cânones do inatingível com muitíssimo orgulho.
Mas de repente, ah, Lehman Brothers, ah, CRISE, ah, no money no funny.
E os blogues do Bloggers conquistam mais uma pequena parcela de terreno às grandes e pesadas publicações, que se vêem ameaçadas por todo o tipo de publicações online, que recrutam por preços mais competitivos os seus empregados de outrora, despedidos por falta de verbas para manter os modelos vigentes; vêem-se ameaçadas por modelos de negócio assentes em visitas, captação de publicidade digital, reencaminhamento de tráfego para e-commerce e tantas outras formas de fazer dinheiro com cliques.

Não é novidade nenhuma que as publicações em papel têm vindo a sofrer e muito desde que abraçámos e começámos a amar loucamente o digital. Essencialmente o que vem no papel é mais obsoleto e não tem grande valor, porque pode ser transformado em digital por qualquer pessoa. Dúvidas houvesse, 2016 tem sido o ano em que todos os grandes Mestres se têm rendido às redes sociais.

Ah, as REDES SOCIAIS, esse local onde os Bloggers são a verdadeira elite e onde as publicações como a Vogue USA não conseguem chegar.
Falo de Bloggers com quase sete milhões de seguidores, como é o caso da superestrela Chiara Ferragni. Pergunto-me acerca das vendas em papel da Vogue USA.
Considero o texto de opinião da Sally Singer e aquilo que essa opinião não desencadeou um dos grandes faux-pas da season.
Declarar guerra aberta ao grupo de pessoas que voltou a tornar a Moda um lugar divertido e colorido,  é uma estupidez. Declarar guerra a quem voltou a aproximar as marcas do consumidor é dar um tiro de caçadeira em cada pé para não poder voltar a calçar sapatos. É manifestar e fomentar uma posição velha e obsoleta e que denota um profundo desconhecimento do que é o agora. É querer proteger uma posição dinástica e exclusiva relativamente à Indústria e à sua subsistência. É fazer panelinha. É veicular e sublinhar uma posição oligárquica numa Indústria que não pode sobreviver sem consumo; numa Indústria que chegou ao patamar em que está devido a um aumento drástico dos padrões de consumo, os quais foram em muito inflaccionados pela figura dos Bloggers. Oferecer um texto em que se acusa um grupo de pessoas de destruir a ordem vigente de uma normal Semana de Moda de Milão é catastrófico, na medida em que a opinião de Sally Singer só contempla uma única visão, é excluir qualquer outro tipo de ontologia possível, quando há mil outras. É não pensar no que é que, por exemplo, acham os habitantes de Milão, da presença de todas aquelas pessoas durante a Semana de Moda.
Fosse este artigo acerca de qualquer outro tema (como por exemplo todos os artigos escandalosos de mau jornalismo que viram a luz do dia por altura das Olimpíadas do Rio), e a internet tinha vindo abaixo, e o editor da publicação teria retirado o artigo de circulação e escrito um pedido de desculpas. Mas o problema deste artigo, é que é sobre Moda e casca forte e feio da figura dos Bloggers, quem, enquanto conjunto de trabalhadores, não é aceite pela Moda e nunca se preocupou em ocupar um lugar claro na Indústria. O problema deste artigo é que a única resposta que teve foi da já citada Ferragni, que mandou uma boca e não explicou que gere um negócio que é capaz de movimentar mais capital que a própria Vogue USA.

E eu que achava mesmo que no ano dois mil íamos todos andar vestidos de prateado. LOL

21
2 Discussions on
“O BIFE”

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.