Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

O CASAMENTO COMEÇA NO SOUTIEN | #trashediastoliyourlook

A  Pureza foi-me recomendada duas vezes: primeiro nas sugestões do Instagram, e comecei a segui-la, e depois por uma das pessoas que faz parte da equipa #trashediastoliyourlook, e eu disse que sim.
Não conheço a Pureza de lado nenhum, não a fui investigar, não fui vasculhar nada sobre ela.
Embora a internet hoje permita isso, preferi ir à descoberta, sem preconceitos.

Fim de Maio e chove.
Não há nada pior do que chuva quando já usámos roupas leves e pernas ao léu depois de um Inverno longo que não foi carne nem peixe. Vesti uma farda: calcei umas botas pretas, vesti umas calças pretas, uma T-Shirt podre e o perfecto de cabedal, agarrei na máquina e no caderninho e fui ter com a Pureza ao seu atelier, na Av. Guerra Junqueiro.
O atelier é num quinto andar. É organizado e desorganizado e parece muito mais luminoso porque embora as paredes estejam forradas com papel floral em tons pastel ligeiramente nacarados, o branco dos tecidos que ali se trabalham reflecte a luz e espalha-a por todos os cantos.
Em pouco segundos odeio o meu total look preto Acne: não podia estar mais vestida das trevas  naquele espaço onde tudo é fino e belo e flui.
Bravo.

A Pureza chega, pequenina e compacta, cheia de genica, e invade a sala com um sorriso que não lhe abandona a cara durante as três horas e meia que durou este encontro. Não repara que estou vestida de preto escuro. Ou se calhar repara, mas isso não lhe diz nada, porque ela vê tudo claro.
Senta-se no canapé estoirado que é para mim a peça mais maravilhosa e simbólica do atelier e começa a falar, num discurso articulado e cheio de espontaneidade, vivo, muito musical, que prende às primeiras curvas sonoras, qual montanha russa.purezastoli-1

A conversa que não teve início nem fim, porque aconteceu espontaneamente, deambulou por todos os temas possíveis, por curiosidades e admirações mútuas.
Sabem aquela coisa que as Mães dizem de que quando se é Mãe se fica muito mais terra-a-terra?
É verdade.

 

PORQUÊ FAZER VESTIDOS DE NOIVA?

A pergunta é inevitável, porque esta é uma profissão muito pouco comum: porquê vestidos de noiva? Até aos dezoito anos viveu em Azeitão, longe de Lisboa, da noite e das distracções da cidade. Veio estudar para a ex-Magestil hoje Escola de Moda de Lisboa e durante o curso todos os trabalhos que fazia eram vestidos de noiva. Sempre. Fosse que trabalho fosse, quando o tema era livre, lá ia a Maria da Pureza fazer vestidos de noiva.
Porquê?
Não sabe.
Não é uma cena de princesas da Disney, não é, de todo, uma cena de princesas: a relação da Pureza com os vestidos de noiva tem a ver com a arquitectura das peças, a construção e o grau de complexidade envolvido na criação de um vestido de noiva. Peças grandes, estruturas, montagem.
Também porque gosta de fazer vestidos únicos, à medida, para uma ocasião que adora, mas esta parte do prazer do contacto humano e das relações interpessoais veio depois e está sempre a crescer. Está presente no dia mais importante da vida de uma Mulher da forma mais próxima de todas. Conhece o caminho percorrido, sabe das inseguranças, das frustrações, das ânsias e das fraquezas, dos desejos. Sabe dos convites e da ementa. E tem como missão materializar a informação num vestido.

A FAMÍLIA SEMPRE PRIMEIRO

Quando acabou o curso foi estagiar para a QuebraMar, onde começou a por em prática aquilo que aprendeu na escola. Perguntem a qualquer designer de Moda qual é a melhor forma de aprender pós-escola e vai responder-vos que é a trabalhar numa fábrica ou numa empresa enorme. A Pureza não é excepção, tanto que fez exactamente o mesmo. As coisas estavam a correr super bem na Quebra-Mar quando lhe acenaram com um contrato óptimo, que implicava viajar muitíssimo por períodos mínimos de quinze dias, para destinos semi exóticos e megalópoles: o sonho de qualquer jovem designer. Não assinou o contrato e teve o seu segundo Filho. Foi nessa altura que decidiu começar a fazer dos vestidos de noiva um negócio.
A primeira prova que fez foi em casa, para uma amiga de uma amiga. O seu segundo filho tinha apenas dias e começou a chorar ainda decorria a prova. Tinha fome. Pô-lo ao colo com o pano (de transportar bebés) e enquanto lhe dava de mamar espetava alfinetes e fazia ajustes. Simples.
O atelier é no lado direito, a família vive do lado esquerdo. A porta está sempre aberta e trabalhar, ter os filhos perto e ter tempo para eles é a grande prioridade, e assim fica tudo muito mais fácil.

NOIVAS ILIMITADAS

O atelier tem oito anos.
Começou pequeno e familiar e foi crescendo através da amiga da amiga que passa a palavra à outra amiga e por aí adiante. A clientela é maioritariamente portuguesa e procura aquilo que a Pureza oferece: um atendimento personalizado e exclusivo, do qual fazem parte todas as perguntas que se veem no Say Yes to The Dress: do local ao número de convidados, todas as informações são importantes para criar um vestido que “seja a cara dela”. E “a cara dela” é o melhor elogio e a maior recompensa que tem de uma Noiva. Quando alguém diz que o vestido “era mesmo” aquela pessoa, é quando sente que a tarefa foi mais do que apenas cumprida.
Mas não nos enganemos, porque nisto dos vestidos de noiva, nem tudo são rosas. Existem as Noivas, mas cada Noiva tem uma Mãe, uma futura Sogra e umas Amigas que dão palpites e querem assistir às provas. Também existem os smartphones, e a Pureza calorosa recebe mensagens com indecisões e alterações de última hora aos Domingos e Feriados. Diz que o Pinterest é o seu pior inimigo, porque passa a vida a ver coisas impossíveis ou que não gostaria de fazer ou excelentes trabalhos de Photoshop impossíveis de recriar na vida real. Cada vestido que sai do atelier da Guerra Junqueiro é único e foi pensado exclusivamente para a pessoa que o solicitou. Não veio de uma revista nem de uma imagem. Além de ter sido feito à medida, cada vestido foi pensado para aquela pessoa e de acordo com o que são os seus desejos, mas também as impressões da Pureza. É tudo uma questão de sensibilidade, de percepção e de tratar com muita delicadeza um dos acontecimentos mais importantes na vida de uma Noiva.
Em Portugal as Noivas ainda são muito conservadoras e pedem vestidos muito antiquados. Procuram coisas que se viram há dez ou vinte anos, não querem decotes nem braços descobertos, ainda são muito púdicas e cedem muito à figura materna.
Além do Pinterest, as Mães das Noivas são as maiores muralhas nesta coisa de casar vestida de branco, como deve ser.

Com apenas oito anos e uma equipa fixa de quatro pessoas, o atelier da Pureza já levou muita Noiva ao altar. Aquando da centésima Noiva, comemorou-se o sucesso, mas acima de tudo a amizade com um jantar no Cantinho do Avillez.

Também já aconteceu receber uma chamada a dizer que o casamento tinha sido cancelado. Também já aconteceu uma noiva engravidar. Mas isso são apenas episódios que abriram portas a outros caminhos.

 

O CASAMENTO COMEÇA NO SOUTIEN

Esta frase ficou-me.
Perguntei à Pureza se entregava alguma espécie de manual às suas clientes sobre as preocupações a ter quando se faz a requisição de um vestido de noiva e chegámos a esta frase.
A primeira coisa de um casamento, para uma noiva, é o soutien, porque o casamento começa no soutien que a noiva trouxer no dia da primeira prova: o vestido será todo ajustado para encaixar naquele corpo que veste aquele soutien.
“(…) No princípio era o verbo (…)”.
Neste caso é só mudar verbo para soutien, e temos o princípio do casamento, que é um exclusivo reservado à Noiva, mais concretamente ao soutien da Noiva. Ao soutien que levará durante toda a viagem.
Ser Noiva dá muito trabalho: começar um casamento num soutien significa que é preciso pensar no detalhe do  soutien com, pelo menos, uns seis meses de antecedência…! Quando não é com um ano e meio de antecedência, o recorde até agora.
Os sapatos, o penteado, a maquilhagem… Isso vem tudo depois e tem uma solução mais simples, a qual surge naturalmente em frente ao espelho de moldura dourada que repousa no chão de um cantinho da sala de provas, em cima do quadrado estofado entre tecido cortado, linhas de alinhavar e alfinetes. Mas o soutien, esse, tem de lá estar desde o minuto zero.

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À PROVA

Com toda a sorte do mundo assisti a uma prova final e entrega do vestido de uma Noiva que a esta hora já está casada e em lua de mel.
Casaria daí a um par de dias e vinha fazer a última prova e levar o vestido, que eu vi a receber os últimos pontos e um calor do ferro.
Acompanhada da Mãe, não houve qualquer problema em deixar-se fotografar.
O vestido é tudo o que ela mais queria e ali estava, com o soutien que a acompanhava desde o primeiro dia, mais a Mãe que também a acompanhava desde o primeiro dia, e os sapatos em nude (conselho da Pureza – que dá imensos conselhos e ajuda a capitalizar recursos numa ocasião em que tudo é caríssimo – muito elogiado pela Mãe da noiva, que gabava a ideia de comprar uns sapatos que depois poderia voltar a usar). Em frente ao espelho sentia-se magnífica, mas já tinha emagrecido mais do que a conta (muito comum nas Noivas) e estava doente com uma faringite que nem a deixava comer decentemente (também muito comum, esta coisa de adoecer antes de casar).
A cauda do vestido parecia comprida demais.
O tronco torcido em espiral, a cabeça para trás e a cauda do vestido ali, a invadir o chão em círculo.
Não queria cauda, tinha pedido para cortar toda a cauda, e ali continuava o tecido a fazer com que parecesse muito longa.
A Pureza mostrou-lhe um atilho no interior da cauda, que podia prender num dos botões para poder dançar na sua festa.
Desvendou-se o enigma: a Mãe queria mesmo uma cauda um pouco maior. No dia em que a Noiva pediu para cortar o vestido para que não tivesse cauda, a Mãe enviou uma mensagem à Pureza a pedir-lhe que não o fizesse, que deixasse um pouco de cauda…

Neste #trashediastoliyourlook não iria desperdiçar a oportunidade de fotografar o habitat natural da Pureza, pelo que tivémos direito aos cocktails mais incríveis, feitos ao domicílio pelo Spirit Specialist da Stolichnaya, Frederico Nunes: framboesa e lima, limão e manjericão. Duas combinações delicadas e frescas, pensadas de propósito para a ocasião, toda ela delicada e fresca. Dois cocktails refrescantes, doces e ácidos, complexos e… Tão fáceis de beber!…


Para saberem como a encontrar, PUREZA MELLO BREYNER ATELIER. Facebook e Instagram.

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9 Discussions on
“O CASAMENTO COMEÇA NO SOUTIEN | #trashediastoliyourlook”
  • Adoro os vestidos da Pureza e adoro quando as noivas que vou fotografar escolhem a Pureza para fazer os seus vestidos! Fico com a certeza de que será um vestido único e diferente de todos os outros! E adorei ver aqui o atelier, que mimoso!! <3

  • Só é pena que a política para atender clientes seja tão má, desde atrasos de 45 minutos que não merecem sequer um pedido de desculpa, às provas adiadas no último minuto, ao compromisso para fazer uma coisa que depois na prova se revela completamente diferente e ainda as noivas a quem pede 800 e pela mesma coisa pede a outras 5000, enfim muita falta de profissionalismo no dia-a-dia desta senhora. Já nem falo dos acabamentos….OMG! Infelizmente a vida não são só as maravilhas contadas no facebook e no Instagram.

    • Maria,
      Não sou cliente do Atelier da Pureza, pelo que não posso concordar ou discordar da sua opinião, se é que é isso que procura.
      No dia em que esta entrevista se realizou não assisti a nada do que relata: as provas que estavam marcadas aconteceram nas horas previstas, os acabamentos pareceram-me impecáveis. Naturalmente não presenciei nenhuma discussão ou negociação de preços, muito menos as outras experiências que relata no seu comentário.
      De facto a vida não são são as maravilhas contadas no facebook e no Instagram, mas se conhece aqui o que se passa na TRASHÉDIA, pode ter a certeza que não costumo contar mentiras ou inventar coisas bonitas. Tudo o que aqui vem parar, vem tal e qual como sucede.
      Espero que volte e que venha ler outros textos.
      Joana

  • Lamento que o seu blog não seja isento! Você filtra os comentários que contam o que na realidade foi este serviço e esconde-os. Você não presta um serviço de informação às possiveis interessadas. Shame on you!

    • Cara Mãe da Noiva,
      Esta página não é um serviço, é um blogue.
      E tenho o direito de filtrar a informação que me apetecer, precisamente por isso. De qualquer forma é bastante comum aprovar todos os comentários desde que quem comenta esteja devidamente identificado, que não é o caso: “Mãe da Noiva” não é uma identificação fidedigna.
      Seja como for, a melhor forma de reclamar dos serviços do Atelier em questão não é, certamente, através de comentários anónimos num artigo, é junto do Atelier.
      Aqui pode voltar sempre, desde que não traga essa atitude toda.
      Joana

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