Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

O Papel Principal é Dela | #trashediastoliyourlook

Imaginem assim uma conversa que começa mil e uma vezes, que desata imensos assuntos, mas que nunca chega a dar laços nos atacadores e está atrasada para uma festa, vai para a rua com os sapatos por apertar e cai e esbardalha-se toda, mas depois desata a rir à gargalhada por causa da figura ridícula que acaba de fazer, chega à festa com os joelhos esfolados e a máscara das pestanas a escorrer cara abaixo de tanto rir, e é a Rainha Suprema.
Apresento-vos Carina Caldeira.

Conheci-a há uns quatro anos.
Foi também a primeira vez que a vi.
Loiríssima, enorme.
A Carina é uma daquelas pessoas que do alto do seu metro e sessenta e qualquer coisa, emana muita grandeza.
Quem se aproximar dela, está automaticamente a viver a sua cena, que é HIPER: é glitter e unicórnios e coisas bilhantes e princesas e cowboys e médicos e futebol e dragões, pistolas, Tios e Tias, o Pai e a Mãe, o Marido e os Amigos, varinhas de condão, castelos encantados, sofás de purpurinas, animais, praia, acordar tarde ou super cedo, um jantar e três festas na mesma noite, uma exposição, um abarço a um amigo, a porta escancarada, mil revistas, uma acção sabe Deus onde às sete da manhã mais uma festa do pijama, e por aí fora. É uma espécie de Natal, só que permanente.
É das únicas pessoas que conheço cujo lifestyle é mesmo digno de ser fotografado e instagramado. Porque a láife da Carina tem mesmo muuuuuito stáile.

Podíamos ter produzido este artigo em sua casa, dentro do seu closet, mas escolhemos o Bistrô 100 Maneiras, porque foi aqui que jantei mais vezes com ela. Além de que jamais seríamos capazes de fazer cocktails com roupa ao lado, para abrilhantar o encontro. E o artigo. Ligámos ao Nuno e escolhemos passar lá bastante cedo, numa destas tardes em que a luz do dia já dura um bocadinho mais e apetece estar com roupa mais airosa, só que é melhor não, senão perdemos o despertar da Primavera e tudo o que esta altura oferece, por estarmos em casa doentes.

Até saber quem era, só sabia que a Carina era essa personagem barroca, maximal.
Depois soube quem era, onde viveu, como cresceu e o que estudou.
E quando me sentei para escrever este artigo, percebi que, se em muitas biografias tenho estas coisas em conta como condicionantes relativas à experiência individual de cada um, os locais por onde os sujeitos passaram, etc, no caso da Carina, a conclusão é simples: ela é que passou pelos locais e os locais é que ganharam ou perderam com Ela.
O Papel Principal é dela.
Ela é que é a Rainha da Noite.

Sugeri-a para esta rubrica porque achei interessante fotografar e explorar uma pessoa mediática (a Carina Caldeira é a apresentadora de “Azul ou Branco”, do Porto Canal e de “Soccer Cities”) sem essa aura de mediatismo com a metapersonagem em riste.
Tal como vos disse, não sabia o que fazia até que ela mo disse, e isso não alterou em nada a forma como nos relacionamos. Nem ela esperou alguma vez que reconhecesse a sua “fama”, nem eu passei a tratá-la melhor ou pior em função da sua profissão.
Qualidades.
E a Carina é um poço delas.

Escrevinhei qualquer coisa como “tem quatro cães e acho que é possível entender a quantidade de vidas que é a Carina através do retrato dos seus quatro cães, tão variados como uma Yorkshire, uma Bulldog Francês, uma Pitbull Blue Nose e uma Rafeira. A Carina é esta quantidade de amplitudes toda. E consegue dar conta do recado, porque isto lhe é natural, porque é muito simples articular os passeios, os tempos, os mimos e as festas de todos estes animais que fazem parte do seu agregado familiar.” Mas depois decidi que este parágrafo perderia toda a importância se vos relatasse este episódio simples que se passou enquanto esperávamos pelas nossas bebidas: estando ao balcão do Bistrô 100 Maneiras, um dos vários espaços do Chef Ljubomir Stanisic, em Lisboa, ali na cara do bolo de frente para a entrada de artistas do Teatro da Trindade, pedimos um par de cocktails. As únicas clientes éramos nós, porque era de facto muito cedo.
O bulício de um restaurante antes de abrir as portas ao público é muito divertido e familiar e apenas acessível a quem não se importa de trocar uns dedos de conversa entre chefs que surgem para ouvir uma música ou conversar um pouco com o Nuno, uma das figuras simpáticas que nos recebe sempre de braços abertos quando vamos ao 100 Maneiras. Ao balcão sinuoso prepararm-se as bebidas que nos deixariam a nós sinuosas, cocktails clássicos e outros criados ali mesmo entre o latão, o xisto e o mármore.
Estávamos sentadas a pôr a escrita em dia com o Mixer à nossa frente, quando a Carina pergunta a um senhor que também estava ao balcão o que é que ele estava a fazer ali àquela hora com aqueles papéis?
– Estou a tratar da manutenção.
– Da manutenção de quê?
– De um sistema de selagem a vácuo para vinhos.
– Ahhhh! – Que interessante! E onde é que está essa máquina?
O senhor apontou para a máquina. E a Carina levantou-se do banco alto para ir lá espreitar o vulto. – E vende isto para casa?
– Pode ter um sistema destes em casa, se quiser. Imagine que abriu uma boa garrafa de vinho e vai para Nova Iorque ou para Shangai ou Tóquio, e não quer que o líquido perca qualidades; sela a garrafa a vácuo com esta máquina e conserva as propriedades do vinho até regressar, ou até lhe apetecer outro copo. Em casas de particulares, em Portugal, só há três. Mas conversamos e vou a sua casa ver se há possibilidade de instalar um sistema destes.
– Ah, para mim é excusado que eu não gosto de vinho, mas tenho um Tio com uma garrafeira enorme que era capaz de gostar de uma coisa destas – era uma boa ideia para presente. Quanto é que custa? E é o senhor que vai lá? Tem um cartão? Vai ao Porto? Deixe-me só ligar para ver se ele está lá esta semana.
E continuou no telemóvel a tentar ligar e a tratar de tudo.
O senhor, num gesto rápido, entregou-lhe um cartão e a Carina guardou-o religiosamente na mala, já que o Tio não atendia.

A Carina é, toda ela, um estrondo.
Um estrondo simples.
Enorme nos afectos e nas relações. Ama os amigos e tem toneladas de amigos, que apoia incondicionalmente, em tudo o que fizerem. Os amigos da Carina são os melhores amigos do mundo e ela tem histórias mirabolantes com todos eles, que partilha generosamente com todos os outros amigos, porque ela é assim. Está sempre a ligar uns amigos aos outros e a criar sinergias. Há gente que passa vidas a tentar isto como profissão e não consegue sucesso algum.
Neste dia em que nos juntámos ia à inauguração do restaurante que um amigo que vivera com ela em Nova Iorque tinha aberto em Lisboa, mas que só inaugurava naquele dia. Lembra-se das festas a que foram juntos com pessoas da mesma turma. E ia, naturalmente, apoiá-lo. Também havia uma festa na Prada, mas ela não ia, porque queria dedicar o final de tarde ao Sebastião e à sua capacidade empreendedora.

Enquanto bebíamos os nossos cocktails, a Carina esperava pelo marido, que vinha ter com ela, para irem juntos. São apaixonados há dez anos. Casaram em Las Vegas há dois.

Bebemos um Red Sky From The East (que têm de ir beber ali ao 100 Maneiras, porque é uma invenção local, logo não tem link com receita, etc…) e um Moscow Mule, dois cocktails feitos com Stolichnaya e que nenhuma de nós provara antes.
Daniel Zamith, o Mixer de serviço formado na escola 100 Maneiras, ofereceu-nos uma óptima amplitude de sabores em apenas duas tomas.
No mason jar – super Portland, Oregon, USA – uma profusão frutada vagamente oriental de um doce suave, numa mistura de lychias combinada com vários elementos cítricos. Na caneca de cobre, um clássico forte mas delicado, o Moscow Mule, feito com ginger beer e lima.
Pegámos nos copos e sentámo-nos num canto acolhedor do primeiro andar para aproveitar as bebidas, a oportunidade de conversar e a vista sobre a Rua da Misericórdia naquele fim de tarde ainda frio, sem Red Sky From The East, apenas com uma névoa púrpura vinda do Tejo, que galgava Rua do Alecrim acima e humedecia toda a colina até ao Príncipe Real.

Despedimo-nos e vim para casa escrever, pouco sinuosa, para tentar não revelar todos os nossos segredos.

22
2 Discussions on
“O Papel Principal é Dela | #trashediastoliyourlook”

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.