Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

O QUE EU ANDEI PARA AQUI CHEGAR | TRASHEDIASTOLITHENIGHT

Prepara-se uma noite de arromba no Casino de Lisboa, um local cuja natureza já é, por si só, atarefada.
A área de jogo é muito atraente. Não sei bem porquê, há um encanto incrível em máquinas de jogo e nos seus neons coloridos. Para além dos néons, a luz do Casino é vermelha, por isso tudo tem um tom cor de rosa. O vermelho das luzes dissipa-se até cá abaixo e a luz difusa que fica no ar é cor de rosa. Ficamos todos cor de rosa.
Eu estou aqui a ver gente para trás e para a frente enquanto espero pelo meu convidado de hoje, o Rodrigo Alves, TROLL2000, para quem não sabe.

Conheço-o “daí” já lá vão doze ou treze anos. Primeiro dos concertos de hardcore onde nos cruzávamos, depois da noite, onde também nos cruzávamos. Ele é uma figura inconfundível, e Lisboa é uma cidade pequena, com uma cena pequena. Quer de uma coisa quer de outra.

Quando conheces uma pessoa daí, é difícil fazer-lhe perguntas, porque é difícil perceber por onde é que queres começar a saber coisas, sem cair nos lugares-comuns do costume que te fazem não ler as entrevistas até ao fim.
E percebo que tenho pela frente um trabalho particularmente difícil.

O Bruno prepara dois cocktails, um AMOR PERFEITO e um LAVENDER PASSION FRUIT, e eu vou tirando notas à medida que conversamos e que nos dirigimos a uma mesa para pousar os copos, tão bem servidos com bebidas tão bonitas.
Dá sempre pena beber estes cocktails!…

Uma das coisas que caracteriza melhor o Rodrigo, desde que me lembro dele, é que está sempre a sorrir. Acha graça a montes de coisas, consegue encontrar ironia em quase tudo e dar risada em quase todas as situações, o que é raro. Lembro-me sempre dele a rir.
É uma óptima memória.
A vida tem sido fixe para ele.
A primeira pergunta é simples e tem a ver com a origem de como chegou à música. A irmã, mais velha sete anos, introduziu-o à música e ele soube aproveitar a boleia: os anos oitenta foram muito ricos. Do rap ao grunge, entrei nos anos noventa a vestir-me de preto, a fugir de casa para ir ver os primeiros concertos na Incrível Almadense e a descobrir que a música pesada não se resumia apenas a trash/death metal e seus derivados. Mas depois comecei a querer descobrir mais música porque me comecei a sentir parado no tempo depois de muitos anos a ouvir quase sempre o mesmo. Quando assim é, todo o processo de descoberta é natural; o meu início foi com a música electrónica experimental, e a partir daí fui descobrindo todas as suas ramificações. 

O preconceito – essa arma mortal para a evolução da espécie – muitas vezes levanta questões um pouco parvas relativamente ao gosto ou à evolução da cena de cada um. Calculo que isso tenha acontecido muitas vezes com o Rodrigo e por muito que até tenha um certo pejo em perguntar-lho, não vou de modas e cá vai. O circuito das bandas e do Hardcore em Lisboa era muito restrito e tu fizeste parte dessa cena, dessa tribo exclusiva… O circuito hardcore em Lisboa era lindo, todos esses anos foram incríveis para mim e acredito que para as pessoas que os viveram também. Todas as fazes de descoberta são magnificas, sempre quis estar envolvido em todas elas, fosse através da distribuidora de discos, de fazer fanzines ou de ter várias bandas. Olhando para trás, parte da minha filosofia de vida ainda continua a ser assim, não restrita nem impenetrável, mas underground sempre. E então mas como é que chegas à música electrónica? E lembro-me sempre de uma frase da Primitive, dos Parksinsons, em que se ouve o Afonso a cantar assim com uma voz muito arrastada, parece que tem a boca cheia de batatas, “(…) Oh Baby it’s a long way to nowhere (…)”. Esta estrofe musical é, para mim, paradigmática, e está muitas vezes presente na banda sonora da minha vida, quando faço retrospectivas mentais e vejo assim imagens a passar à minha frente. Sem saudosismos, só mesmo “(…) Oh Baby it’s a long way to nowhere (…)”

A meio desse caminho, o Rodirgo, como não sabia tocar instrumento nenhum, foi vocalista de bandas porque os meus amigos me diziam que gritava bem. É válido. No entanto, a música electrónica só chegou até mim no fim dos anos 90. Antes disso não saía à noite, ria-me de quem calçava Jimmy Doylle ou ouvia martelinhos. Só que tinha um grupo de amigos com quem estava frequentemente, alguns deles já eram DJs e tocavam drum n bass/jungle, e foi nessa altura do final dos anos noventa que me liguei mais à electrónica.
Depois quis o destino que uns amigos abrissem em Almada um bar que era mesmo ao lado da sua casa, e daí até ser presença habitual nos pratos foi um passinho. Se por um lado o deixavam estar ali a praticar, porque na altura ninguém tinha um equipamento de DJ em casa e eu também não, por outro começou a interessar-se cada vez mais pela carreira de DJ e pela ideia de comprar discos de vinil para conseguir aguentar um set de uma noite inteira. E foi ali, na cidade onde nasceu e que o viu crescer, que o Rodrigo começou a sua carreira de DJ.

A meio do percurso escolar, optou por tirar um curso tecnico-profissional de artes/design e como começou logo a trabalhar, não quis seguir pela via do ensino superior. Embora tenha sido designer gráfico durante cerca de oito anos, a música tem sido sempre a sua profissão. Quer com a gritaria dos tempos do hardcore, dos quais guarda com muito carinho as amizades, as k7 e as fanzines, quer com as primeiras noites atrás dos pratos no bar dos amigos, ou mais tarde com o primeiro convite para tocar no Bairro Alto, em Lisboa, no início dos anos zero. Almada foi ficando cada vez mais do lado de lá do Tejo para se estabelecer em Lisboa, dia e noite. Mais à noite que de dia, porque um DJ tem horários de vampiro. Mas são só mesmo os horários, porque se há coisa que um DJ é, é generoso, e nisso o Rodrigo não é excepção. A noite é melhor se tiver a sensação que estou a fazer a banda sonora daquele momento, para aquelas pessoas, que quero manter interessadas, porque isso é um bom feedback para a minha actividade… Ser DJ é uma actividade muito solitária, que acaba por ser desgantante ao fim de quatro ou cinco ou seis horas, e infelizmente ás vezes há pessoas que não entendem isso.


É curioso ouvir sempre esta parte acerca do ofício que motiva esta rubrica: a solidão do DJ na noite. E não é porque a música esteja muito alta e ninguém consiga vir falar com o DJ, nem que seja para pedir uma música que ele provavelmente não tem, é porque o DJ está ali, sozinho, isolado, a assegurar-se que na festa tudo irá correr bem, porque a música é uma das partes importantes do que é a noite e a percepção actual que temos dela. E também das expectativas.
Talvez por isso da solidão do DJ e porque nunca deixou de perseguir o sonho da liberdade total no trabalho, o Rodrigo é, às portas de 2018, o proprietário da PeekABoo Records, a sua loja de discos, na Bica, de onde no ponto mais alto, se consegue avistar Almada. É incrível poder estar a trabalhar numa coisa que gosto e num negócio que é meu, não ter que prestar justificações a ninguém por aquilo que fazes sempre foi o meu sonho. É gratificante quando as pessoas me dão os parabéns por a selecção músical que escolho para a loja, apesar de estar num local onde existem outras lojas de discos, a direcção musical que escolhi faz parte do meu universo e quis que fosse uma espécie de loja onde eu entrasse e me apetecesse comprar tudo. Por estar no centro da cidade, 90% das pessoas que visitam a loja são turistas, muitas das vezes ou já ouviram falar da loja, ou são amigos de amigos que vêm recomendados. Entram e sabem muito bem o que querem, ao contrário do público português que ás vezes se sente um pouco perdido por eu não vender Rolling Stones ou Pink Floyd.
Diz que os seus clubes preferidos são o Plastic People, o Lux Frágil, o Lounge e o Damas. E a parte mais divertida disto é que quem nos recebe no Casino é o Miguel, o mítico porteiro do Lux que acaba de regressar às portas desta vida, no Rive Rouge.

Lisboa é pequena, a cena é pequena.
Vamos todos crescendo, evoluindo, as cenas intersecionam-se e quando a estrada para o nowhere dos Parkinsons (e a nossa) se parecer com alguma coisa, vamos perceber que afinal todos nos conhecemos e que o mundo é um lugar harmonioso e fixe e que tudo é o que tem de ser.
Esta entrevista diz-me isso, e a cara do Rodrigo confirma-o.

6

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.