Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

O SERVIÇO

Só me sinto à vontade para falar de temas que conheço e acerca dos quais tenho alguma experiência, e no caso da hotelaria e restauração, tenho de sobra, por isso, quando reflecti pela primeira vez e segunda e terceira sobre se deveria escrever este texto, nunca tive dúvidas sobre o que por aí vem, só tive dúvidas se seria eu a única a achar que o problema que assola o país mais do que a crise é, essencialmente, o serviço.

Penso que o serviço em Portugal é péssimo porque não se formam os empregados, que é assim que lhes chamam, empregados.
E acho que o problema do serviço começa precisamente aí, no momento em que as pessoas que trabalham nos sítios são empregados.
O substantivo emprego deriva do latim implicare, que resulta da utilização do prefixo in a plicare, que servia para denominar uma acção concreta, de dobrar ou enrolar – plicare. Inplicare significa então juntar ou unir ou envolver, pelo que não é muito difícil chegar à conclusão que inicialmente o termo servia para dizer que um indivíduo estava envolvido na realização de uma acção ou tarefa.
O termo evoluíu e chegou ao “emprego” que conhecemos hoje no séc. XV. Acho que também isto do termo nos chegar impoluto a 2016 vindo do séc. XV, diz muita coisa.

Ora em Portugal, este país de gerações e gerações de gente fina e chique a valer, nada como no mês de dar corda ao subsídio de férias e ao reembolso do IRS e de proporcionar um óptimo aviamento ao Visa, ter, finalmente, empregados.
Quer dizer, passa-se um ano inteiro a ser empregado de alguém, logo o mais lógico e libertador é, no momento em que deixa de se ser empregado de alguém, submeter-se outro alguém à lógica empregadora vigente, que consiste em rebaixar, tratar abaixo de cão e ofender quem está ao serviço. É simples. É Lacan.
Eu por mim acho que o problema do serviço começa aí.

Fui empregada de mesa e cozinheira mais anos dos que fui outra coisa qualquer, e porteira de discoteca também. Também fui empregada de loja. Lavava pratos, tachos, talheres, copos, chão, casas de banho, mandava e-mails, fazia orçamentos, encomendas, geria stocks, arranjava pés de porco, desmanchava borregos inteiros, preparava caterings e arranjava mesas para o Príncipe. Vendia roupa, bilhetes ou refeições a gente grossa e fina, sempre com o mesmo sorriso e da forma mais acessível possível.
Somados todos os tempos de serviço de todos os dias em que fui empregada, sou empregada na minha própria entidade empregadora. Pode soar a confuso e até fantasioso, mas sim, sou empregada.
Também tentaram muito que fosse a sua empregada muitíssimas vezes, só que eu nunca me senti nem empregada, nem consequentemente inferior. Não me relaciono com essa ideia e tenho para mim que isso chateia a clientela infinitamente superior pelo simples facto de estar a consumir.
Podia contar-vos mil exemplos.

A formação deveria começar por aí, por explicar às pessoas, futuras empregadas, o que é ser empregado. Devia explicar-se às pessoas que trabalhar é a cena mais fixe do mundo porque permite muitas coisas, entre elas ganhar dinheiro para pagar contas, comprar mais gigas de internet, ajudar a família, ir a um festival, foder tudo na Bershka ou ir a Londres na Easyjet.
E dou estes exemplos porque o serviço, em Portugal, é realizado por putos que estão de férias de Verão a levar com o pincel de aturar gente que não se sabe comportar, quando os outros empregados também estão de férias de Verão a comportar-se mal para os outros putos que estiverem por aí a tapar buracos.
O Código de Trabalho não tem de ser um recurso “comuna” disponível aos injustiçados, porque é um documento que encerra em si muita poesia. Permitam-me declamar uma passagem, que diz respeito à contratação de menores e que reza assim no ponto segundo do art.º 67º do Código de Trabalho: “O empregador deve assegurar a formação profissional de menor ao seu serviço, solicitando a colaboração dos organismos competentes sempre que não disponha de meios para o efeito.”

Os putos não têm formação.
Mas a culpa não é deles.
Não sabem receber os clientes, gerir uma sala, levar um talher à mesa, explicar um prato ou abrir uma garrafa de vinho porque ninguém lhes ensinou como é que se recebem clientes, se leva um talher à mesa, se explica a confecção de um prato ou abre uma garrafa de vinho. Os putos deviam saber atender o telefone para anotar uma marcação porque não dá ainda para marcar mesa por Snap, é verdade, mas se ninguém lhes ensinar, como é que eles adivinham? É que o simples acto de marcar uma mesa num restaurante (daquelas cenas maioritariamente pedantes que se tornaram normativas e que ainda hoje tenho dificuldade em compreender) não é intuitivo, não está num tutorial do YouTube e em última instância não é uma acção comum para um puto que vá trabalhar no Verão. Não só o puto não costuma marcar mesas, como é provável que não coma em restaurantes, etc, etc, etc… Não porque esteja a encerrar os putos numa categoria pobre, mas porque aos putos em geral se lhes ensina transversalmente que trabalhar é para os adultos e para os pobres e uma forma de oprimir os adultos pobres. Mas… O que é ser pobre? É uma condição inteiramente monetária? É que para mim a Kim Kardashian é pobre… Retomemos: ora se o puto não costuma marcar mesa porque no Mc se pede ao balcão… Como é que se faz? Ensina-se. O mesmo com a ementa. É preciso explicar as ementas aos putos, levar os putos às cozinhas, e na loucura já extrema mostrar como é que se confeccionam as coisas e dar essas coisas a provar. Oitenta por cento das vezes (e falo com a tal experiência de que já vos falei) os putos nunca provaram nada daquilo que se vende na ementa. O mesmo com tudo o resto. Com a forma de por a mesa, de levantar a mesa, levar a conta… Enfim.

Esta semana, enquanto almoçava entre uma coisa e outra, na esplanada de um restaurante nas docas, observava mais uma vez o terror do serviço: um excesso de empregados desorientados andava de cabeça baixa (um clássico, porque também não se explica aos empregados que têm de andar de cabeça erguida a ver se alguém precisa de alguma coisa, porque empregado que é empregado anda de cabeça baixa, porque, lá está, é empregado) a correr de um lado para o outro. Todas as mesas estavam insatisfeitas e mal servidas.
Na mesa ao lado de onde estava sentada, uma empregada via-se grega: tinha um cliente português aos berros de uma mesa a dizer que estava há quinze minutos há espera (os clientes têm sempre todos imensa pressa), e outros clientes à espera de um branco bem fresco, que queriam decantado (LOL).
Ela não sabia o que fazer para gerir a situação.
Também não sabia usar um saca-rolhas.
O meu marido estava de mãos a tapar-lhe o rosto – qual filme de terror – a sofrer ao vê-la, coitada. Já tinha estraçalhado meia cápsula com a ponta do saca-rolhas e estava quase a partir o gargalo da garrafa com a força que fazia para puxar a rolha.
Estava atrás de mim.
Estiquei o braço e tirei-lhe a garrafa da mão. Tudo tão fácil. Não se opôs. A facilidade com que lhe tirei a garrafa da mão demonstra a sua indefensabilidade naquela actividade. Acabou por vir atrás da garrafa.
“Olha, vês aqui? Este saca-rolhas tem duas partes juntas por uma dobradiça. Servem para que abrir uma garrafa de vinho seja super fácil. Já tens a rolha espetada, só precisas de puxar. Mas não se puxa, só se utilizam as potencialidades desta ferramenta.” E mostrei-lhe. “Um. Dois. Já está.” – Abri-lhe a garrafa do vinho sem esforço ou barulho. Ela ficou à beira das lágrimas de felicidade, mas não agradeceu, porque os berros do outro aumentavam ao ver que a rapariga ainda por cima precisava de ajuda para resolver uma situação e passar à resolução da próxima.

Não é porque os putos hoje em dia não queiram saber.
Não.
Não é.
É porque ninguém ensina.
Eu não sabia nada e a mim ensinaram-me. Todas as pessoas me ensinaram como é que se fazia, porque é verdade que se aprende com todas as pessoas. É preciso é que nos ensinem a aprender com todas as pessoas. Essas pessoas que nos ensinam que é possível aprender com todas as pessoas são geralmente chatas e chamam-se pais, patrões, chefes de sala, colegas e livros. E vídeos do YouTube e músicas do Spotify e posts do Instagram e Snaps.
É preciso é ensinar os putos e abandonar de uma vez o ideário que perpetua a subjugação do próximo que está a servir.
Sem revolta.
É preciso ensinar que não se é empregado.
E é preciso ensinar que não se é patrão de ninguém.
E também é preciso ensinar que os enólogos e os críticos gastronómicos certificados pelo Boa Cama Boa Mesa não têm sempre razão.
Que a relação entre as partes assenta num conjunto de direitos e deveres que têm como objectivo harmonizar a relação entre as partes e evitar situações desfavoráveis a ambas.
Que o sucesso é para partilhar e se constrói se todas as partes forem melhores e trabalharem numa lógica de superação.
Também é preciso explicar coisas simples como a maximização das tarefas e a hipótese de acrescentar valor aos serviços aparentemente inferiores através do que é a experiência anterior do indivíduo.
É preciso ensinar a vender, da mesma forma que é preciso aprender a comprar.
Mas é preciso ensinar antes do Verão, para que o Verão seja mais eficaz.
Como a importância da limpeza das florestas no combate aos incêndios.

O serviço faz-se, de facto, de um lado ao outro, mas é fodido, porque assim, o serviço da área da hotelaria e restauração, no Verão, é um nojo de parte a parte.

 

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2 Discussions on
“O SERVIÇO”
  • Que texto tão bom! Adorei a parte daqueles que se esfalfam o ano inteiro para depois em Agosto terem o brilho nos olhos porque vão poder mandar/”desmandar” em alguém. É a sofreguidão pela sensação de poder pequenino. E eu que também sempre trabalhei enquanto estudei e a mim ninguém me ensinou, e tive, portanto, alguns dissabores em frente aos clientes, que durante alguns anos dei tanta formação de Atendimento ao Cliente, valorizo tanto isso e sou tão atenta em todos os sítios que frequento. E como dizes, não, dá-se muito pouca formação às pessoas para se atender um cliente, onde quer que seja. E depois é uma bola de neve… trabalhadores frustrados com o trabalho, ganham mal, atendem mal, clientes insatisfeitos… e depois temos os donos dos negócios a questionarem-se o que é que está a correr mal no negócio. Pois…

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